Ciências

A luz campeã que te ilumina

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

A pressa é inimiga da perfeição, mas parece que as pessoas são cada vez mais ansiosas. A pressa, filha primogênita da ansiedade, promove a precipitação: assim aumenta muito a possibilidade de erro. O sistema de vida pressiona por resultados imediatos e devemos aprender a dizer “não” quando nossa avaliação presume que não vai dar certo. 

 

Nesta hora devemos treinar e aprender a falar “não”, rever e repensar o processo, pois são as medidas mais seguras e responsáveis para consigo, sua imagem e eficiência. Se você errar, este mesmo sistema de vida que te apressou, te descartará: sem dó ou piedade!

 

Os neutrinos são partículas subatômicas muito pequenas, invisíveis, sem qualquer carga elétrica que circulam em nosso ambiente com uma massa extremamente pequena e com carga neutra. 

 

As partículas de neutrinos são difíceis de serem detectadas, mas estão circulando em nosso ambiente a todo instante e trilhões atravessam nosso corpo invariavelmente o tempo todo. Os neutrinos atravessam a terra originários do Sol. Eles foram descritos primeiro por Wolfgang Pauli em 1931, mas apenas em 1956 comprovou-se sua existência. 

 

Os pesquisadores liderados por Dario Autiero no Centro Europeu de Pesquisas Nucleares, mais conhecido pela sigla Cern, constataram no ano passado que as partículas de neutrinos movimentaram-se a uma velocidade superior à da luz – 73

km através da crosta terrestre até se chocarem com os sensores do laboratório em Gram Sasso, na Itália - contrariando este conceito inicialmente estabelecido por Albert Einstein. 

 

Os resultados foram imediatamente comunicados ao mundo via imprensa leiga e três dias depois pela internet e twitter, sem qualquer análise prévia de consultores de qualquer revista científica. O mundo inteiro, não só os cientistas, tomou conhecimento que partículas de neutrinos viajaram mais rapidamente que a luz, apesar de Einstein ter afirmado que nada se move mais rápido do que ela. Em três dias, o Cern organizou uma entrevista coletiva com o líder do estudo Dario Autiero. Na entrevista, foi muito questionado sobre os possíveis erros metodológicos e interpretativos; a maioria dos participantes ficou satisfeita com as explicações, mas os físicos não! 

 

Na entrevista, um jornalista inglês perguntou: “vocês não têm medo de passar ridículo caso descubram que erraram?” Respondeu: “temos alta confiança em nossos resultados, estamos ansiosos em compará-los com outros experimentos.” No mínimo se demoraria um ano para novos experimentos e até lá seria palavra contra palavra. 

 

No mundo inteiro correu a notícia que os cientistas provaram que existe algo mais rápido que a luz: Einstein estava errado! Na época, setembro de 2

11, o brasileiro Marcelo Gleiser, professor de física e astronomia do Darthmouth College, afirmou que os pesquisadores deveriam ter deixado passar algo errado e apostou que em duas semanas iria-se detectar algum erro. Era muito pouco provável que esse experimento detectou uma violação tão flagrante da Teoria da Relatividade Restrita de Einstein. 

 

O cientista, e por extensão o cidadão comum, ao ler uma informação científica, precisa ser cético, duvidar sempre! Para acreditar deve-se conhecer a origem, a fonte, o método e a coerência dos pesquisadores e instituições. Sempre haverá interesses e vaidades por trás de qualquer atividade humana, inclusive nas revistas científicas que gradativamente perdem sua função de porta-voz da vanguarda do conhecimento. 

 

Agora, seis meses depois, apesar das especulações e piadas feitas sobre as verdades de Einstein, o Cern veio a público com um pré-veredito sobre a checagem nos experimentos que supostamente haviam provado que os neutrinos viajaram mais rapidamente que a luz. Houve um erro a ser considerado: foi detectado um mau contato em uma fibra óptica de ligação entre o GPS e o relógio-mestre, o que pode ter gerado um erro de 5

bilionésimo de segundo! 

 

Na ciência é assim: vive-se de acertos e erros humanos. Os cientistas envolvidos se precipitaram ao comunicar imediatamente suas descobertas, sem checagem, mas tiveram humildade ao providenciar uma revisão de seus métodos e aparelhos com a ajuda de colegas de outras partes. Em maio, outros testes serão realizados no Cern com maior precisão e controle, mas o princípio de Einstein continua, e tudo leva a crer que continuará, intacto: nada é mais veloz do que a luz que nos ilumina!

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