Um trio de golpistas que está em Bauru há cerca de 10 dias encontrou na cidade um terreno fértil para a aplicação do golpe do bilhete premiado.
Presas fáceis, lentidão na ação policial e facilidade das agências bancárias colaboram para uma “receita favorável” de cerca de R$ 150 mil, segundo estimativas desta semana.
O conjunto de fatores fez com que o trio, formado por duas mulheres e um homem, nem se desse ao trabalho de fugir, como é praxe nas ações desse tipo. Ao que tudo indica, as presas facilitaram a concretização dos delitos, ocorridos em áreas de grande movimentação.
Todas tiveram início na região sul e central, proximidades de casas lotéricas e banco.
Uma das vítimas, de 30 anos, suspeita que se alguém do banco tivesse chamado ela para conversar, antes de liberar o saque de R$ 9 mil, poderia ter desistido de ajudar a “boa velhinha” que estava com o bilhete premiado.
“No banco, o caixa não liberou, mas veio uma mulher e autorizou a retirada do dinheiro. Quando fui pegar os R$ 9 mil, ainda pedi para que o dinheiro fosse entregue em uma sala particular para que os outros clientes não me vissem pegando o montante, porém isso me foi negado. Houve muita facilidade para a entrega do dinheiro”.
Roteiro de novela
Um misto de raiva, mágoa e impotência tomou conta da vítima de 54 anos que perdeu R$ 50 mil no golpe do bilhete. Parecia roteiro de novela. Ela diz que em nenhum momento pensou em receber dinheiro do tal homem caipira que tinha um nome escrito em um papel e que precisava de ajuda.
“Ele aparentava ter uns 60 anos. Pediu ajuda para mim a fim de localizar um vendedor de roupas que também vendia bilhetes na área rural e havia prometido dar a ele R$ 50 mil, além da bicicleta e TV que já havia entregue para a família dele em Alfenas/Minas Gerais.”
No imbróglio entrou a moça, bem vestida que resolveu ajudar o “caipira”.
A golpista teria dito que morava nas imediações e ao saber que ele tinha ganho mais de um milhão, resolveu ir a um prédio, onde morava a mãe dela e pegar dólares e joias para provar ao ‘caipira’ que tinha dinheiro.
Foi ela quem almoçou com a vítima enquanto o tesoureiro do banco onde a mulher tinha conta não voltava do almoço.
“Ela ligou para o tesoureiro do banco como se fosse eu e contou que eu precisava da retirada para a compra de uma chácara. Era o sinal do negócio. No banco, ela ficou tomando conta do ‘caipira’ no carro, do lado de fora enquanto eu fazia o saque.”
Na agência, a caixa teria alertado a vítima sobre a retirada, sugerindo inclusive que ela pegasse um cheque administrativo.
“Eu estava tão envolvida, parece que hipnotizada que confirmei para o caixa do banco a história que a golpista havia inventado. Por nenhum momento pensei que estava sendo enganada”.
Após a vítima pegar o valor de R$ 50 mil em dinheiro retornou ao carro dos golpistas e deparou com o ‘caipira no banco traseiro.
“Ele me disse que depois de ver o dinheiro poderia retirar o prêmio de mais de um milhão, porque confiava na gente e daria os R$ 150 mil prometidos para nós. Eu não queria o dinheiro, mas a moça precisava para abrir a academia que ela sempre sonhou.”
Foram embora...
No interior do carro, a golpista avisou que o “caipira” havia vomitado e precisava de remédio. Entrou em uma farmácia, ficou no estacionamento. “Ela pediu para eu comprar um medicamento. O pacote com o dinheiro estava na minha bolsa. Quando fui descer, ela me alertou que era perigoso descer com o montante e colocou minha bolsa junto da dela, cheia de dólares. Eu desci e quando voltei a olhar, eles já tinham ido embora.”
Dificultando
Pelo menos uma vez por semana, o 3º Distrito Policial registra um caso de estelionato nas mais diversas formas, informa o delegado titular Milton Bassoto Jr.
Em todos eles, a vitória é dos estelionatários por um simples motivo; a vítima se envolve com os golpistas e vê vantagem na ação.
