Bairros

?O cinto de segurança me salvou?

Marcele Tonelli e Bruna Dias
| Tempo de leitura: 10 min

Apenas alguns segundos e uma premonição salvaram a vida de uma jovem de 15 anos neste final de semana, em Bauru. A estudante Gabriela Alves Rodrigues dos Santos, sobrevivente da tragédia ocorrida na manhã do último domingo na avenida Duque de Caxias, era a única a usar o cinto de segurança. O acidente, que envolveu um veículo desgovernado, resultou na morte de três jovens de 18, 19 e 27 anos, além de ferir outros três ocupantes. 

 

“Foi por Deus e pelo cinto que eu sobrevivi. Na verdade, eu nasci de novo. Não desejo isso para ninguém. Vi a morte na minha frente, foi horrível”, ressalta a garota, de apenas 15 anos, que sobreviveu aos sucessivos impactos que derrubaram placas, destruíram o alambrado de uma loja e arrancaram a cobertura de um ponto de ônibus na quadra 26 da avenida, conforme divulgado ontem pelo JC.

 

“Quando eu percebi que ele (o motorista do Vectra onde estavam os seis ocupantes) emparelhou com a moto e iria acelerar o carro para ultrapassar, eu senti que algo poderia acontecer e coloquei rápido o cinto de segurança. Logo depois disso, já estávamos perto de outro carro. Senti um tranco e tudo começou a rodar”, explica Gabriela.

 

A garota, que teve a mão direita quebrada e escoriações na perna esquerda, conta que no momento do ocorrido desmaiou e acordou somente após “ver” a imagem de sua mãe pedindo para que ela acordasse.

 

“Eu bati com a cabeça no joelho e ficou tudo branco. Nesse momento, vi a imagem da minha mãe me dizendo para acordar e sair do carro. Senti um cheiro muito forte de gasolina, acordei e vi o estrago todo. Dizem que mãe sente, e eu vivi isso”, relata a estudante. 

 

 

 

Troca de lugares

 

A estudante, moradora do Pousada da Esperança I, relata que minutos antes dos jovens entrarem no carro ao sair de um bar, uma das vítimas fatais, Evelyn Luiza Evangelista da Cruz, 18 anos, teria trocado de lugar com ela e Gabriela acabou sentando no banco da frente, saindo viva da tragédia. 

 

“Era para eu estar sentada no lugar da Evelyn, mas ela pediu para eu ir na frente, então eu troquei”, relata Gabriela, que segundo a mãe, Patrícia Alves de Brito, 47 anos, ainda estaria traumatizada com o acidente que matou seus três colegas. “A Evelyn salvou a vida da minha filha. Vou rezar muito por ela e por todos eles”, completa Patricia.

 

Segundo a mãe, a garota, que atualmente cursa a 8ª série do ensino fundamental, resiste para andar de carro e afirma que não pretende tirar habilitação tão cedo. 

 

“Eu não consigo mais dormir. Não quero mais sair, nem para trabalhar. A única coisa que eu quero é ficar quieta e ir à igreja. Eu deito para dormir e a imagem do acidente vem”, conta a menina de 15 anos.

 

“Eu estava agoniada naquela noite. Cheguei a dizer para ela não sair de casa, mas sabia que não iria adiantar, não dá para impedir. Quando ela saiu eu fiquei preocupada e não consegui dormir a noite toda, sentia que algo estava para acontecer. Ao receber a ligação do hospital, entrei em desespero e só me acalmei quando consegui vê-la”, afirma Patrícia Brito, mãe da jovem.

 

A parte esquerda do GM/Vectra, cor cinza, placas CGV 2323, ficou completamente destruída e os dois jovens passageiros daquele lado: a estudante Evelyn e o auxiliar de almoxarifado do Jornal da Cidade, Kaio Marques Henrique, 19 anos, além do condutor, morreram na hora. O sistema de airbag do veículo chegou a ser acionado, mas a força das batidas inutilizou a proteção.

Além de Gabriela, Jhony José de Souza, 19 anos e Lucas Willian Silva Galbiat, 19 anos, que era primo de Kaio, sobreviveram. 

 

 

 

Inquérito sobre acidente fica pronto em 3

dias

 

O acidente foi registrado no plantão da Polícia Civil como homicídio culposo, quando não há intenção de matar. O inquérito sobre o caso foi instaurado no 4º Distrito Policial (DP). De acordo com o delegado responsável, Ismael Cavallieri, os laudos periciais deverão apurar as circunstâncias e se houveram outros motivos que ajudaram a causar o acidente. Ainda nesta semana a polícia deverá intimar os sobreviventes para depor, assim como os familiares das vítimas. 

 

Fabiano Novaes dos Santos, 27 anos, condutor do veículo, não possuía Carteira Nacional de Habilitação, estaria em alta velocidade e, segundo dois sobreviventes, teria ingerido bebidas alcoólicas. O carro também estava com excesso no número de ocupantes (seis ao todo).

 

“Tudo indica que o condutor tenha agido de maneira imprudente, mas iremos esperar o resultado de todos os laudos para concluir o inquérito. Se constatado o excesso de velocidade, o processo será arquivado por conta da morte do condutor”, explica o delegado.

 

Segundo Cavallieri, a proprietária do veículo, que conforme a Polícia Militar seria vizinha de Fabiano, também será intimada a depor. As investigações deverão apurar se a mulher tinha conhecimento sobre a falta de habilitação do rapaz. Se constatado, a proprietária poderá responder criminalmente por ter entregado o veiculo automotor para pessoa não habilitada. 

 

A pena prevista para o crime, disposto no artigo 31

do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), é de 6 meses a um ano de detenção, podendo ser convertido em multa, dependendo do entendimento do juiz.

 

O laudo do exame necroscópico sobre o condutor deverá sair em 1

dias. O inquérito terá um prazo de 3

dias para ser concluído, podendo ser prorrogado caso a coleta das provas materiais e testemunhais demore mais que o previsto.

 

Caso a alta velocidade e os outros indícios que provam a culpa do conduor sejam comprovados, o delegado afirma que existe a possibilidade da tipificação do acidente ser modificada para homicídio doloso.

 

 

 

Sinais da tragédia

 

Horas antes do acidente, os jovens estavam em uma danceteria, mas decidiram ir para o bar localizado entre os cruzamentos da rua Araújo Leite com a Duque de Caxias, por isso pegaram carona com Fabiano Novaes dos Santos, 27 anos. O rapaz não possuía Carteira Nacional de Habilitação e teria emprestado o veículo de uma vizinha, conforme informou a Polícia Militar. 

 

De acordo com o relato da sobrevivente Gabriela Alves Rodrigues dos Santos ao JC, Fabiano, assim como Evelyn Luiza Evangelista da Cruz, 18 anos, não teria ingerido bebidas alcoólicas. Entretanto, ao saírem do bar, por volta das 5h, ao fazer a conversão da Araújo Leite para a Duque, o rapaz teria aberto a curva e esbarrado a roda do carro em uma tartaruga de concreto. 

 

“Ele foi fazer a curva e não viu a tartaruga. Depois parou para ver se a roda estava boa, mas não estava bêbado, eu só vi ele tomado uma soda de limão e uma Ice. O Fabiano passou a maior parte do tempo sentado e a Evelyn também”, relata a estudante.

 

Apesar do sinal, os jovens que sobreviveram ao acidente afirmam que o condutor teria seguido pela avenida em alta velocidade, acelerando mais o carro para ultrapassar uma motocicleta. “Nós passamos o pontilhão, ficamos de lado com uma moto e ele falou: ‘Ah não! Me chamou ‘pro’ racha’... Daí ele acelerou mais ainda”, conta Gabriela.

 

 

 

Veículos mais potentes exigem ‘prudência 2.

 

Conduzir um automóvel não é tão simples quanto pode parecer, principalmente quando este é mais potente, como o Vectra GLS de placas CGV 2323 de Bauru, ano/modelo 1997 de motor 2.

, que se envolveu em acidente gravíssimo na avenida Duque de Caxias na madrugada de anteontem deixando três mortos. Para o engenheiro mecânico e consultor automotivo Marcos Camerini, quanto mais potente for o motor, mais habilidade para dirigir e cautela o motorista deve ter.

 

Em sua análise, o especialista aborda desde a formação do condutor na autoescola. “Geralmente as pessoas aprendem a dirigir em um carro 1.

