Enquanto o agronegócio vem tendo um desempenho que alavanca a posição da econo-mia brasileira no cenário internacional, a indústria tem recuado a ponto de motivar afirmações que o País está entrando num processo de desindustrialização. Alarmadas com a invasão de produtos chineses, com preços inferiores ao custo do produto nacional, muitas empresas estão esperando que o governo tome medidas protetoras. Até a Coteminas, fundada pelo saudoso vice-presidente José Alencar, que não se intimidou com a invasão de camisetas chinesas e tornou-se a maior indústria têxtil do Brasil e líder no mercado têxtil americano, está desativando fábricas. Outras, imitando empresas americanas e europeias, estão transferindo a sua produ-ção para a China, em vez de procurar melhorar a sua produtividade para tornar o produto na-cional competitivo. Esse processo de ?chinezação? pode trazer alguma vantagem no curto pra-zo, mas é altamente desastroso no longo prazo ? tira emprego, reduzindo o mercado interno, e desestrutura o mercado de mão de obra qualificada.
O primeiro impulso na industrialização do Brasil se deu no governo de Juscelino Kubist-chek (1956/60), com a implantação da indústria automobilística, locomotiva que puxou outras indústrias, principalmente as metal-mecânicas, com destaque para a Metal Leve, de José Min-dlin, fabricante de pistões, e a Cofap, de Abraham Kasinsky, fabricante de amortecedores. Am-bas eram exportadoras para os Estados Unidos e Alemanha. Apesar das crises políticas e e-conômicas a indústria nacional continuou desenvolvendo-se, mas não chegou ao estágio de sustentabilidade por insuficiência de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Como acentua nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), as atividades de (P&D) nacional têm uma agenda defasada de pesquisa, ainda pouco estruturada e já fora do foco da disputa tecnológica. Há amplas diferenças entre a matriz de Ciência e Tecnologia (C&T) brasileira e a mundial. É defasada, inclusive, em relação aos países tecnologicamente emergentes, como Coréia e China.
A maior parte do desenvolvimento atingido se deu à custa de tecnologia trazida por multi-nacionais e por compra de tecnologia. Muitas imitaram os japoneses, usando a engenharia reversa, de desmontar e copiar, melhorando no que pudessem. Dessa forma vem andando a reboque porque aqueles que dominam novas tecnologias só as repassam quando já possuem outras melhores para substituí-las. Somente tornando-se suficiente em C&T é que o País terá a sua indústria ombreando-se com a dos países desenvolvidos. Como pesquisa científica e tec-nológica demanda muito recurso, é inacessível à maioria das empresas. Os incentivos do go-verno têm ajudado, mas não têm resolvido. Agora, entretanto, o governo e a indústria estão dando um passo certo ? juntos estão criando a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). Semelhante à Embrapa, que muito tem contribuído para o desenvolvimento da agricultura e pecuária, a nova entidade, estendendo a P&D a todas as indústrias, independente do seu tamanho, permitirá as inovações que estão faltando para encontrar alternativas que driblem a concorrência dos países de mão de obra barata.
A Embrapii terá a participação do governo e de todas as indústrias. Isso lembra fato se-melhante e de pleno sucesso. Reconhecendo a falta de mão de obra qualificada para o desen-volvimento industral, Getúlio Vargas baixou um decreto em 1939, exigindo que todas as indús-trias com mais de 500 empregados montassem cursos profissionalizantes. A Confederação Nacional da Indústria, presidida por Euvaldo Lodi e a FIESP, presidida por Roberto Símonsen, propuseram ao governo a criação de uma escola com a participação de toda a indústria, e as-sim nasceu o Senai, em 1942, para atender grandes e pequenas. A média de 15 mil alunos dos primeiros anos transformou-se em cerca de 2,3 milhões de matrículas anuais, totalizando apro-ximadamente 52,6 milhões de matrículas desde 1942 até 2010. Que seria da indústria brasilei-ra sem o Senai? E assim será com a Embrapii.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetra