Há poucos lugares onde se sente a nostalgia no ar e em cada passo, como em Hollywood. Notei, na visita feita em julho que, tudo ali lembra o passado, como uma velha senhora apaixonada pelo reflexo da sua juventude. Vejam Glória Swanson, em "Crepúsculo dos Deuses". O fantasma de Marilyn Monroe ainda causa suspiros nos turistas, com sua figura em cera debruçada sobre a calçada da fama. Em frente ao breguíssimo Chinese Theatre estão os autógrafos e as marcas das mãos das celebridades impressas no cimento. Hoje uma zona de compras, o shopping reconstrói sem nenhuma graça os cenários do clássico Intolerância, de D.W. Grifith, com seus elefantes babilônicos. O nome Kodak, intimamente ligado ao cinema pelo domínio do mercado de películas e papel fotográfico durante mais de um século, brevemente terá sua logomarca substituída pela Nokia no teatro onde são entregues as estatuetas do Oscar. A Eastman Kodak, em estado falimentar, não tem mais US$ 2,5 milhões para emprestar seu nome ao palco do maior acontecimento anual da indústria cinematográfica. Bem em frente está o Hotel Roosevelt, onde teve lugar a primeira cerimônia da Academia. O tapete vermelho é protegido com uma capa plástica transparente. Deixa a impressão de que não há mais dinheiro para outro. Sem a passarela encarnada, aquele "momento Kodak" das estrelas perderia a graça. A Kodak faliu vítima da fotografia digital que ela mesma inventou, por não ter acreditado na própria criação. A competição do Oscar 2012 está entre "A invenção de Hugo Cabret" e "O Artista", dois filmes sobre o próprio cinema. São "metafilmes". A Invenção de Hugo homenageia o cinema francês e o francês O artista é um tributo à idade de ouro de Hollywood. Uma dose extra de sedução nostálgica e romântica, reforçada pela tentativa de ressuscitar a diva por excelência, em "Sete Dias com Marilyn", vivida pela forte candidata Michelle Williams. O artista foi filmado em preto-branco-mudo. Teve dez indicações contra onze de A Invenção... O primeiro deu muito mais bilheteria. Para o colégio de 5.800 votantes, a maioria produtores, o poder da grana fala alto. A película de Martin Scorsese ainda não saiu do vermelho e custou dez vezes mais. Isto a indústria não perdoa. Os bauruenses, tratados como jacus interioranos têm poucas opções de assistir aos listados ao Oscar. Ousei ir ao Multiplex do Shopping para ver o desempenho de Scorsese, obrigado a sentar numa poltrona ensebada. Aquela mesma desde a inauguração pela empresa Araujo Passos. Um nojo. Antes de sentar são necessários dois vigorosos tapas no assento para derrubar os restos de pipoca. O ingresso de cinema, em Bauru, é mais caro que em Nova York. Depois da sessão, o espectador ainda tem que amargar uma longa fila para pagar o estacionamento. Ainda bem que o filme compensa e o projetor é bom. O espetáculo tridimensional sobrevoa a Paris dos anos trinta para cravar-se no mesmo coração do nascimento do cinema, representada pela figura de Georges Méliès. Ele foi o inventor, o pioneiro e o mago de uma indústria capaz de criar os mais assombrosos sonhos e fantasias. É paradoxal que Scorsese tenha se utilizado de uma câmera 3D, do mesmo fabricante da Arriflex pioneira. Segundo conta a lenda, na projeção de uma película feita pelos Irmãos Lumière em 1895, sobre a chegada de um trem à estação, os espectadores saltaram da poltrona ao ver a locomotiva acercar-se na tela. Pelos olhos do garoto Hugo nós vamos mergulhando nesse reencontro com os primórdios do cinema. Durante a sua aprendizagem são projetados fragmentos de filmes, além de Lumière, de D.W. Griffith, Buster Keaton, Charles Chaplin, Harold Lloyd e da Viagem á Lua (1902), do mesmo Georges Méliès. O primeiro de ficção científica, e cheio de efeitos especiais! São imagens que poderiam ter desaparecido com o tempo, não fosse um trabalho de preservação. Os celulóides revestidos de nitrato são altamente inflamáveis. No Brasil, a produção cinematográfica inicial se perdeu em incêndios. Calcula-se que 80% da produção mundial do cinema mudo tenham desaparecido. A chave em forma de coração, que permite ao garoto Hugo movimentar o seu robô, é a mesma recebida por Méliès em 1936, para abrir as portas da Cinémathèque Française. A indústria cinematográfica em geral evita fazer filmes sobre filmes, para não quebrar o encanto. Mostrar bastidores dessacraliza o cinema, embora existam exceções. Hoje à noite, fato raro, dois filmes sobre a história do cinema concorrem. Scorsese citou Faulkner, anos atrás: "O passado nunca morre, porque sequer é passado".
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC