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Apetite dos empresários não é o mesmo do setor bancário

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 2 min

Mesmo possuindo recursos abundantes, com lucros estratosféricos, o setor bancário brasileiro se mantém seletivo. Evidentemente que o ambiente de incertezas no campo internacional, notadamente na Europa e Estados Unidos, forçam o setor a ser mais rigoroso na análise de crédito, mas fica evidente que o apetite dos empresários não é o mesmo do setor bancário.

Os bancos alicerçam suas análises, na maioria das vezes em modelos frios, fora do contexto em que a empresa opera, dificultando o melhor entendimento das reais necessidades de seus clientes. O discurso muitas vezes é de parceria, mas no momento da concessão do crédito esta palavra nem sempre é colocado em prática. Não estamos defendendo que o setor bancário deva emprestar recursos sem critérios. Isso seria leviano, mas é preciso melhorar o sistema.

A prática indica que o país possui inúmeros empresários que vislumbram crescimento de seu setor, e que necessitam de recursos para alavancar seus negócios. São empresas que atuam em setores competitivos, que investem na profissionalização de sua equipe, em processos de qualidade, mas que não possuem recursos próprios. Possuem enorme capacidade em ampliar mercado e precisam de parceiros que entendam suas operações.

O próprio BNDES (Bando Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) é travado quanto às modalidades de crédito disponíveis. Sabemos que seu papel é fomentar o crescimento do país, mas o banco ainda não conseguiu entender que em certos setores as modalidades disponíveis não se aplicam, como por exemplo, capacitação da equipe, conquistas de novas carteiras, entre outras, os quais são processos que são morosos, que trazem resultados no longo prazo, mas que por falta de linha de crédito, forçam as empresas ao desembolso imediato.

Além dos aspectos estratégicos e operacionais aqui mencionados, devemos considerar ainda o elevado custo do dinheiro. As operações mais "baratas" atingem 15 a 20% ao ano, isso quando falamos em modalidades estruturadas, bem negociadas, mas no dia a dia, principalmente para as empresas de pequeno e médio portes, as taxas podem ultrapassar os 36% ao ano. Isso compromete as margens de lucro, e geram uma dependência financeira.

Quem sabe o atual governo, através do Banco Central, mude a forma de entender esta dinâmica e comece a mexer no sistema. Um primeiro passo seria rever a carga tributária dos empréstimos. Também são necessárias ações no sentido de baixar o depósito compulsório, rever processos judiciais (bancos precificam a morosidade do judiciário) e ainda intervir no spread bancário (diferença entre a remuneração da aplicação e o custo do empréstimo). Por outro lado os banqueiros precisam sair da defensiva e aperfeiçoar o sistema de análise e concessão de crédito. Enfim, se o setor privado, que opera no lado real da economia, quer investir e com isso gerar emprego e renda, garantindo crescimento econômico, é preciso um olhar diferente a esta trava, diria até rigor, exagerada que norteia o setor financeiro brasileiro. Temos que exigir menos discursos e mais ações.


O autor, Reinaldo Cafeo,é economista, presidente da Acib e articulista do JC


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