O percurso para o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) permanecer na cadeira principal do Palácio das Cerejeiras ficou menos acidentado ontem, com a confirmação da desistência do ex-prefeito de Agudos e secretário municipal de Obras daquele município, Carlos Octaviani (PP), de disputar a eleição em Bauru neste ano. O PP perde com a falta de um cabeça de chapa para puxar votos para sua chapa à Câmara e a oposição também, com o enfraquecimento, até este momento, da já não efetiva pulverização de votos necessária para, pelo menos levar a disputa em Bauru para o segundo turno.
O anúncio da pré-candidatura havia sido feita ainda no ano passado, quando ‘Carlão’ transferiu seu domicílio eleitoral para a cidade. O ex-pré-candidato alega motivos pessoais para a saída do processo. Mas, de fato, Octaviani fez as contas e percebeu que teria enormes dificuldades em enfrentar o atual mandatário que, além da máquina nas mãos, tem patrimônio eleitoral e um bloco de apoio (político e financeiro) para dar sustentação ao seu projeto pessoal de permanecer no poder por mais algum tempo.
Sobre sua saída, Carlão foi tão evasivo quanto sua súbita desistência. Ele deixou, literalmente, o PP bauruense nas mãos e, nas últimas semanas, “sumiu do mapa”. Oficialmente, o ex-prefeito da cidade vizinha argumenta que sua decisão não tem relação com a eventual falta de apoio do partido à sua candidatura e também não tem conexão com o fato do presidente da legenda em Bauru, vereador Roberval Sakai (PP), já estar em conversas com outras agremiações partidárias, inclusive o PMDB de Rodrigo Agostinho (PMDB).
“Ele [Sakai] deu todas as condições para que fizéssemos o debate e déssemos prosseguimento na campanha futura. Aliás, saio da disputa com as portas abertas no PP em Bauru. Desisto lamentando muito, pois tenho paixão pela política”, explica Carlão, que diz continuar no cargo de secretário no município vizinho, governado por seu sobrinho, Ewerton Octaviani.
O perfil mais na linha populista de Carlão e o jeitão “brigador” para conflitos da vida pública o colocariam, em tese, no rol daqueles em condições de “tirar votos” de Rodrigo exatamente na periferia bauruense, onde o imediatismo da “proposta” e o “conteúdo” do discurso podem ter menos peso que as discussões mais profundas sobre os destinos da cidade. Sem Carlão, quem ganha, neste momento, também teoricamente, é o governo. A oposição terá de conseguir viabilizar uma lista de candidaturas que retirem votos de Agostinho nas classes C, D e E. Caso contrário, mesmo os mais otimistas sabem que será difícil combater o atual mandatário pela “sedução do eleitor”.
É bem verdade que a oposição tem outras armas, como mostrar os defeitos do governo Rodrigo (e existem vários) e mesmo a quantidade e qualidade dessas realizações com a montanha de recursos que teve nas mãos. Mas, mesmo neste campo, a ausência de Carlão prejudica. O jeito mais falastrão, de pavio curto, poderiam permitir ataques mais diretos contra o atual prefeito. Agora, esta caricatura terá de ser reinventada.
Para o ex-prefeito de Agudos restou manter a esperança de assumir o mandato de deputado federal ainda na legislatura vigente. Atualmente, ele é o terceiro suplente do PP na Câmara dos Deputados e pretende disputar novamente o cargo nas eleições de 2
14. No ano retrasado, Octaviani recebeu quase 3
mil votos em Bauru, performance que impulsionou o lançamento de sua pré-candidatura ao Palácio das Cerejeiras.
Ele sai de cena, por ora, distribuindo elogios aos que poderiam ser seus adversários nas eleições de outubro, citando o próprio prefeito Rodrigo Agostinho, Clodoaldo Gazzetta (PV), Chiara Ranieri (DEM) e Elizeu Eclair (PSDB). “Com certeza, Bauru estará em boas mãos, independentemente de quem ganhe”, tergiversou. Mas, para quem conhece Carlão, sabe que esta frase é apenas “confete de ocasião”. O que ele gosta mesmo é de partir para o confronto político. E disso, com ele pelo menos, Rodrigo se livrou.
Outros da posição lamentam
A desistência de Carlos Octaviani faz mais do que a perda de um nome pela oposição. Mas, por ora, o embate com Rodrigo ainda tem Clodoaldo Gazzetta (PV), em composição com o PPS, e Elizeu Eclair (PSDB). Chiara Ranieri (DEM), apontada como insistência pelo seu partido, ainda não decidiu se vai nem se quer disputar o posto.
Presidente do DEM, Dudu Ranieri lamentou a desistência do ex-prefeito de Agudos. Ele acredita que a presença de Carlão no cenário eleitoral bauruense ajudaria na diluição dos votos para que a disputa chegue ao segundo turno. Quanto à candidatura do seu partido, Dudu pontua que vai aguardar até o limite do tempo possível a decisão de sua filha. “Vale a pena segurar porque ela tem potencial. No entanto, caso isso não se concretize, temos outros nomes, como o meu e do vereador José Roberto Segalla (DEM)”, afirmou.
Já Marcelo Borges (PSDB) diz que segue na defesa de um candidato único do grupo oposicionista, mas pondera que a decisão deve ser tomada rapidamente. Caso contrário, admite que a desistência de Octaviani enfraquece a disputa contra Agostinho.
PP terá de “arrumar a casa”
Com a saída do Carlos Octaviani (PP) do cenário das eleições deste ano, já pré-anunciada por Roberval Sakai (PP) nas últimas semanas, a cúpula do partido deve se reunir no próximo dia 1
de fevereiro para discutir o futuro da legenda.
Sakai, no entanto, evitou descartar a possibilidade de que o PP insista na intenção de lançar candidatura própria à Prefeitura de Bauru. O vereador diz que seu partido dispõe de bons nomes e admite que o dele próprio está entre as alternativas. “No entanto, qualquer decisão vai ser tomada apenas após o diálogo interno”, despista. Mas Sakai sabe, no fundo, que a afirmação é apenas para esperar a poeira assentar.
Agora, de fato, ele e seu partido têm de buscar, rapidamente, uma acomodação. E o preço pode ser caro. Sakai se elegeu com o apoio da oposição para a presidência da Câmara. Mas, se não ficar neste grupo, terá quebrado o discurso e a prática política se voltar a debandar para o lado do governo, onde cargos e “apoios” não faltariam.
Aliás, o PP mantém o dilema em sua bancada. Carlinhos do PS sempre foi Rodrigo e continua sendo. E Sakai agora tem de arrumar a casa, o partido, e decidir, afinal, de que lado está (ou estará nas urnas pelo menos).