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Prefeito de Marília renuncia ao cargo

Da Redação
| Tempo de leitura: 7 min

Marília - O prefeito de Marília, Mário Bulgareli (PDT), renunciou ontem ao mandato. Em carta encaminhada à Câmara Municipal da cidade, ele não explicita os motivos da renúncia, alegando apenas que a decisão é “irrevogável”, mas em comunicado à imprensa alega problema de saúde. O pedido formal de renúncia foi protocolado por volta das 16h pelo procurador geral do município, Luiz Carlos Pfeifer, e a carta foi lida, ontem, na sessão ordinária da Câmara. Com a renúncia, assumiu o vice-prefeito, Ticiano Toffoli (PT).

 

Antes da renúncia, o nome do prefeito estava envolvido em várias denúncias e chegou a se cogitar que ele poderia se afastar de suas funções por licença médica. A renúncia ocorre num momento em que a Câmara Municipal decidia se instaurava ou não uma comissão processante para verificar o envolvimento dele no esquema de corrupção encabeçado por Nelson Grancieri, chefe de gabinete e secretário da Fazenda afastado, que acabou preso pela Polícia Federal em novembro de 2

11. 

 

O pedido de cassação que tramitava na Câmara Municipal de Marília era baseado na chamada “Operação Dízimo”, deflagrada no final do ano passado pela Polícia Federal e Gaeco. As investigações apontaram que o ex-chefe de gabinete e ex-secretário da fazenda de Marília seria o responsável pelo pagamento de um tipo de mensalão a aliados políticos. Ainda de acordo com as denúncias, o prefeito Mário Bulgareli poderia estar também envolvido no esquema. Em menos de um ano, esse era o terceiro pedido para que uma CPI sobre o caso fosse instalada. Bulgareli estava em seu segundo mandato. Em seu primeiro mandato, ele foi eleito pelo PSDB. Já na segunda gestão, se filiou ao PDT. 

 

O vereador Wilson Damasceno (PSDB) declarou durante a sessão do Legislativo que “torcia pela renúncia do prefeito”. “Lamentavelmente demorou para acontecer. Ele renunciou ao cargo, porque entregou a caneta para Nelson Grancieri e, por isso, sofreu desgaste depois que estourou o escândalo do mensalinho descoberto pela Polícia Federal e o Gaeco”. 

 

O vice-prefeito é irmão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), José Antônio Dias Toffoli.

 

 

 

Bulgareli é um dos acusados no caso da merenda escolar

 

A Justiça já concedeu liminar em ação civil pública movida pelo Ministério Público que suspendeu o contrato firmado entre a Prefeitura de Marília e a empresa SP Alimentação para fornecimento da merenda escolar no município. A decisão  também decretou a indisponibilidade de bens de Mário Bulgareli, do ex-prefeito Abelardo Guimarães Camarinha, dos secretários municipais Nelson Virigilio Grancieri (Fazenda) e Carlos Umberto Garrossino (Administração) e da assessora parlamentar Marildes Lavigni da Silva Miosi, da SP Alimentação e Serviços, de Eloizo Gomes Afonso Durães, de Antonio Santos Sarahan, de Olésio Magno de Carvalho e de Silvio Marques.

 

A indisponibilidade foi decretada até o limite de R$ 24,5 milhões, a fim de assegurar eventual ressarcimento aos cofres públicos dos prejuízos causados pelo grupo em decorrência de fraude na contratação do serviço de fornecimento de alimentos ou de merenda escolar para o município.

 

Com a liminar, a Prefeitura ficou impedida de efetuar qualquer pagamento à SP Alimentação, até o julgamento final da ação, sob pena de multa de R$ 8

mil.

 

A Câmara de Marília abriu uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) cujo relatório recomendou abertura de Comissão Processante para cassar o mandato do prefeito, mas a bancada governista rejeitou a abertura da CP.

 

A decisão judicial foi resultado da ação por ato de improbidade administrativa proposta pelo Ministério Público após investigações realizadas em diversas cidades do Estado e em outras unidades da federação para apurar ilegalidades na licitação, contratação de empresas e execução de contratos referentes ao fornecimento de alimentos ou de merenda escolar, no esquema que ficou conhecido como “Máfia da Merenda”.

 

Bulgareli também já foi condenado em primeira instância  por ato de improbidade administrativa, cuja sentença é de perda do cargo e à suspensão dos direitos políticos por três anos, mas houve recurso. A condenação foi em razão de irregularidade na seleção de universitários beneficiados com bolsas de estudo oferecidas por meio de um convênio celebrado entre a Prefeitura e a Universidade de Marília (Unimar), que beneficiou pessoas ligadas a aliados políticos do prefeito Bulgareli.

