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Para que serve a Quaresma?

Fausi dos Santos
| Tempo de leitura: 4 min

Quando criança, o tempo da Quaresma era um período muito forte e significativo para mim, minha família e a comunidade onde vivia. Morávamos na roça e a pequena colônia de agricultores se mobilizava para viver intensamente os quarenta dias de jejum, penitência, promessas e sacrifícios. Existia um clima de reclusão, de proibições e temperanças, tais como, evitar a bebida ou o jogo de baralho, não comer carne toda sexta feira ou até mesmo não assistir televisão. Lembro-me de meu avô sentado junto à porta da cozinha me advertindo para manter a sobriedade, pois na Quaresma tinha que se manter o silêncio no coração e evitar comer em excesso, era o momento da oração e da mudança interior.

A Quaresma era o divisor entre o tempo sagrado e o profano, inseria todos em um novo tempo, no qual, a novidade e a renovação poderiam ser alcançadas por exercícios espirituais e corporais. O jejum, o sacrifício e as proibições eram inibidores necessários para educar o corpo e ascender o espírito para alcançar as dádivas divinas. Interessante como essa parada era tão importante e significativa para aquela colônia, pois era o período dedicado à renovação das promessas e da esperança, propósitos de melhoria de vida. O fato é que no Domingo de Páscoa toda a comunidade celebrava a ressurreição de Cristo de forma viva, como o ápice de todo um preparo físico e espiritual que atingia nesse dia o seu esplendor. A liturgia da Páscoa concretizava as promessas e atualizava os desejos.

Esse tempo de renovação não é exclusividade do cristianismo católico, na verdade, todas as grandes religiões no mundo possuem períodos litúrgicos, nos quais, os fieis são exortados à reflexão, à parada e ao exame de consciência sobre a vida e os valores. Entre os mulçumanos o mês do Ramadã é o período de exercitar a caridade e os sacrifícios corporais. Entre os judeus a festa do Pessach (Páscoa, passagem) celebra a libertação do povo de Israel da escravidão do Egito, é o período de rememorar as amarguras e dores do cativeiro, é tempo de reafirmar a identidade semita. O que essas liturgias evidenciam é a necessidade da "parada," enquanto prática de avaliação, retomada da identidade do grupo e renovação dos valores que fundamentam as crenças e o sentido de ser daquela comunidade. Está claro para os líderes dessas sociedades que o tempo da reclusão reafirma a ideia de pertença, em que todos do grupo renovam seus papéis sociais. Reacende no indivíduo o sentido de existir e pertencer a uma comunidade.

O efeito social desse tempo da "parada" e da celebração se manifesta na coesão social, no respeito aos deveres e direitos de cada membro da comunidade, na pacificação de conflitos, no preparo para rituais posteriores como a puberdade, casamento ou ainda, na mudança de líderes espirituais ou temporais. Ou seja, o grupo vivencia o tempo sagrado enquanto elemento de reconfirmação de sua identidade. O tempo que vivemos na sociedade capitalista não é o tempo sagrado, é o tempo cronológico ligado às tarefas cotidianas que não podem ser deixadas de lado, pois associamos o tempo ao ganho, não nos permitindo parar, para não perder. O sistema de produção, as maquinarias do capital, desacralizaram o tempo ao ponto de um dia ser igual ao outro, criam o tempo amorfo, sem cor, sem renovação, apenas o tempo do ganho, do sonho de consumo, do agora. O indivíduo é reduzido a zero e enquanto consumidor não pode parar a roda viva do mercado e do consumo. Para esse tempo cronológico, feito de presente, passado e futuro todas as festas possuem o mesmo tom: comprar, vender e ganhar, que se concretizam no presente dado ou esperado. Tudo fica cinza e as relações familiares e sociais se tornam frias, porque lhes falta o período da reclusão, da reflexão, dos exercícios físicos e espirituais essenciais para a celebração. Portanto, aquela sensação que nos aflige às vezes de que os dias e as semanas passam rápido demais não é à toa, isso nos atinge por que perdemos a sensibilidade de nos perceber no tempo e vivenciar seus diferentes momentos que coincidem com as diferentes fases de nossa vida. Triste constatação, que nos mergulha muitas vezes na falta de sentido e no estranhamento dos espaços que vivemos e atuamos.

O autor, Fausi dos Santos, é filósofo e professor de Ética e profissionalização do Magistério no Iesb-Preve. Docente em Ciências Sociais e Humanas pela FIB e pesquisador de Linguística e Análise do Discurso pela Unifran-SP. fausifilo@hotmail.com

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