Uma amiga confidenciou: adorava mastigar AS infantil pois era docinho e não fazia mal! Quase todos as pessoas tem uma história com a aspirina e a própria trajetória da aspirina de tão interessante e enriquecedora, merece ser contada.
Certa vez aprendi: se colocar um comprimido de aspirina na água em que se colocava as rosas recebidas, dobrava-se o tempo em que permaneciam viçosas. Minha mãe acreditava que esse tempo era proporcional ao amor de quem lhe deu as flores! Neste caso, melhor será providenciar a aspirina para evitar frustrações! Outro dia, um mecânico entrevistado garantiu: quando a bateria do carro arriar, coloque uma aspirina na água que volta a funcionar! Se o cara não tem dinheiro para trocar a bateria, faz-se qualquer negócio!
Com 113 anos de descoberta e fabricação, a aspirina derivou originalmente da árvore inglesa conhecida como salgueiro ou "salix alba" a partir da observação pioneira do reverendo Edward Stone em 1763. Mas, Hipócrates, o pai da Medicina, já recomendava folhas de salgueiro para as dores do parto há 2400 anos a.C. Em 1897, o químico alemão da Bayer descobriu como fazer o ácido acetilsalicílico em laboratório com resultados impressionantes.
A aspirina inaugurou a mala direta, um ineditismo no mercado, pois pela primeira vez um fabricante, a Bayer, enviou um livreto de 200 páginas para 30 mil médicos europeus explicando o produto, antes de lançá-lo no mercado. Em 1899 veio a patente e a aspirina ingerida como pó diluindo-se na água, foi transformada em comprimidos, os primeiros da história. Em 1922 o poeta Bastos Tigre lança o:"se é Bayer, é bom".
O mundo inteiro usava aspirina para dores, mas não se sabia como atuava. Apenas em 1971, o inglês Vane liderou uma equipe de pesquisadores e descobriram que o ácido acetilsalicílico, nome químico da aspirina, inibia a síntese de um mediador conhecido como prostaglandina. Este mediador é liberado por quase todas as células normais em quantidade muito pequena, apenas para se comunicarem uma com as outras; em áreas agredidas tem sua síntese muito aumentada, a ponto de sensibilizarem os nervos, aumentando a dor, o que nos deixam desesperados.
A descoberta de Vane o levou ao Prêmio Nobel pois o mundo aprendeu que inibindo as prostaglandinas, a dor era aliviada. O caminho foi aberto e novas drogas foram concebidas imitando a aspirina como analgésico, anti-inflamatório e antipirético. O edema ou inchaço e a febre também são provocados pelas prostaglandinas aumentadas, logo inibindo-as controla-se estes sinais e sintomas! Antes da pesquisa de Vane, apenas os corticoides e outros analgésicos mais fortes eram usados para a dor, mas os efeitos colaterais e contraindicações eram muitas.
Depois da aspirina, os analgésicos e anti-inflamatórios por décadas foram as 20 drogas mais vendidas no mundo. Nos últimos dez anos perderam posição neste ranking para os remédios da disfunção erétil. A aspirina, apesar do mercado farmacêutico ser o mais competitivo, continua sendo líder e chamada de "a droga maravilha" desde 1906.
O principal uso atual da aspirina está na prevenção de doenças cardíacas e vasculares pois inibe a agregação ou "ajuntamento" das plaquetas, necessário para que o sangue coagule ao sair dos vasos e encontrar superfícies ásperas. Dentro dos vasos, quando as paredes ficam irregulares pelo depósito de colesterol, a aspereza agrega plaquetas e coagula o sangue no local, impedindo o sangue em chegar no músculo cardíaco ou no cérebro: eis o infarto, AVC ou derrame! Por isto dizem: a aspirina "afina" o sangue.
A aspirina continua surpreendendo o mundo. Estudo na Universidade de Oxford, publicado na The Lancet, analisando 51 pesquisas com mais de 77 mil pacientes, detectou que doses baixas de aspirina diariamente previne e até ajuda tratar alguns cânceres. Peter Rothwell e equipe já haviam relacionado a aspirina a um risco menor de câncer, particularmente de intestino, e sugeria que as pessoas precisavam tomar a droga por mais de dez anos. A aspirina também ajuda impedir que o câncer instalado se espalhe pelo corpo em metástases.
Junto com os estudos na The Lancet, os médicos Andrew Chan e Nancy Cook, filiados à Faculdade de Medicina de Harvard, escreveram: é necessário mais estudos, mas as descobertas deixam claro que o uso da aspirina, não só na prevenção de doenças cardiovasculares, mas também do câncer, está cada vez mais próximo. Surpreendente, como a aspirina se reinventa!
Alberto Consolaro ? Professor Titular da USP e Colunista do Caderno Ciências do JC)