Polícia

Jovens vítimas de acidente na Duque são sepultados

Por Marcele Tonelli | Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

Éder Azevedo

Acidente na Duque matou três pessoas na madrugada de ontem

Três jovens mortos e três feridos. Esse foi o resultado de uma tragédia gerada por um acidente com veículo desgovernado às 5h de ontem, em Bauru.


O sepultamento dos jovens ocorreu às 21h de domingo (1) e na manhã desta segunda-feira (2).


A ocorrência foi registrada na quadra 26 da avenida Duque de Caxias, quando as vítimas voltavam de uma festa em uma danceteria.


Em nove dias, essa é a quarta morte envolvendo jovens na mesma quadra da avenida - e em um final de semana. De novo, a imprudência acelerou mais forte.


Por volta das 8h30 de ontem, quem passava pelo local do acidente podia notar o cenário de destruição.


O GM/Vectra, cor cinza, placas CGV 2323, conduzido por Fabiano Novaes dos Santos, 27 anos, ficou completamente destruído.


O veículo era emprestado e pertenceria a uma vizinha do rapaz. Ele não possuía Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Além do motorista, outras duas pessoas morreram no local: Evelyn Luiza Evangelista da Cruz, 18 anos, e Kaio Henrique Marques, 19 anos.


De acordo com a Polícia Militar, era por volta das 5h quando os jovens saíram de um bar, localizado no cruzamento entre a avenida Duque de Caxias e a rua Araújo Leite. Eles seguiram rumo a um posto de combustíveis para encontrar alguns amigos.


Segundo o depoimento de Jhony José de Souza, 19 anos, um dos sobreviventes, o condutor teria ingerido bebidas alcoólicas, como cerveja e uísque, e acelerado o carro para realizar uma ultrapassagem a uma motocicleta na avenida, no sentido Centro-bairro, chegando a atingir cerca de 190 quilômetros por hora.



Cena de horror


Sem habilitação, em alta velocidade, sem cinto de segurança e com o número de ocupantes maior que o permitido, ao atingir a quadra 25 da via, o motorista do Vectra tentou outra ultrapassagem arriscada a um Gol, mas acabou esbarrando na tartaruga de concreto que divide a avenida e perdeu o controle do veículo.


“Ele ultrapassou uma moto e acelerou mais para ultrapassar um Gol preto. Senti que o carro começou a virar e bateu na tartaruga. Foi quando começamos a bater em tudo. Quando o carro parou, eu abri a porta. Eu e o Lucas ficamos chamando o Kaio, mas vimos que ele não respondia. A menina que estava na frente se apavorou quando viu o braço de Fabiano no seu colo e o estado em que a Evelyn estava no banco de trás”, conta Jhony, sobrevivente da tragédia.


Ao atingir o lado oposto da pista, o carro rodopiou, subiu na calçada, esbarrou nas grades de proteção de uma loja de vistoria de autos, arrancou placas de sinalização e destruiu a cobertura de um ponto de ônibus, parando somente no cruzamento da avenida com a rua Recife.



Uma com cinto


Com a violência provocada pelos impactos, os ocupantes do lado esquerdo do veículo, o condutor Fabiano, a estudante Evelyn Luiza Evangelista da Cruz, 18 anos e o auxiliar de almoxarifado do Jornal da Cidade, Kaio Marques Henrique, 19 anos, morreram na hora. O sistema de airbag do veículo chegou a ser acionado, mas a força das batidas inutilizou a proteção.


Além de Jhony, outros dois passageiros sobreviveram: Lucas Willian Silva Galbiat, 19 anos, que era primo de Kaio, e uma adolescente de 15 anos, que não será identificada em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Eles tiveram ferimentos leves e foram socorridos ao Pronto-Socorro Central.


Os rapazes tiveram escoriações e foram liberados da unidade ainda pela manhã. A adolescente sofreu ferimentos na perna e na barriga, mas também recebeu alta médica na tarde de ontem, segundo informou o PS.


A menor de 15 anos, que estava no banco da frente, seria a única ocupante que usava cinto de segurança, afirma a polícia.

 

São-paulino roxo, Kaio queria fazer curso de educação física

Com o ensino médio completo, Kaio Marques Henrinque, 19 anos, funcionário do JC, recentemente estudava com colegas sobre qual faculdade faria. Apaixonado por futebol, cogitou a possibilidade de fazer educação física. Era bom de bola e torcedor roxo do São Paulo Futebol Clube, conta Luiz Felipe Calderari, seu chefe no jornal.


Luiz Felipe acompanhou um tio de Kaio ao Instituto Médico Legal (IML) para reconhecer o corpo. “A imagem não sai da minha cabeça. Fiquei chocado. Não só pelo acidente, mas pela idade dele e dos projetos que não teve tempo de realizar”, comentou. Ambos trabalhavam juntos há cinco anos, quando Kaio ainda era mirim da empresa.


