Sempre que saía às compras, a empresária Valéria (nome fictício), 44 anos, cumpria um ritual: ao se encantar por uma calça na vitrine, já pensava na blusa, no sapato e na bijuteria que poderiam combinar com a peça. Voltava para casa com, pelo menos, quatro sacolas na mão. Um hábito que se repetia por diversas vezes durante o mês. O resultado foi uma dívida astronômica de quatro cartões de crédito e oito crediários que, até hoje, ainda não foi quitada por completo.
Embora não se considere uma bauruense pertencente à classe A, Valéria faz parte de um grupo que cresce a cada ano na cidade: o de endividados que possuem um bom padrão de vida, mas ficam com o nome no vermelho devido à compulsão por compras. O fenômeno se repete no resto do País e comprova que o crescimento da renda do brasileiro nos últimos anos não foi suficiente para reduzir o volume de endividados.
Segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), nos 12 meses encerrados em janeiro passado, a parcela de famílias inadimplentes com renda inferior a dez salários mínimos recuou de 61,3% para 59,5%, enquanto a de famílias que ganham mais de dez salários subiu de 48,9% para 53,4%, atingindo o pico de 57,7% em maio de 2
11. Em alguns casos, trata-se de pessoas que precisam até mesmo de ajuda especializada para se livrar da compulsão pelas compras, tecnicamente conhecida como oniomania e considerada um vício como o alcoolismo e a drogadição (leia mais abaixo).
A psicoterapeuta cognitiva Marília dos Santos Alvarenga revela que a maioria dos pacientes diagnosticados com oniomania pertence à classe B, mesmo com o maior acesso da classe C aos consultórios nos últimos anos. A mesma realidade é verificada nos atendimentos feitos pela psicóloga Mauricéia Quinhoneiro, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC) de Bauru.
“Na maioria dos casos, são pessoas que desejam reconhecimento e aceitação social por meio dos bens que ostentam. Quanto mais coisas elas possuem, mais se sentem queridas e valorizadas por si mesmas e em seu círculo social”, diz Mauricéia.
Inserção social
Dentro do perfil de pacientes descritos pela especialista, estão homens e mulheres que ascenderam socialmente e começam a comprar compulsivamente para se sentirem inseridos no novo grupo de convívio. Há ainda mulheres divorciadas, especialmente na meia idade, que passam a descontar suas frustrações no cartão de crédito como forma de se sentirem mais autoconfiantes e realizadas.
“E, infelizmente, na sociedade em que a gente vive, estas pessoas realmente são melhor tratadas e mais bem vistas quando ostentam um carro importado ou uma roupa de grife. Aquilo se transforma em uma bola de neve”, pontua.
No caso da empresária Valéria, o “gatilho” para disparar a oniomania foi uma depressão diagnosticada quando ela ainda tinha 27 anos. “Sempre fui consumista e o vazio enorme que comecei a sentir foi preenchido pelas compras. Eu me achava uma coitadinha e precisava me premiar. O prazer da compra era enorme”, relembra ela, dizendo que perdeu a conta da quantidade de coisas novas que nunca usou e foram encaminhadas à doação.
“Comprava uma blusa e, quando chegava em casa, via que tinha outras duas ou três parecidas com aquela. Sapatos, tive de todas as cores, nos mais variados tons que você possa imaginar”, afirma.
O auge dos gastos, segundo a empresária, foi em 2
9, quando ia às compras sabendo que não teria mais condições de honras as novas dívidas. A “bola de neve” rolou “colina abaixo” quando, em agosto de 2
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, seu pai foi diagnosticado com câncer. “Por ser muito apegada a ele, deixei meu trabalho de lado para acompanhá-lo e não tive mais condições de pagar nenhuma dívida atrasada. Minha vida financeira entrou em colapso”, comenta.
Depois de cuidar do pai, ela decidiu transformar sua condição e, com a ajuda de um grupo de apoio mútuo, abriu mão de todas as compras até quitar quase 1
% das dívidas. Hoje, resta apenas uma, de um dos cartões de crédito, estimada em R$ 3 mil, que ainda precisa ser negociada.