Tribuna do Leitor

DEIXE QUE DIGAM, QUE PENSEM, QUE FALEM...


| Tempo de leitura: 3 min

Venho por meio desta, ilustre e culto sr. Luiz Carlos Pasquarello, com a minha humilde "cara-de-pau", lhe pedir sinceras desculpas por não ser hetero, pai de família exemplar, por não ser "normal"(pelo menos diante dos seus olhos) e por cuidar da minha vida sem pedir a opinião de pessoas como o senhor. Me desculpe também se a carapuça lhe serviu, pois não me admira que, como o senhor não tenha tempo pra mais nada além de usar este jornal para criticar sobre tudo que não lhe agrada, que seja a sua esposa quem lava as suas roupas. Ao escrever para este jornal, em 29/02, não tinha a intenção de usar este espaço pra dizer que sou melhor ou pior que ninguém aqui, sr. Luiz Carlos. Quando me citei como exemplo, estava apenas querendo dizer que tenho uma vida como qualquer outra pessoa. Ser gay ou não, não é inerente. O fato de eu não ter uma família normal, como o senhor mesmo colocou, não significa que eu dependa de alguém pra fazer o que não é mais do que a minha obrigação.

A impressão que tive quando li sua carta foi que o senhor só se atentou ao Beijaço Gay. Em nenhum momento da minha carta publicada em 29/02 eu defendi ou ataquei o movimento. Apenas o citei, assim como citei futebol e cinema. Em nenhum momento eu disse que não era vítima de circunstância alguma. Disse que não me sentia como vítima, pois vejo que as pessoas hoje em dia acham que tudo é crime de ódio. Se eu for agredido por alguém, vou entender como agressão física, talvez como crime de ódio, mas não deixa de ser agressão! Quanto a ter ou não filhos (creio que isso não seja da sua conta, visto que não é o senhor quem vai criá-los), entendo que independente de qualquer coisa, o que tem que se levar em consideração é se essa criança vai ser tratada com amor, carinho, se vai ser saudável ou educada adequadamente... E não se ela vai ser homo ou hetero. O caráter de uma pessoa não deveria ser medido pela orientação sexual dela. E sim pelas atitudes (ou falta delas).

Os políticos estão votando o aumento do próprio salário, o fim do 13°, das férias e da licença maternidade. Há pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, mulheres são apedrejadas até a morte por motivos torpes. Na África, os urubus fazem fila esperando uma pessoa morrer de fome pra lhes servir de alimento. Pais estupram os filhos, filhos matam os pais. A programação de TV mostra "estupro" em rede nacional no horário nobre... Alguém se preocupa com isso? Esses fatos deveriam afetar as nossas vidas. Com quem as outras pessoas dormem, não! O senhor tem a sua vida e eu a minha. A proposta da minha carta anterior era justamente essa: cada um tem a sua vida e cada um que cuide da sua. Cada um tem sua opinião formada a respeito de diversos assuntos, assim como as pessoas (bombeiros, policiais, professores, gays, negros, mulheres que sofrem violência doméstica...) que fazem manifestações e greves em busca de respeito, dignidade e melhores salários. Se as pessoas se preocupassem mais com saúde, educação e segurança pública de qualidade, e cobrassem isso das pessoas que elas colocaram no poder, as pessoas entenderiam melhor o que as outras estão querendo dizer de verdade.

Silvio Menezes

Comentários

Comentários