A frota circulante no Brasil de motocicletas é de 14 milhões de unidades e este número tende a aumentar a uma proporção de 3 milhões por ano. A motocicleta é um eficiente e barato meio de transporte, usado no mundo todo e principalmente em países onde os meios de transporte coletivos são deficientes e caros.
Infelizmente, vemos acidentes acontecendo em números absurdos em nosso país e devemos nos perguntar por que isso acontece? Uma das principais causas é que no Brasil existe a "cultura do mais forte" no trânsito e não a do respeito e civilidade. Quem já não teve seu carro pressionado ou fechado por um caminhão nas estradas, quem dirigindo seu automóvel já não cortou a frente de motos ou pedestres em nossas ruas com a famigerada desculpa da pressa? Está tudo errado!
Um pedestre coloca os pés fora da calçada em qualquer país da Europa ou América do Norte e os carros param para que este pedestre atravesse, mesmo fora da faixa preferencial... e aqui, como agimos, nós, brasileiros? A cultura e nossa educação não nos orientaram a conviver pacificamente no trânsito. Motocicletas nesta quantidade que vemos hoje também é um fato novo, pois com maior acesso a financiamentos e a estabilidade econômica muitos jovens estão adquirindo motos como seu primeiro meio de transporte. E aí está um outro problema: a juventude destes moços e a necessidade de auto-afirmação levam estes jovens "pilotos" a se exporem a riscos demasiados com pouca ou nenhuma experiência, colocam-se constantemente em condições de risco, costurado, andando acima da velocidade permitida para o trânsito urbano, fazendo manobras imprevistas e sem sinalizar com antecedência. A estes, chamamos em nosso meio de motoqueiros. Motociclistas são aqueles que observam as leis e se preocupam com o próximo.
Para não dizerem depois que estou generalizando, é lógico que estou me referindo a uma minoria, mas é esta minoria que eleva os índices de acidentes, homens entre 18 a 25 anos se acidentam até 3 vezes mais do que homens mais velhos, mais experientes e, principalmente, mais comedidos. Porém, não podemos deixar de citar que existem os maus motoristas também, em grande número, imprudentes, que distraídos ao celular ou a outras situações não observam a aproximação de motos, cortam cruzamentos preferenciais, não sinalizam suas manobras, espremem as motocicletas, não dão passagem... Enfim, falta respeito e educação no trânsito e isso não é novidade para ninguém.
Só para dar um exemplo, a Itália tem uma frota circulante de motocicletas muito maior do que a brasileira e o número de acidentes é infinitamente menor. Por que? Onde está a diferença? Na educação para o trânsito, no valor que se dá à vida do próximo. Ou seja, infelizmente nós, brasileiros, estamos como crianças brincando com fogo. O fogo é bom e necessário, mas precisamos ter consciência de como lidar com ele. Da mesma forma são as motocicletas.
É preciso que paremos e façamos uma grande reflexão. Uma grande campanha nacional de conscientização e educação. O Brasil viverá anos de prosperidade em que as motocicletas continuarão a ser o meio de transporte de cada vez mais jovens, com pouca experiência e muito ímpeto. É preciso nos reeducarmos para este convívio. Motociclistas, pedestres e motoristas: temos de estar unidos pelo respeito à vida do próximo e a nossa própria. Hoje em São Paulo já existe uma campanha que orienta os motoristas a darem preferência aos pedestres e está funcionado muito bem, já houve mudança de hábitos e costumes em poucos meses. Ampliemos esta campanha e todos ganharemos com isso.
O autor, Netto Mattos, é diretor da Sotebra Motos