“Foi o primeiro emprego dele. Me ajudava com as bobinas de papel. Estava sempre disposto a colaborar com quem quer que fosse. Difícil encontrar gente assim”, acrescenta Luiz Felipe. Kaio aparentava ser tímido, mas assim que tomava intimidade com as pessoas, tornava-se extrovertido. Morava com a mãe, o padrasto e dois irmãos mais novos na Pousada da Esperança - e ajudava nas despesas de casa. Responsável, estava se preparando para tirar a própria carteira de habilitação - mais um sonho interrompido.  

 

Evelyn chegou a ficar em dúvida se devia ou não sair com amigos

Na manhã de ontem, os pais de Evelyn Luiza Evangelista da Cruz, foram ao Pronto-Socorro Central com esperanças de conseguir alguma notícia sobre a filha. Ao serem informados pelos policiais que a garota não teria resistido, o casal, Edvaldo Evangelista da Cruz, 45 anos e Mônica de Paula Lima, 37 anos, ficou em estado de choque. A mãe da garota passou mal e precisou ser medicada com calmantes.


“Ela saiu de casa para ir a uma festa com os amigos, que passaram para pegá-la por volta das 22h15. Eu disse para ela não ir e ela chegou a ficar em dúvida, quase não foi. Mas ela estava meio chateada porque o namorado tinha saído sozinho e resolveu se divertir com os amigos para esquecer o problema”, lamenta o pai de Evelyn, que afirma que a filha era uma menina “tranquila”.



Alívio e lamento


Adriana Lúcia Silva Galbiat, 40 anos, mãe de Lucas, também estava no PSC na manhã de ontem à espera de notícias do filho. Aliviada por saber que o rapaz teve apenas escoriações ela lamentava a morte do sobrinho, Kaio Henrique Marques.


“O Lucas foi de ônibus para a casa de um amigo encontrar com o Kaio para irem a uma festa. Outro filho meu, que também estava no mesmo lugar que os garotos, chamou os dois para voltarem juntos, mas quiseram ficar mais. Disseram que pegariam carona com o Fabiano”, conta a mãe de Lucas, primo de Kaio.


Horas antes do acidente, os jovens estavam em danceteria também na Duque. Após as 4 horas, pegaram carona com Fabiano para um bar próximo à rua Araújo Leite. Mas, por motivos desconhecidos, acabaram ficando pouco no local e seguido para a posto para encontrarem amigos de Fabiano.

 

‘Tentei acordá-lo, cheguei a dar socos’

Lucas Vieira da Silva Galbiat é primo de Kaio Marques Henrinque e estava ao lado dele no momento do acidente, na madrugada de ontem. Conta, ainda, que teve mau pressentimento quando Fabiano Novaes dos Santos imprimiu alta velocidade no carro.


Como os riscos eram iminentes, ele e todos os ocupantes do carro alertaram aos gritos para que o condutor cessasse a brincadeira. Logo após o último berro, a colisão. “Vi tudo entrando para dentro do carro e fechei os olhos. Quando abri, a cabeça de Kaio estava no meu ombro. Tentei acordá-lo, cheguei a dar socos, mas ele já estava morto”, conta o rapaz de 19 anos.


Companheiro do primo, contou que momentos antes de entrarem no veículo para pegar carona, decidiram voltar para casa de ônibus. Mas, na sequência, mudaram de ideia. Inconformado com a tragédia, emocionou-se ao lembrar que também gostaria de cursar educação física assim como Kaio.


Por muito pouco o funcionário do Jornal da Cidade deixou de sair para a balada na noite de sábado. O pedido partiu da mãe e da avó. Já havia decidido que passaria a noite na casa da família, mas recebeu o convite de um amigo e mudou de ideia. Foi enterrado ontem.

 

Vítima deixa filha e sonho de ser arquiteta após retomar os estudos

No início deste ano, Evelyn Luiza Evangelista da Cruz, 18 anos, tinha decidido retomar os estudos, que havia abandonado aos 15 anos por conta de uma gravidez inesperada.


Além de não ter conseguido ver a filha de 2 anos de idade crescer, a jovem não realizou o sonho de se formar arquiteta.


“Há um tempo, ela tinha feito um curso de design e decidiu que, se fosse ser alguma coisa na vida, seria arquiteta. Neste ano, estava empenhada em conseguir terminar os estudos para prestar vestibular”, conta a mãe de criação, a cabeleireira Mônica de Paula Lima, 37 anos, que “adotou” Evelyn ainda pequena, quando se casou com o pai dela, o operador de máquinas Edvaldo Evangelista da Cruz, 45 anos.


Ele conta que a filha não gostava de bebidas alcoólicas. “Ela nem estava tão empolgada para sair. Pelo que eu soube, ela ficou a noite inteira quieta num canto”.



Seis irmãos


Evelyn havia se separado do pai de sua filha há menos de um ano. Ela não estava trabalhando e ajudava os pais a tomar conta dos seis irmãos com quem morava, no bairro Pousada da Esperança 1.


Segundo Mônica, a jovem estudava à noite e, durante a madrugada, gostava de assistir filmes na TV.


“No dia seguinte, ela acordava cedo para levar a filha para a escola, voltava e dormia até tarde. A Evelyn era muito tranquila. Não era para ter acontecido isso com ela”, lamenta.

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