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O mundo de Phil Connors

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

No filme Feitiço do Tempo (1993), Bill Murray interpreta Phil Connors, um repórter que cobre questões relacionadas ao clima, um personagem reativo por excelência, sempre centrado em si mesmo, presunçoso e indiferente ao mundo ao seu redor. Em um determinado instante, Phil fica preso numa teia do tempo. O dia em que está vivendo ? 2 de fevereiro ? fica se repetindo sem parar e ninguém sabe disso, só ele. No início Phil se diverte e procura tirar vantagem da situação, aprendendo tudo o que pode a respeito do seu mundo e das pessoas que fazem parte dele, a fim de manipulá-las e fazê-las servir a seus próprios interesses. Mas, como deve se sentir alguém que acorda toda manhã e se vê na mesma cidade, se confrontando com os mesmos acontecimentos?

Levado ao ponto de cometer o suicídio, já que não consegue mudar o mundo ao seu redor, Phil decide mudar a si mesmo. Começa a praticar bons atos e ajuda pessoas que estão vivenciando os mesmos infortúnios a cada dia. De repente, sente a verdadeira realização, entra num alvoroço de compartilhamento com a população daquela pequena cidade, conquistando o coração de todos. Por fim, o pesadelo acaba e ele se vê num dia novinho em folha e de braços dados com a mulher de seus sonhos. Phil tornou-se proativo, aprendeu a compartilhar e mostrou que, quando a vivência espiritual surge, ela torna leves todos os fardos que o homem carrega. A vivência espiritual gera uma tendência para amizade, expressa como tolerância e em forma de serviço e de confiança. A faculdade da apreciação torna a pessoa leve. Quando não há apreciação¸ quando não há receptividade, o homem afunda como um pedaço de ferro no oceano da vida. Ele não consegue flutuar como o barco, que é oco, que é receptivo.

Quando a pessoa é reativa ou tem atitudes de confrontação sente que sua vida está presa a um filme de má qualidade: cheio de raiva, de inveja, permeado pela cobiça e pela animosidade. Uma pessoa assim é pesada e embotada, com frequência, interpreta os atos dos outros como sendo "contra mim" mesmo que sejam para beneficiá-la. Uma pessoa com estas características provoca sérios impactos nas relações de convivência, até no meio-ambiente e em outras espécies. Se uma planta apresentasse essas características seria considerada uma erva daninha.

Isto, seguramente, se deve ao fato dessa pessoa não ter evoluído espiritualmente e nem como uma espécie global, por isto sua perspectiva é limitada. O seu "mundo" acaba ali no horizonte próximo; concentra-se nas vizinhanças. É, por natureza, uma espécie provinciana, mentalmente não saiu da roça, sua inteligência procura acumular conhecimento, não descobrir o que o conhecimento tem a lhe dizer. Quando se encontra um grupo de pessoas reativas chega-se a conclusão que a violência no mundo não é um caos sem sentido, que o terrorismo não é uma loucura aleatória e até que a doença não é uma ocorrência fortuita. Todos esses fenômenos negativos nascem da escuridão criada pelo comportamento reativo. Pessoas reativas se espalham por aí e infelizmente, cada vez em maior número, mas podem se concentrar em alguns lugares: experimente participar de uma assembleia em seu condomínio.


O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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