 

 

‘Mensalinho’ desgasta governo

 

A descoberta de um suposto esquema de corrupção pela Polícia Federal (PF) e Ministério Público Estadual, através do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) na operação “Dízimo” atingiu em cheio o governo de Mário Bulgareli (PDT) no final do ano passado.

 

O alvo principal foi o ex-chefe de Gabinete e ex-secretário da Fazenda de Marília Nelson Virgílio Grancieri, considerado o “braço direito” do pedetista que chegou até a ser preso sob acusação de operar suposto esquema.

 

Na ocasião foram feitas buscas nas casas do chefe de gabinete e de um assessor, em uma clínica de estética particular, em três agências de publicidade, na sede e na casa do proprietário de um jornal semanal – investigado por ser pago com dinheiro público -, e no próprio gabinete da Prefeitura de Marília.

 

A operação coletou uma série de elementos (documentos, mídias e computadores) para comprovação das atividades do ex-secretário referente aos crimes de concussão, corrupção, lavagem de dinheiro e coação de testemunhas ao longo de sua atuação no Poder Executivo. 

 

Intitulada como “Dízimo”, a operação remete ao suposto esquema de cobrança de propina e lavagem de dinheiro na prefeitura que é alvo de investigações desde 2

9. Nelson Grancieri, conhecido na cidade como “Nelsinho”, foi afastado judicialmente das funções que acumulava no mandato de Mário Bulgarelli – de chefe de Gabinete e secretário da Fazenda a partir de ação civil pública por improbidade administrativa movida contra ele.

 

 O “start” para a operação policial foi a denúncia feita pelo dono de uma construtora sobre o esquema. Este teria, inclusive, entregue à Justiça comprovantes de depósitos bancários feitos para beneficiar o ex-secretário e sua mulher.

 

Nelson Virgílio Grancieri chegou a ficar preso por alguns dias na Cadeia de Garça, mas conseguiu habeas corpus para sair da prisão no início deste ano.

 

O pedido de detenção teve como fundamento a denúncia já oferecida à Justiça acusando o investigado por suposta práica de crimes de concussão e coação a testemunhas. Perícia nos materiais apreendidos na residência de Grancieri revelou evidências de que, durante a sua gestão como chefe de Gabinete e, mesmo depois de afastado do cargo, ele gerenciava um esquema de pagamento de valores incompatível com suas rendas.

 

 

 

Nota alega ‘recomendação médica’

 

Após deixar o cargo de prefeito de Marília na tarde ontem depois de sete anos e três meses, Mário Bulgareli (PDT) expediu uma nota por meio de sua assessoria de imprensa em que alega “recomendação médica” para deixar a administração municipal. Não cita qual é o problema de saúde. Segundo assessores, ele estaria sofrendo depressão, após enfrentar “onda” de denúncias de malversação em sua administração.

 

Até o fechamento desta edição, o JC não conseguiu localizá-lo.

 

A assessoria de imprensa distribuiu um comunicado que não cita os escândalos políticos que o prefeito e sua administração estiveram envolvidos nos últimos anos.

 

“Todavia, após todos esses anos em que procurei me dedicar ao máximo e, em virtude de recomendação médica e após consultar minha família, é chegado o momento de me afastar do Executivo mariliense, para tratar de minha saúde. Sei que não é uma decisão fácil de ser tomada, principalmente pelo bom momento em que Marília atravessa”, consta em um dos trechos. 

 

O prefeito diz também que durante o período que governou deixou Marília em grau de uma das melhores cidades para se viver do País: primeira em segurança (cidades acima de 1

mil habitantes); primeira em educação; sétima em qualidade de vida (Índice Firjan); e mais recentemente a sétima do País na área da saúde, conforme levantamento realizado pelo Ministério da Saúde.

 

Com a renúncia, ele abriu o caminho para o vice-prefeito que assumiu o mandato ontem à noite. “Tenho certeza que o vice-prefeito, José Ticiano Toffoli, ao assumir o restante do mandato, dará continuidade a esse trabalho, realizando as obras e serviços em prol de nossa comunidade. Um exemplo é o seu prestígio junto ao governo federal ao obter recursos, a fundo perdido, para a conclusão das obras de afastamento e tratamento do esgoto”, afirma o pedetista.

 

A demora na conclusão das obras também deu dissabores e acusações contra o governo do pedetista. 

 

Bulgareli é nascido em Bauru e se transferiu para Marília em 1978, onde nasceram os seus filhos e desempenhou suas atividades profissionais. “Deixo a Administração Municipal com a certeza de dever cumprido,” constou no comunicado distribuído pelo pedetista. 

 

 

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