Meu tio Juca tinha muito orgulho da sua profissão de "vendedor de enciclopédias". Vivia de terno e gravata, tinha seu carro próprio no tempo em que poucos gozavam desse privilégio e transitava entre pessoas de alta renda. Convenceu meu pai, um sitiante, a comprar a Enciclopédia Barsa, "uma coisa ótima para a educação dos filhos". Todos nós, em casa, nos formamos compulsando aqueles volumes, que ficaram desbeiçados em pouco tempo. Se fosse vivo, meu tio certamente estaria de luto com o anúncio do desaparecimento da Enciclopédia Britânica, na versão impressa. É o fim de uma instituição do mercado editorial, depois de 244 anos de tradição que a transformou na maior fonte do conhecimento humano e até símbolo de status social. A decisão de descontinuar a versão papel foi recebida como o fim de uma era. Hoje, os internautas têm de graça a Wikipedia, com 11 milhões de artigos em 265 idiomas, contra 120 mil verbetes e temas da Britânica, em 32 volumes que custam 1 400 dólares. A Wikipedia conta com 150 mil enciclopedistas-voluntários, que trabalham sem remuneração e corrigem no ato qualquer erro de informação, às vezes até com conteúdos meramente difamatórios.
Claro que a Encyclopaedia Britannica é mais precisa. Foi publicada pela primeira vez em Edimburgo, Escócia, em 1768 ? segundo ela mesma. Tem 25% menos erros do que a Wikipedia. Continuo dela me utilizando por uma questão de tradição, mas na versão digital. Comprei-a na Amazon.com por 55 dólares pagos no cartão de crédito. Por problema de perda de arquivo na troca do meu computador e, sem mais o CD original, encomendei outro à Amazon. Quando o fiz, um "warning" me avisou que já havia comprado tal mercadoria. Aí comecei a entender por quê as empresas têm que se adaptar, correndo às vertiginosas mudanças tecnológicas e às regras de comunicação. Desde esse dia, passei a confiar cegamente na Amazon, que me impede de errar. Mesmo contra o próprio interesse empresarial, que deveria ser a venda. Ela não quer ter lucro somente por vender um livro ou uma publicação digitalizada, mas também por criar uma relação de confiança que vai levar a maiores vendas. Ainda vivemos num mundo onde noventa e 9% das empresas estão orientadas a maximizar o lucro tendo o produto como foco. Felizmente, cada vez mais agentes produtores procuram, além da qualidade do que vendem nuclear os consumidores, a fim de que obtenham o máximo de satisfação e usufruam do produto até o final da sua vida útil.
A Britânica, Barsa, Larousse, Mirador e outras enciclopédias atravessaram décadas e até séculos apresentando-se como um produto credenciado pela autoridade de sua marca, e dos acadêmicos que nelas escrevem e organizam o conhecimento para apresentar ao leitor. Mas o crescimento das redes colaborativas na internet está formando uma geração acostumada não a procurar o conhecimento por meio de especialistas, mas em construí-lo coletivamente. O modelo de Enciclopédia, desde a origem, lá com Diderot e D?Alembert (1772), era o de reunir o conhecimento do mundo e dizer: toma, tá aqui. Hoje, a idéia está mudando gradualmente A massa de informações é tamanha e muda com tanta freqüência que talvez seja ingênuo apresentar um compêndio de conhecimentos. Hoje é necessário organizá-lo e atualizá-lo todos os dias.
O mundo sempre mudou, países deixam de existir, revoluções, desastres, mas antes não se atinha acesso tão imediato a essa informação. Hoje achar que se pode esperar a atualização pelo livro do ano de uma enciclopédia em papel é irreal. Por isso mesmo as enciclopédias não se esquivaram do mundo digital ? para fazer frente à internet, aos buscadores e à própria Wikipedia. Ingressaram no universo digital cada qual ao seu modo. O ingresso da Britânica foi tão bem-sucedido que provocou o fim de sua versão em papel. Ela e outras publicações de informação vendem produtos em CDs e, em conexão com a rede baixam atualizações periodicamente da base de dados central. E para homenagear Millôr Fernandes, saco, via internet, uma das suas "frases enciclopédicas": "De todas as taras sexuais, a mais estranha é a abstinência".
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC