A ciência não diz o que nós queremos escutar. A ciência levanta hipóteses, realiza estudos para colocá-los à prova e tenta sacar conclusões objetivas. Claro que entre pesquisadores existem ideias preconcebidas. Há quem possa manipular dados e relatórios de experiências para sustentar um ponto de vista. Seria ilusão não reconhecer que essas coisas existem no mundo acadêmico. Quando o cientista envia um artigo para uma revista qualificada, o editor distribui cópias entre pesquisadores do mesmo ramo que fazem, anonimamente, uma crítica do texto, dos dados e das conclusões. Se o estudo for fulminado pela falta de rigor, não será publicado. Mesmo que passe por esse primeiro filtro, ao longo do tempo, outros grupos de pesquisadores vão tentar reproduzir os resultados em laboratórios. Se forem negativos, a hipótese será descartada ainda que o rejeitado se empenhe em defender o trabalho. Em ciência, mesmo as humanas, é assim que funciona. Sempre é outro cientista que vai dizer se você tem razão ou não, e por quê.
Essa introdução nada traz de novidade e poderia ser dispensada. Para mim tem alguma importância para pôr em dúvida a tese de que "ninguém nasce gay". O terapeuta Richard Cohen afirma em publicação que pode mudar a orientação sexual dos gays e "curar" a sua homossexualidade. Alguns pastores e outros "condutores de almas" passaram a usar os seus argumentos para "exorcizar" os efeminados, evidentemente com a ajuda de Deus, que tudo pode. Não sei se para a comunidade homossexual a repercussão tenha sido negativa, mas, no meio científico, sim. Cohen defende que não há nada biológico na homossexualidade. Essa condição é fruto de experiências depois do nascimento. Portanto, a psicoterapia poderia reverter esse "desvio comportamental" e curar a homossexualidade.
A sexualidade humana é muito mais complicada. Tudo leva a crer que a "teoria Cohen" é um chute. Artigo publicado em El País, um dos melhores jornais do mundo, ouviu os dois lados. Os neuroendocrinólogos explicam que o embrião começa a desenvolver-se sem um sexo definido. Na sexta semana de gestação começam a surgir os testículos. A partir daí, se o nível de testosterona e outros andrógenos que masculinizará o feto, não for suficientemente alto, algumas partes do cérebro e do corpo poderão ser menos masculinizadas e condicionar a homossexualidade. Com as mulheres pode acontecer ao contrário. Numa etapa fetal, o crescimento dos testículos se detém. A menina nasce, leva uma vida normal e na pré-adolescência detecta algo estranho. É possível tirar os testículos enrustidos internamente e adequar a vagina para futuras relações sexuais.
A sociedade precisa reconhecer que são fenômenos. Isto é, fazem parte da natureza. Foi acertada a decisão do Supremo Tribunal Federal que estendeu aos homossexuais os mesmos direitos que têm os casais heterossexuais que vivem em união estável. Foi anunciado o pagamento pelo INSS de pensão, nas relações homoafetivas, a um dos companheiros em caso de morte do outro. Os exemplos não evitaram que fosse recebida sob chuva de paus e pedras a distribuição, pelo Ministério da Educação, do material didático (vídeo, CDs, cartilhas ) apelidado de "kit gay". A intenção do MEC era de iniciar a educação das crianças sobre questões envolvendo a homoafetividade. Poderia até ser considerada uma medida precoce. Em vez de surtir o efeito desejado, militaria contra a ideia de tolerância, esteio principal da harmonia social. Foi suspenso pela presidente Dilma Rousseff, também por motivos políticos, fruto de uma facção ativista extremista, talvez perdida nas suas próprias frustrações e traumas. O deputado Jair Bolsonaro destacou-se na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, ao afirmar que se o seu filho convivesse com gays, haveria risco de se tornar gay e, nas suas próprias palavras, "daria um couro nele para resolver o problema".
A intolerância ocorreu no nazismo, com o massacre dos judeus, ciganos e gays; ocorreu no apartheid, no fascismo, nos massacres em Ruanda e na Bósnia. Acontece nas ruas. Há sempre os que se julgam possuidores da verdade plena, ignoraram as contraprovas e hoje são lembrados apenas pela participação em algumas das páginas mais vergonhosas da humanidade.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC