É lançada uma pergunta: "Em sua opinião, a realidade do nosso país está mesmo tão ruim como apresentada na mídia?" Será mesmo que todos os problemas expostos diariamente das manchetes televisivas, impressas, entre outras, afetam a rotina diária do brasileiro? Aí se inclui desde saneamento básico e saúde até corrupção e inadimplência nos sistemas públicos. Esta questão terá mais de uma resposta. Simplesmente porque o Brasil é um só, mas há vários mundos dentro do mesmo. Vários pedaços de realidades distintas separados por uma parede de cimento que praticamente impede a visibilidade de uma para outra. Ou, então, um termo mais comumente usado, várias bolhas sociais. Bolhas com uma proteção tão poderosa que nos fazem ficar alheios ao que ocorre a nossa volta.
Escapemos um pouco da pergunta inicial e exemplifiquemos a situação com um modelo banal, mas interessante. Em nossa cidade, Bauru, vamos adentrar em duas boates: Santa Madalena e Veredas. Enquanto a primeira visa um público principalmente de classe média, a segunda está voltada a um público mais popular. A realidade da classe média é o Santa Madalena: o normal, o correto, o aceitável. Se, por ventura, um membro desse grupo resolver se aventurar na segunda boate, certamente sentirá estranhamento e talvez até um mal-estar por estar presente ali. Por quê? Porque aquilo é diferente, é ruim, é um lugar que ele jamais escolheria para se divertir, porque seria um absurdo sua presença ali. Ora, mas o representante da camada popular, que frequenta assiduamente o Veredas, irá pensar assim? Provavelmente não, pois é seu ambiente, sua realidade. Uma vez que esse cidadão popular resolvesse experimentar novos ares e fosse ao Santa Madalena, provavelmente iria estranhar o ambiente também (talvez em menor nível que o sujeito da primeira situação).
Passado esse momento de analogias, voltemos à pergunta inicial. Se ela for feita a um jovem cidadão, pertencente à classe média alta de São Paulo capital, que anda com seu carro zero pelas ruas e não tem maiores preocupações, sua resposta muito certamente será que "não, o país até que está bem e eu não tenho maiores problemas". Percebam aí o uso do pronome "eu". Passemos então a pergunta para outro jovem cidadão, desta vez morador de um bairro pobre da mesma cidade São Paulo. Ele se vê frente a frente com problemas citados no começo do texto. É ele a pessoa que aparece reclamando dessa situação nos telejornais transmitidos pra outras pessoas diariamente.
Quando a pergunta lhe é feita, sua resposta é um sonoro "O Brasil está horrível, parece que não há solução para os problemas". E como isso é possível, sendo que para o primeiro cidadão a situação está tranquila? Citando uma frase antiga, mas útil: são várias faces da mesma moeda. Várias realidades de um mesmo país. Poderiam ainda ser citados outros exemplos, mas termino o texto dizendo lembrando de que o país que você conhece talvez não seja o verdadeiro. Para nenhum dos lados.
Giovani Tabaquim