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Morre médico que ?devolvia? sons

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Um homem bem-humorado, prestativo, paciente, torcedor “irritante” do São Paulo, solidário com quem precisasse e tão preparado para enfrentar problemas que parecia que iria viver “mil anos”. Infelizmente, não viveu. Foi com apenas 62 anos que morreu, na tarde de ontem, em sua casa, o otorrinolaringologista Domingos Lamônica Neto. Referência na área e um dos criadores do projeto de implante coclear do Centrinho/USP, o médico foi vítima de uma parada cardiorrespiratória.

 

Além de ainda trabalhar no Centrinho, Lamônica tinha uma clínica particular e também atendia na Beneficência Portuguesa. Na semana passada, ele passou por uma cirurgia devido a uma hemorragia digestiva, porém, teve alta no fim de semana. 

 

O problema que tirou a vida do médico, porém, não parece ter tido relação com a cirurgia. Segundo funcionários da clínica particular, ele teria trabalhado normalmente anteontem. Na manhã de ontem, ainda teria conversado pela internet com funcionários do Centrinho.

 

Nascido em19 de outubro de 1949, Lamônica se formou pela Faculdade de Ciências da Universidade de Brasília em 1974. Após especializações na área de otorrinolaringologia, logo ele voltou para Bauru, onde havia cursado o ensino médio e fundamental no Instituto de Educação Ernesto Monte.

 

“Ele tinha um desejo pessoal de vir exercer a profissão aqui em Bauru. E ele conseguiu ser referência na cidade, no país e até internacionalmente. Porém, mais do que médico, ele se tornava amigo dos pacientes”, conta engenheiro Orlando Lamônica, primo de Domingos.

 

Em 16 de abril de 1986, ele ingressou no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), o popular Centrinho. Em nota emitida pela assessoria de comunicação, a instituição lamentou a morte de Lamônica, ressaltando sua “carreira brilhante”.

 

 

 

‘Irreparável’

 

A superintendente do Centrinho em exercício, fonoaudióloga Regina Célia Bortoleto Amantini, que trabalhou com Lamônica por mais de 2

anos e foi sua aluna no curso de fonoaudiologia da Universidade Sagrado Coração (USC), afirma que foi uma perda irreparável. “Perdemos um profissional, um amigo e imenso parceiro, que levava o nome do Centrinho Brasil afora”, complementa.

 

O programa de implante coclear da instituição, que teve Lamônica como um de seus criadores, já ajudou mais de mil brasileiros a conseguir o chamado ouvido biônico pela Sistema Único de Saúde (SUS). O médico palestrava em inúmeros congressos internacionais levando seu conhecimento. O último foi no mês passado, na Austrália.

 

“Ele era um profissional comprometido e empenhado, mas também tinha um jeito leve de encarar a vida e os problemas habituais do cotidiano”, diz a chefe do Departamento Hospitalar do Centrinho, Maria Irene Bachega.

 

 

 

Generosidade gratuita

 

Além de trabalhar no Centrinho e em sua clínica particular, o otorrinolaringologista Domingos Lamônica Neto também atuava na Beneficência Portuguesa, onde criou grande amizade com o médico Raul Gonçalves Paula.

 

“Ele era uma pessoa extremamente tranquila e generosa. Era difícil ver ele mal-humorado ou negando algo a qualquer pessoa”, conta.

 

Segundo o médico, foram muitas as vezes em que viu Lamônica atendendo gratuitamente. “Ele sempre foi um ótimo médico e, principalmente, ser humano. Na família dele, há pessoas que estão seguindo seus passos. Resta esperar que, de alguma foram, possam preencher este vazio”, completa.

 

 

 

Gratidão

 

Helder Fernandes Aguiar, chefe do departamento de otorrinolaringologia do Centrinho, trabalhou com Lamônica até a semana passada. “Eu fui sócio dele em um consultório durante 17 anos. Conhecia muito e pude ver a pessoa fantástica que ele era. Criamos uma amizade muito grande”, conta.

 

Na verdade, era um sentimento que ultrapassava a amizade. Hoje chefe do departamento, Helder Aguiar contou muito com a ajuda de Lamônica quando chegou ao Centrinho e, por isso, é bastante grato a ele. “O Lamônica me ajudou bastante, assim como ajudava todo mundo. Tenho uma gratidão imensa por ele. Todos perdemos muito hoje (ontem)”, completa.

 

 

 

Comoção

 

Logo que a notícia da morte foi divulgada, houve grande comoção no meio médico e em pacientes que, seja pela clínica particular ou pelo Centrinho, passaram pelas mãos do otorrinolaringologista. Alguns, de longe, manifestaram o pesar por meio das redes sociais. Na maioria das postagens, a doçura e dedicação de Lamônica eram ressaltadas.

 

O velório do médico começou na noite de ontem no Centro Velatório Terra Branca, na rua Gerson França, 5-55, em Bauru. O sepultamento será hoje, às 15h, no Cemitério da Saudade.

 

 

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