Articulistas

O beijaço no asfalto

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Nos anos 1950, um repórter do jornal O Globo, Pereira Rego, foi atropelado por um ônibus no Rio de Janeiro. No chão, o velho jornalista percebeu que estava perto da morte e pediu um beijo a uma jovem que tentava socorrê-lo. Nelson Rodrigues aproveitou-se do fato e mudou "um pouquinho" a história. Concebeu a peça teatral O Beijo no Asfalto, onde o atropelado é socorrido por um jovem de alma pura e pede a ele o beijo derradeiro. O repórter do jornal Ultima Hora presencia o beijo na boca entre dois homens e, junto com um delegado corrupto, transforma a história do último desejo de um agonizante em manchete. O sensacionalismo do jornal muda completamente os fatos, retratando o jovem como um gay que empurrou o amante e depois o beijou, arrependido. A vida de Arandir se transforma num inferno e nem mesmo sua mulher acredita que ele é inocente. De marido devotado ele passou, num passe de mágica, a homossexual enrustido.

O Brasil inteiro ficou chocado com a carga da maldição do beijo no asfalto. A sociedade sabia que havia homes que se beijavam, mas nunca isso foi trazido a público. Um beijo de piedade transformado num caso amoroso e sinistro entre dois homens. Nem se considerou a regra da cultura ocidental de jamais se negar o último pedido a alguém que vai morrer. Hoje, a tragédia carioca de Nelson Rodrigues tem mais a ver com a valorização da sua estética de vanguarda, diante do moralismo da época. Gays e lésbicas já protestaram com beijaços em público contra o conservadorismo de Bento 16, em Barcelona; em repúdio ao homofóbico deputado Jair Bolsonaro e, aqui mesmo em Bauru, na Praça Rui Barbosa, contra a agressão sofrida por uma travesti. "Que tempos os nossos! E que costumes!", admirava-se Cícero há setenta anos antes de Cristo. Outro dia a televisão mostrou de todos os ângulos, dois jogadores de futebol de um time francês se beijando na boca para comemorar o gol. Hoje, pela internet, convocam-se casais para um beijaço no estilo flash mob (ação coletiva de curta duração). Há três anos fui ver as comemorações do "beijo da paz", na Times Square de Nova York. Em 1945, um marinheiro e uma enfermeira se beijaram ao ser dada a notícia do término da guerra. A cena foi congelada numa foto de Alfred Eisenstaedt, da revista Life. Inspirou o musical South Pacific, que voltou à Broadway. O gesto espontâneo causou furor porque os personagens nem sequer se conheciam. E jamais se reencontraram. A enfermeira, com 90 anos, votou à cena (nunca se soube a identidade do marinheiro) para comandar o beijaço, coadjuvada por centenas de casais - homem-mulher, mulher-mulher e homem-homem. Os tempos mudam... Aqui mesmo no Brasil já existe certidão de nascimento com dois pais e nenhuma mãe. O Beijo, essa maneira saborosa de apanhar um germe, tem muito a ver com esse avanço da sociedade. Os esquimós preferem esfregar a ponta do nariz entre parceiros. Quem sabe para não terem que movimentar 29 músculos no ato tradicional - 17 deles são da língua.

Como eterno aprendiz, acho mesmo que o beijo tem sim, uma linguagem especial. Quem entende do assunto faz questão de ensinar que o maior pecado é fazer do beijo rotina e obrigação. Perde o sabor e o sentido. Mais que qualquer outro gesto de carinho, o beijo tem uma metalinguagem. Ele fala, protesta, confidencia e revela. Mesmo quando esconde ou negaceia, para um bom interprete será cristalino, transparente e discursivo como naquela estátua de Auguste Rodin, no Jardim das Tulherias. O bronze que eterniza o beijo de dois amantes expõe os delírios sexuais do autor com Camile Claudel. Há amigos que eu beijo no rosto, em sinal de respeito e admiração. Hoje, devido ao excesso, virou simples cumprimento entre pessoas educadas e que não têm motivos para se odiar. A meninada anda explorando muito o "selinho relâmpago", que já conquistou até o status de inocente. Selam-se tudo, qualquer momento e a qualquer pretexto. Até em gol do Corinthians. São novas formas de expressão e é preciso estar atento para não ser considerado "por fora". Ao contrário das palavras, que servem tanto para revelar verdades quanto para dizer mentiras, o beijo não engana. Jesus deve ter sentido a frieza dos lábios de Judas na face direita, quando vaticinou que ele iria traí-lo.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

Comentários

Comentários