“O que a vítima precisa ter em mente é que ninguém dá nada para o outro. Pode ser uma velhinha, um jovem bem vestido ou uma senhora com aparência de gente séria que chega perguntado sobre um determinado endereço ou que procura a Caixa Econômica Federal para trocar o bilhete premiado. Leva a vítima na conversa a conferir os números em uma Casa Lotérica.”
Nesses casos, ele orienta a propensa vítima a indicar um posto policial, agência do Correio ou qualquer estabelecimento comercial que tenha nas imediações. “A vítima não deve continuar a conversa.”
Menor potencial
O Código Penal Brasileiro privilegia os crimes contra a vida, por isso, esse tipo de ocorrência tem privilégio tanto no atendimento como nas investigações.
O crime de estelionato é considerado de menor potencial, com pena de reclusão de um a cinco anos.
Quando um pedido de ‘socorro’ da vítima chega á polícia não é prioridade se ao mesmo tempo tiver ocorrido um acidente grave ou um crime contra a vida, tipo um homicídio, latrocínio e tantos outros. O comandante da 1ª Cia da PM, capitão Jorge Luiz Dias não admite e enfatiza que todas as chamadas feitas ao Copom, através do 190, têm o mesmo tratamento, embora na prática, não seja bem assim.
“Toda vez que recebemos uma chamada desta, disparamos um alerta geral para todas as viaturas que estão em serviço. Porém, geralmente a vítima demora mais de 15 minutos para comunicar o fato. Muitas delas, nem comunicam, com vergonha que ter caído no golpe.”
Estelionatários ganham tempo enquanto boletim de ocorrência segue seu ‘trajeto’
O boletim de ocorrência feito no plantão policial caminha, lentamente, normalmente no dia seguinte, para a Delegacia Seccional, de onde é distribuído para o distrito da área. Só então é que o fato vai ser conhecido do setor de investigações. Como não é prioridade, os golpistas têm tempo para sair da cidade.
Não foi o caso em Bauru, onde os golpistas permaneceram por vários dias e fizeram, pelo menos três vítimas. O golpe é sofisticado e em um dos casos, a vítima chegou a almoçar com os estelionatários.
Segundo o delegado Bassoto, mesmo o crime sendo de menor potencial ofensivo é possível mandar os autores para a cadeia, se forem reconhecidos pelas vítimas ou com o produto do crime. A dificuldade é encontrá-los porque agem com carros geralmente alugados, furtados, roubados, com placas frias etc. Uma das vítimas não se atentou para o carro ocupado pelos golpistas.
Já a outra, avisa que era um Vectra de cor clara, todo filmado com a placa DJC 9836/Maringá.
Na pesquisa feita pela vítima que não se conforma com a lentidão do trabalho policial, ela descobriu até a proprietária do veículo.
Banco responde
O Banco do Brasil informou que as instituições financeiras podem postergar para o dia útil seguinte o saque em espécie de valor superior a R$ 5mil, conforme a disponibilidade de numerário na unidade.
A instituição ressalta os funcionários são treinados e constantemente orientados a oferecer alternativas para a transferência de valores, como canais eletrônicos, visando á segurança dos nossos clientes. No entanto, são orientados também a respeitar a decisão e escolha do cliente.
Ou seja, a responsabilidade é do cliente.
Crime planejado
Para o capitão da PM, Jorge Luiz Dias, a escolha da vítima não é aleatória.
“Os golpistas contam com olheiro e percebe a movimentação nas áreas bancárias. Aplicam o golpe de maneira que a vítima se envolve a ponto de não pensar, em perder o ‘negócio’. Até a pouco tempo, eles escolhiam os idosos e nisseis que são mais facilmente envolvidos. “Tem uma das vítimas que tem 30 anos e é uma pessoa esclarecida”, ressalta o delegado Bassoto.
Um dia a casa cai...
O fato de Bauru ser atrativa para golpes não “protege” golpistas em 100% dos casos. A Polícia Civil prendem anteontem três mulheres que usavam documentos falsos para comprar R$ 8 mil em mercadorias de lojas.
O “trio das compras” também agia na Capital até prisão às 17h de sexta-feira no cruzamento das ruas Gustavo Maciel com Aviador Gomes Ribeiro.
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