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Uma triste história que se repete

Ricardo Viegas
| Tempo de leitura: 4 min

Li no sábado, dia 17 de março, no Jornal da Cidade, mais um apelo de uma família. O título, com chamada de capa, era "Família pede ajuda para bebê com síndrome rara". O pequeno Rafael, com apenas 10 meses de vida, tem uma doença rara e precisa de doadores de medula. Outra saída seriam células tronco retiradas do sangue do cordão umbilical, por isso resolvi escrever este texto. Temos tentado alertar papais e mamães há um ano e meio destas tristes possibilidades, desde a abertura do BCU - Banco de Cordão Umbilical em Bauru. Nosso maior desafio é convencer alguns médicos da importância desta nova modalidade de terapia. Infelizmente, até mesmo os médicos são confundidos por alguns artigos, que na minha opinião são escritos por pessoas que não podem amar a vida. Vou explicar em números e desmentir o que dizem.

Detalhe importante: não falo de meros leigos no assunto, falo de gente muito importante no meio científico, gente de muita influência, que dizem: "Guardar células tronco do sangue do cordão umbilical é jogar dinheiro fora".

Baseados em números, argumentam que até os 10 anos de idade uma criança a cada 2.500 crianças que nascerem irá necessitar desse material. Segundo estes especialistas, isso já justificaria não guardar. Para você ter uma ideia, nascem em Bauru aproximadamente 450 crianças por mês, ou seja, a cada 5,5 meses aproximadamente, teremos uma campanha de uma família pedindo doadores de medula.

Outro argumento é que os genes já estão marcados. Este argumento é apenas metade da verdade, a outra verdade é que temos doenças que são adquiridas depois do nosso nascimento, e diversas doenças usam células tronco do próprio paciente para a cura. Logo, apesar de ser um agravante, a questão genética não é um determinante em todos casos, o que sabemos é que apesar deste complicador genético, ainda não dominamos o interruptor que liga e desliga os genes.

Poderia listar uma série de casos tratados que nunca mais tiveram problemas, apesar de serem tratados com suas próprias celulas tronco. O mais importante é ter mais esta esperança, conviver com um ente querido mais um ano, ter tempo para encontrar um doador compatível neste ano a mais que foi ganho.

São questões como estas que nem mesmo os mais sábios poderão responder, pois só sei de uma coisa: eu não quero carregar o fardo do "eu poderia ter tentado" ou "eu tive a chance e não fiz".

Outros artigos trazem o banco público como a grande salvação, mas levaria isso mais a sério na Suíça, não no Brasil. Vamos aos números: temos no Brasil cerca de 11.000 cordões guardados em bancos públicos, 100 já foram utilizados. Em bancos privados, já temos 45.000 com 10 utilizados, este é outro grande argumento para que você não faça a guarda para seu filho, mas se te contarem que o banco público está no Brasil há 11 anos e os bancos privados estão com preços acessíveis há apenas 3 anos... E se você ficasse sabendo que em recente reunião no Vaticano estimou-se que a necessidade de 50.000 cordões umbilicais guardados por milhão de habitantes você já começaria a ficar preocupado, já que o que temos guardado em bancos públicos é insignificante para nossa população, não somos capazes de atender estatisticamente nem uma cidade do porte de Bauru.

Estes números são mais preocupantes no Brasil, pois 85% dos que procuram um doador compatível não encontrarão, nós precisamos de 100.000 habitantes para acharmos um doador compatível, diferente da Europa que a cada 15.000 habitantes você encontrará um doador compatível.

Estes cientistas que tanto propalam que o banco público é muito importante dizem que os bancos privados mentem quando vão falar com os futuros papais, por interesse econômico, mas não contam que não podem falar mal do seu patrão, o "governo", pois precisam de dinheiro para continuar suas pesquisas, ou seja, existe um grande interesse econômico.

Dizem ainda que defendem o banco público por ideologia, então aí fico me perguntando que ideologia é essa que compromete a vida de um bebê, que confunde médicos e a imprensa... Não discuto ideologia quando falo de células tronco, discuto o direito à vida, quero salvar vidas, quero mudar o mundo, não o meu, mas de famílias que poderão ter problemas como a do Rafael. Neste "jogo" contra a morte de inocentes, nós, dos bancos privados, somos aliados, não somos concorrentes, os números estão aí, analisem. Eu quero fazer um apelo às famílias: quando forem procurar informações sobre células tronco, procurem um especialista no assunto, façam uma consulta e, se tiverem condições, guardem esta esperança de vida.


O autor, Ricardo Viegas, é especialista em células tronco pelo instituto de pesquisa do BCU, formado em administração de empresas e diretor do BCU Bauru

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