, e depois que tiram a carteira de habilitação ganham um carro 1.8 do pai. Isso é muito perigoso, porque a diferença dos veículos é enorme e é preciso aprender a dirigir este novo veículo”, alertou.  

 

Camerini define a situação como um “perigo para todos”, ou seja, para o condutor e para todos os que estão no trânsito com ele. “É como pegar uma Ferrari e querer sair dirigindo por aí. O perigo é para todos. O carro tem potência para ser usada em uma ultrapassagem segura, por exemplo. Como tem mais torque (arranque), a velocidade é atingida com mais facilidade, o que não acontece em carros com motor 1.

” (veja quadro ao lado).

 

A diferença entre os carros com motor 1.

(menos potentes) e 2.

(mais potentes) começa no peso. Os menos potentes são mais leves, conforme explica Camerini. 

 

“Se o motorista não souber usar a direção na velocidade certa em ambos os tipos de carro, o risco de acidente é grande. O carro 1.

possui menos torque, que é a potência dele. Não atinge alta velocidade em tão pouco tempo”.

 

Como são mais pesados e potentes, os carros 2.

já saem da fábrica com direção hidráulica. “Esse carro, por ser mais pesado, tem mais inércia, ou seja, a massa torna mais difícil acelerar e frear. Então, é menos ágil do que um carro 1.

no trânsito. O mesmo vale para motos mais e menos potentes. As menos potentes são mais ágeis no trânsito”.

 

 

 

Arma

 

Para o consultor automotivo, quem não sabe “domar” o veículo, mesmo os menos potentes, pode andar com uma “arma” nas mãos. “Não adianta colocar a culpa no carro e dizer que é porque ele é muito potente. A culpa é do motorista. O carro potente foi feito para ser utilizado da melhor forma possível. Isso não vale só para os carros novos, mas também para os velhos”.

 

Nem todos os automóveis possuem os airbags de proteção, que são acionados com o impacto em acidentes, evitando que condutor e passageiro venham a bater a cabeça no para brisas. Porém, este equipamento, comum de ser encontrado em carros mais potentes, não tem a mesma eficácia quando o cinto de segurança não é utilizado.

 

“Daqui a alguns anos, todos os carros virão com airbag, o que ajuda muito em caso de acidentes. Mas o airbag é para ser utilizado junto com o cinto de segurança. O cinto segura e o airbag impede que você bata a cabeça no vidro. Se não há o cinto, você é arremessado para frente. É possível que a pessoa bata a cabeça no vidro antes do airbag ser acionado”, frisou.

 

 

 

Velhos X novos

 

Segundo informações colhidas junto ao Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran), Bauru conta, atualmente, com uma frota de 224.171 veículos. Destes, 53.578 possuem mais de 2

anos de fabricação e são isentos de pagamento do Imposto Sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), segundo a lei estadual 13.296 de 2

8.

 

Isso significa que cerca de 25% de veículos “antigos” estão pelas ruas. Apesar da grande quantidade e do risco que estes - sem seus equipamentos em perfeito estado de conservação - oferecem, para o consultor automotivo Marcos Camerini o principal foco ainda é o condutor. 

 

“Se o carro não tiver pneu ‘careca’, com fluido de freio em dia, direção alinhada, faróis, é pouco provável que ofereça risco. Muitos carros antigos estão em perfeito estado. A tendência, como dá para perceber, é que os carros mais novos estão ganhando mercado por conta da facilidade de crédito. Eles também poluem menos, são mais seguros”.

 

O capitão Jorge Luís Dias, comandante da 1ª Companhia da Polícia Militar (PM) de Bauru, revela que, desde 1997, veículos antigos em estado de conservação ruim não podem ser recolhidos.

 

“O que nós fazemos é autuar o condutor com multas médias ou graves, que variam entre R$ 8

,

e R$ 127,

. O documento do veículo é recolhido e o condutor tem três dias para se apresentar à PM com a readequação. Assim, o documento é devolvido e o carro pode voltar a circular normalmente”.

 

Cabe a recolha ao pátio da Ciretran de veículos que estejam com licenciamento vencido, ou que o motorista esteja sem a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), por exemplo. “As infrações mais comuns que vemos em veículos como estes são pneus lisos e falta de iluminação”, finalizou o capitão da PM. 

 

 

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