Brasília - Brasil e Estados Unidos iniciam hoje um esforço bilateral para remover barreiras comerciais e melhorar o acesso aos respectivos mercados. Será a primeira reunião do grupo batizado de TECA (Trade and Economic Cooperation Agreement), um mecanismo bilateral criado durante a visita do presidente norte-americano, Barack Obama, ao Brasil em março do ano passado, e coordenado pelo Itamaraty e pela agência de comércio dos Estados Unidos (USTR).
Serão dois dias de negociações, em Washington, nos quais o Brasil colocará em pauta os contenciosos que se arrastam há anos, como as sobretaxas aplicadas ao suco de laranja e ao açúcar brasileiros, a abertura do mercado norte-americano à carne in natura e a eliminação de barreiras não tarifárias sobre frutas.
“É um esforço novo que vai ao encontro do nosso interesse de ter mais acesso ao mercado nos EUA”, afirmou a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Tatiana Prazeres.
Tatiana Porto, da Gerência Executiva de Comércio Exterior da Confederação Nacional da Indústria (CNI), defendeu a construção de uma agenda que permita ao Brasil a abertura de mercado. Para ela, a presidente Dilma Rousseff deve aproveitar a visita que fará aos Estados Unidos, no início de abril, para colocar de maneira incisiva os problemas no comércio bilateral.
“A questão do protecionismo e da cooperação têm que estar presente no discurso”, disse Tatiana Porto. “Temos que promover o Brasil e apresentar nossas oportunidades”, completou. A representante da CNI lembrou que o presidente Barack Obama não teve constrangimento em defender os interesses de seu País na visita que fez ao Brasil.
Maior parceria
A recuperação da economia americana e as perspectivas de crescimento menor na China este ano podem mudar o perfil da balança comercial brasileira. O resultado do primeiro bimestre de 2
12 sinaliza uma recuperação das exportações de produtos manufaturados, as mais afetadas desde a crise internacional de 2
8, e o retorno dos Estados Unidos ao posto de principal destino dos produtos brasileiros.
Os dados deste início de ano deixaram o governo animado com a possibilidade de redução do déficit comercial do Brasil com os Estados Unidos, que em 2
11 somou US$ 8,3 bilhões. A melhoria na conta tem ocorrido não só pelo avanço das exportações de manufaturados, que agregam mais valor, mas também por causa do aumento no preço internacional do petróleo, produto importante na pauta de exportação para os EUA.
“O preço das commodities é certamente um fator relevante na definição do resultado de quem será o principal parceiro comercial do Brasil neste momento”, avaliou a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Tatiana Prazeres.
“O preço das commodities está claramente jogando a favor dos EUA e contra a posição da China como primeiro lugar das exportações para o Brasil”, completou referindo-se à queda dos preços no minério de ferro, principal produto da pauta de exportações brasileiras para a China.
Apesar do efeito preço, Tatiana disse que a expansão de 23,2% nas vendas externas de manufaturados do Brasil para os Estados Unidos em janeiro e fevereiro chamou a atenção. Foi o mercado que mais cresceu.
“A recuperação econômica americana é algo que já se faz sentir na pauta de exportação brasileira. É prematuro fazer uma afirmação peremptória em relação ao ano, mas o fato é que nos dois primeiros meses, a pauta é qualificada.” Entre os dez principais produtos vendidos para os EUA estão aviões, motores e geradores elétricos, partes para veículos, máquinas e equipamentos para terraplenagem.
Diferença menor
O presidente da Associação Brasileira de Empresas de Comércio Exterior (Abece), Ivan Ramalho, disse que não enxerga a possibilidade de os Estados Unidos voltarem, em 2
12, a ser o principal parceiro comercial do Brasil, posição ocupada pela China desde 2
9. “O quadro mais importante agora é a redução da diferença entre China e EUA”, avaliou.
Segundo ele, o crescimento das vendas este ano para o mercado americano deve ser maior que para o mercado chinês. Em 2
11, as exportações para a China somaram US$ 44,3 bilhões, alta de 43,9% em relação a 2
1
. Para os EUA, totalizaram US$ 25,8 bilhões, avanço de 33,7%.
Ramalho acredita que a participação dos manufaturados não deve ter alteração significativa este ano, em relação aos 36,1% de 2
11. Isso porque, o peso do petróleo na composição da pauta desequilibrou as estatísticas de básicos e industrializados. No entanto, prevê que os preços das commodities, que afetam a conta de produtos básicos, terão alta menor que em 2
11, enquanto estima a manutenção dos preços e aumento na quantidade de manufaturas de 1
%.
O presidente da Abece avalia que haverá continuidade do processo de aumento das exportações de produtos industrializadas, especialmente para a China, apesar da pauta com aquele país ser dominada por produtos básicos. Ele disse que já há um movimento de incremento das vendas de industrializados que não está sendo observado pelos analistas. “Vários produtos não eram exportados para a China em 2
1
e começaram a ser exportados em 2
11. Está tendo uma abertura de mercado.”
Os dados abrem a possibilidade de as vendas de manufaturados superarem o nível anterior ao da crise internacional. Em 2
8, as exportações de produtos acabados somaram US$ 92,7 bilhões. Em 2
9, os valores caíram e, apenas em 2
11, voltaram ao patamar de US$ 92,3 bilhões.