Completam-se 48 anos do Golpe Militar de 1 de abril e alguns setores, felizmente isolados do conjunto da sociedade e de suas aspirações, insistem em deixarmos no esquecimento as arbitrariedades e assassinatos covardes ocorridos naquele período. Não venham dizer que os militantes de esquerda também devam ser punidos, pois estes já o foram pela tacanha e arbitrária Justiça Militar da época.
Como o espaço é pequeno, vou me ater a três casos ocorridos durante este nefasto período da história brasileira, comprovados com documentos arquivados no Arquivo Histórico de São Paulo e do extinto SNI. Em Bauru, o psicólogo Romeu Cajueira de Freitas, funcionário da Estrada de Ferro Noroeste Brasil, que tinha chegado a nossa cidade precedido da fama de profissional competente e correto, foi denunciado por um médico que dentre outras asneiras, deixou para todo o sempre uma perola inesquecível.
Em sua denúncia, afirmou que o professor Romeu, na realidade, era carpinteiro no nordeste e estava em Bauru por determinação de Miguel Arraes e Francisco Julião para incutir o marxismo na cabeça dos ferroviários. Preso e processado indevidamente, acabou absolvido pelo saudoso juiz de direito Antonio Macedo de Campos. O denunciante continua saudoso do regime militar e, às vezes, o enaltece nas páginas de nossa imprensa.
Em Assis, o verdureiro e evangélico Flávio Sampaio, semi-analfabeto, localizou jornais e os aproveitou para embrulhar seus produtos. Não sabendo ler, não percebeu que eram jornais do Partido Comunista Brasileiro. Denunciado como sendo secretário de agitação e propaganda no partido naquela cidade, acabou preso e processado por infração a Lei de Segurança Nacional. Poderia hoje soar como anedota se não fosse o desfecho trágico que teve o episódio. Assustada com a presença de um pequeno policial, dona Lídia, sua esposa, grávida de nove meses, teve um infarto e morreu, levando consigo o filho que o casal aguardava. Seu denunciante morreu tempos atrás.
No Rio de Janeiro, Fernando Antunes Coimbra, o Nando, era professor do Plano Nacional de Alfabetização (PNA), implantado pelo educador Paulo Freire, e na eclosão do Golpe, foi demitido com a extinção daquele órgão. Posteriormente, ao hipotecar solidariedade à prima Cecília, cujo marido havia sido preso, foi surpreendido com a chegada da polícia e levado junto com a prima para os porões do DOI-CODI carioca. Jogador de futebol, um craque, segundo os irmãos Eduardo e Arthur, foi proibido de jogar profissionalmente pelos ditadores de plantão. Como sentir saudades de um regime arbitrário que prendia por "crime de opinião", que apreendia e queimava livros, revistas, que proibia um cidadão de exercer sua profissão?
Como sentir saudades de um regime que demitia a bem do serviço público funcionários exemplares, com folha corrida invejável e que contavam com longo tempo de serviço prestados e que posteriormente, para tentar corrigir tal arbitrariedade, inventaram uma pensão equivalente a 30% do salário para suas esposas que eram consideradas viúvas para efeitos de contabilidade ou como "viúvas com marido vivo". Não dá para sentir saudades e hoje vemos a juventude de nosso país voltando a se organizar, os cara-pintadas voltando às ruas em defesa da Comissão da Verdade e tenham a certeza de com a sua implantação oficial, estaremos levando, através da "Nossa Memória, Ninguém Apaga" , dentre outros, o caso do professor Romeu Cajueira de Freitas, para ser analisado.
Antonio Pedroso Junior, o Chinelo