No filme Feitiço do Tempo (1993), Bill Murray interpreta Phil Connors, um repórter que cobre questões relacionadas ao clima, um personagem reativo por excelência, sempre centrado em si mesmo, presunçoso e indiferente ao mundo ao seu redor. Em um determinado instante, Phil fica preso numa teia do tempo. O dia em que está vivendo ? 2 de fevereiro ? fica se repetindo sem parar e ninguém sabe disso, só ele. No início Phil se diverte e procura tirar vantagem da situação, aprendendo tudo o que pode a respeito do seu mundo e das pessoas que fazem parte dele, a fim de manipulá-las e fazê-las servir a seus próprios interesses. Mas, como deve se sentir alguém que acorda toda manhã e se vê na mesma cidade, se confrontando com os mesmos acontecimentos?
Levado ao ponto de cometer o suicídio, já que não consegue mudar o mundo ao seu redor, Phil decide mudar a si mesmo. Começa a praticar bons atos e ajuda pessoas que estão vivenciando os mesmos infortúnios a cada dia. De repente, sente a verdadeira realização, entra num alvoroço de compartilhamento com a população daquela pequena cidade, conquistando o coração de todos. Por fim, o pesadelo acaba e ele se vê num dia novinho em folha e de braços dados com a mulher de seus sonhos. Phil tornou-se proativo, aprendeu a compartilhar e mostrou que, quando a vivência espiritual surge, ela torna leves todos os fardos que o homem carrega. A vivência espiritual gera uma tendência para amizade, expressa como tolerância e em forma de serviço e de confiança. A faculdade da apreciação torna a pessoa leve. Quando não há apreciação¸ quando não há receptividade, o homem afunda como um pedaço de ferro no oceano da vida. Ele não consegue flutuar como o barco, que é oco, que é receptivo.
Quando a pessoa é reativa ou tem atitudes de confrontação sente que sua vida está presa a um filme de má qualidade: cheio de raiva, de inveja, permeado pela cobiça e pela animosidade. Uma pessoa assim é pesada e embotada, com frequência, interpreta os atos dos outros como sendo "contra mim" mesmo que sejam para beneficiá-la. Uma pessoa com estas características provoca sérios impactos nas relações de convivência, até no meio-ambiente e em outras espécies. Se uma planta apresentasse essas características seria considerada uma erva daninha.
Isto, seguramente, se deve ao fato dessa pessoa não ter evoluído espiritualmente e nem como uma espécie global, por isto sua perspectiva é limitada. O seu "mundo" acaba ali no horizonte próximo; concentra-se nas vizinhanças. É, por natureza, uma espécie provinciana, mentalmente não saiu da roça, sua inteligência procura acumular conhecimento, não descobrir o que o conhecimento tem a lhe dizer. Quando se encontra um grupo de pessoas reativas chega-se a conclusão que a violência no mundo não é um caos sem sentido, que o terrorismo não é uma loucura aleatória e até que a doença não é uma ocorrência fortuita. Todos esses fenômenos negativos nascem da escuridão criada pelo comportamento reativo. Pessoas reativas se espalham por aí e infelizmente, cada vez em maior número, mas podem se concentrar em alguns lugares: experimente participar de uma assembleia em seu condomínio.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru