O estado deplorável de um cão submetido a maus-tratos que precisou passar por cirurgia, na tarde de ontem, escancarou o extremo a que a maldade humana pode chegar. O animal, resgatado pela Organização Não-Governamental (ONG) Naturae Vitae, tinha um pedaço de arame farpado amarrado ao pescoço e, por pouco, não perdeu a vida.
O cachorro, que recebeu o nome de Bezerrinha, não possui raça definida e tem aproximadamente 2 anos de idade. Ele foi encontrado na rua na tarde do último sábado por ativistas que receberam uma denúncia anônima. Foi preciso usar uma chave do tipo turquesa para cortar o arame, que estava encravado na pele do animal, fazendo as vezes de “coleira”.
“O pescoço estava em carne viva, com muito pus. Imagino que o cãozinho já estivesse sofrendo com aquilo há uns dois meses, pelo menos. Ele chorou bastante até conseguirmos tirar todo o arame, mas se rendeu ao nosso socorro. Depois de ser tão maltratado, parecia que sabia que estávamos ali para ajudá-lo”, conta Leandra Marquezini, membro da ONG.
Além de Bezerrinha, uma outra cachorra do mesmo porte, que estava prenha, também tinha um fio de arame farpado que apertava seu pescoço. Mas, como o estado dela era menos grave, acabou sendo solta na rua depois de ser atendida, já que não foi encontrado um local onde pudesse ser abrigada.
“Fizemos lavagem com soro nos dois, passamos remédio (antibactericida) no local e demos medicação injetável e oral, além de comida. Eles comeram bem, o que é um bom sinal. Por serem vira-latas, são bastante resistentes. E o macho está lutando pela vida”, detalha Leandra.
Mas, assim como a fêmea, Bezerrinha não foi resgatado no mesmo dia. No sábado, ele recebeu os primeiros socorros, mas ficou no lugar em que foi encontrado. Quando a ativista conseguiu encontrar um abrigo provisório, no domingo, voltou a procurá-lo, sem sucesso.
Na jugular
Na manhã de ontem, numa nova tentativa, finalmente o resgate definitivo pôde ser feito. O vira-latas foi levado a uma clínica veterinária e o médico decidiu por uma cirurgia de emergência. “Ele disse que, por pouco, a (veia) jugular não foi atingida e que, sem socorro, o cão iria morrer em poucos dias por causa da grave infecção que tinha no pescoço”, comenta Leandra.
No início da tarde, o veterinário, que preferiu não ter o nome divulgado, fez a operação para reconstruir a pele do pescoço no animal. O procedimento visa acelerar o processo de regeneração celular na região e deixar Bezerrinha menos vulnerável a infecções. “A cirurgia foi bem sucedida. O médico tirou toda a pele necrosada, limpou o local com soro e suturou tudo o que foi possível”, comenta a ativista da ONG.
O cachorrinho permanecerá internado na clínica e continuará recebendo medicação por, pelo menos, dez dias, até a retirada dos pontos. A necessidade de uma nova cirurgia não está descartada, mas só será avaliada depois deste primeiro período de recuperação.
Simultaneamente, o médico deverá cuidar da sarna que atinge quase todo o corpo do animal e o deixa bastante debilitado. Assim receber alta, Bezerrinha será levado a um abrigo provisório e, quando estiver com a saúde plenamente restabelecida, será castrado e encaminhado à adoção.
Até o momento, os responsáveis pela crueldade contra o cãozinho não foram identificados. O Distrito Policial (DP) de Crimes Ambientais de Bauru foi informado sobre a ocorrência pelo Jornal da Cidade e informou que tomará as providências cabíveis.
Políticas públicas
Ativista da Organização Não-Governamental (ONG) Naturae Vitae, Leandra Marquezini questiona a falta de políticas públicas efetivas para garantir a dignidade dos animais de Bauru. No último domingo, o JC publicou ampla matéria sobre o assunto. Entre as prioridades que precisam ser estabelecidas para a cidade, que conta com uma população estimada de 6
mil animais, estão campanhas de castração e de vacinação em massa, orientação sobre posse responsável e identificação dos bichos, um cemitério para animais e o cumprimento rigoroso das leis contra maus-tratos.
Penalidade
De acordo com o artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais, a pena prevista para quem submete animais a maus-tratos é de três meses a um ano de detenção, além de multa. A condenação, entretanto, pode ser revertida em prestação de serviços à comunidade, pagamento de cestas básicas ou imposição de restrição de direitos por determinado período.