Em um dia, o chá de bebê com mais de 9
pessoas. Menos de 24 horas depois, a dor de perder a filha 11 dias antes da data marcada para o parto. É esta tristeza que vive um casal bauruense, drama que se intensifica com a denúncia de que a morte da criança ocorreu por omissão de socorro. Um boletim de ocorrência (BO) foi registrado e o caso está sendo investigado pela Polícia Civil. O hospital nega negligência (leia mais abaixo).
Manuela seria o primeiro filho da representante de vendas Cristiane Oliveira, 34, e do jornalista Luiz Antônio Malavolta Jr., 27. O que era ansiedade se transformou em desespero por volta das 16h do último domingo, quando ela começou a ter contrações e, segundo o casal, teria entrado em trabalho de parto.
“Fomos para o Hospital da Unimed. Lá, entramos na parte de emergência. Demoraram cinco minutos para tirar ela do carro. Mas isso não foi nada. Depois, ela ficou exatamente uma hora e dez minutos esperando em uma maca”, conta Luiz Antônio.
Segundo ele, neste momento aferiram a pressão da esposa e também os batimentos cardíacos do bebê. “Eles me disseram que a pressão dela estava em 15 por 1
. Em relação aos batimentos da criança, falaram que estava em 11
”, conta.
Após toda a espera, a mulher finalmente foi atendida. “Disseram que tinha cinco ultrassons na frente. Por isso demorou. Mas tinham que dar prioridade a ela. Por conta de seu estado”, reclama. No atendimento, a médica teria constatado que o coração do bebê não estava mais batendo.
“Novamente, após mais 2
minutos de espera, ela nos deu a notícia de que a bebê tinha morrido. Ficamos totalmente destruídos”, completa Luiz Antônio.
Além da tristeza, veio também a surpresa. A Unimed teria alegado que a criança estaria morta desde o dia anterior. “Pouco tempo antes, tinham dito que ouviram os batimentos da criança. Como isso é possível?”, questiona.
Ainda de acordo com o casal, o hospital teria apontado várias hipóteses para a causa da morte da criança. “Chegaram a dizer que ela tinha formação de 33 semanas e não de 37, como estava”. Em nenhuma das hipóteses, cogitou-se qualquer erro de procedimento.
“Sabemos que foi omissão. Foi um absurdo. O que ela teve, segundo o obstetra que a acompanhou durante toda a gestão, chama-se anorexia ultrainterina. Como estava muito nervosa, teve um pico de estresse e a placenta descolou. Com a demora, não pode chegar oxigênio ao bebê e ele morreu”, denúncia Luiz Antônio.
O bebê foi retirado do útero de Cristiane por volta das 2
h25, e meia hora depois o corpo foi liberado. O enterro ocorreu no dia seguinte, na segunda-feira, às 15h no Cemitério da Saudade.
Hora da morte
Em meio a toda história, o ponto chave parece ser o horário da morte do bebê. Segundo o casal, não é possível que tenha ocorrido no sábado, como a Unimed alega. “Eu vi quando ela foi retirada da barriga da minha mulher. Não tinha nada que indicasse que morreu um dia antes. Pelo contrário. Nosso obstetra diz que ela morreu há pouco tempo”, completa Luiz Antônio.
Foi registrado BO por omissão de socorro na Polícia Civil. O titular do 4.º Distrito Policial (DP), Ismael Cavalieri, afirma que já foi requisitada a ficha clínica e que o próximo passo é ouvir os envolvidos.
“Iremos convocar tanto a médica que os atendeu na Unimed quanto o obstetra da família que viu o bebê após o ocorrido. Também iremos ouvir a mãe, já que foi o pai que fez a denúncia”, aponta o delegado.
O crime de omissão de socorro é enquadrado no Código Penal. A pena prevista é de um a seis anos de reclusão, mais multa. Quando resulta em morte, esta pena é triplicada.
Enxoval
Além do anseio por justiça, o casal Luiz Antônio Malavolta Jr. e Cristiane Oliveira ficou com a tristeza. Com o enxoval já comprado, eles não conseguem esquecer o ocorrido. “Era nossa primeira filha. Fomos para os Estados Unidos comprar o enxoval. Guardamos dinheiro para isto”, conta Luiz Antônio.
O casal afirma ainda que, caso a investigação termine com alguma indenização, o dinheiro será doado para associações beneficentes. “Já decidimos isso. Não queremos um centavo. Queremos justiça”.
Em nota, hospital nega negligência
Informados das denúncias pela reportagem do JC, a Unimed Bauru negou, por meio de sua assessoria de comunicação, que houve qualquer negligência no atendimento. A instituição, entretanto, não divulgou qualquer detalhe ou rebateu pontualmente as diversas acusações feitas pelo casal.
“O Hospital da Unimed Bauru vem através desta informar que não houve nenhuma falha no atendimento à senhora Cristiane Oliveira, ocorrido no último domingo, quando a paciente deu entrada no hospital para atendimento obstétrico. Esclarecimentos mais detalhados serão feitos oportunamente”, informou a instituição, em nota emitida pela assessoria de comunicação.