Geral

Aos 90, freira revela paixão por futebol

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

Aceituno Jr.

Irmã Helena é flamenguista de raiz e palmeirense de coração

Há 20 anos praticando solidariedade em Bauru, irmã Helena, como é conhecida na cidade, aos 90 anos não sabe o que é ter estresse. Com um largo sorriso no rosto e uma alma caridosa e jovem, ela aponta a receita para viver tanto e bem. “Sem dúvida, a amizade faz com que você se anime e viva mais”, aponta.

Flamenguista de raiz e palmeirense de coração, ela é do tipo que acompanha todos os campeonatos brasileiros pela TV ou pelo jornal. “Futebol é Brasil, está no sangue e eu sou brasileira, gosto disso tudo. Esporte melhora o humor e traz o equilíbrio”, ensina.

Helena Maria Ferreira nasceu em 25 de março de 1922 na capital carioca. Entrou para o convento aos 21 anos e há duas décadas instalou-se em Bauru para uma missão de educar e formar jovens e adultos no Mary Dota.

Com a alegria e sotaque típicos de uma carioca, ela conta com orgulho e demonstra, na expressão das palavras suaves e pausadas, a paixão que cultiva, mesmo há anos distante, da terra natal: Rio de Janeiro. “O Rio é lindo, a paisagem de lá não tem igual. Aqueles morros, a praia, tudo me traz saudade”, ressalta.

Questionada quanto à violência da cidade, ela não hesita em dar a reposta que estava na ponta da língua. “É uma metrópole que possui problemas como qualquer outra, mas sinto que o Rio está um pouco largado mesmo, e deveria ter mais atenção das autoridades. É triste observar a droga e a violência se espalhando”, reflete irmã Helena. Mas, completa: “Nunca sofri um assalto lá. Tive amigos que sofreram e ficava com medo, mas nunca aconteceu comigo”.

Aos 11 anos órfã de mãe, Helena ajudou na criação de seus oito irmãos. Aos 20 anos, após perder o pai, enfrentou uma de suas maiores dificuldades e a indecisão: seguir ou não a vida religiosa.


Felicidade plena


“Aos 17 anos fui me aproximando mais da religião. Após um retiro, no final do colegial, senti que a felicidade plena não estava nas festas ou na vida normal que levava, mas sim nas missões com Deus”, relata.

Dona de uma personalidade forte e ansiosa para resolver seu destino, em meados de 1943 Helena Maria Ferreira, na época com 21 anos, enfrentou suas dúvidas e optou pela conversão. A ajuda para a decisão final veio de uma irmã, Regina Maria Ferreira, hoje com 89 anos, que seguiu a vocação religiosa um ano antes de Helena.

“Queria muito entrar para o convento, mas o preço era muito alto. Eu teria que deixar minha família e meus amigos. Eu era muito livre, gostava de muito de ir à praia e, para me converter, teria que perder um pouco dessa liberdade e levar uma vida mais regrada”, explica.

Na época da conversão, os conventos no Brasil eram rígidos e os religiosos viviam uma espécie de clausura. Anos mais tarde, algumas congregações se abriram aos desafios do mundo e as missões nas regiões menos favorecidas do País se intensificaram.

Ao entrar para a Congregação Sagrado Coração, ela ministrou aulas de francês, geografia e história para garotas nos internatos da época. Da carreira no magistério, Helena guarda grandes amizades com algumas de suas alunas, que até hoje ligam, enviam cartas e viajam a Bauru para visitar a religiosa em sua humilde casa.

 

Alma caridosa

 Com o quintal quase na praia de Copacabana, Helena mudou-se para Bauru em uma missão e há 20 anos divide a pequena casa de Cohab com outras missionárias.

Após viajar por diversos Estados brasileiros com a congregação Sagrado Coração de Jesus, a irmã passou a conviver com a realidade da população nas periferias urbanas.

Em 1993, um convite feito pelo bispo dom Aloísio a trouxe para cá, junto com um grupo de missionárias, para realizar trabalhos de alfabetização de adultos e crianças no bairro Mary Dota, que começava a crescer em Bauru.

O projeto, em parceria com a Escola Estadual (EE) Ada Cariani, trouxe cinco missionárias para a cidade, que foram remanejadas para outros municípios e Estados ao longo dos anos. Por coordenar os trabalhos e pela afinidade criada no bairro, irmã Helena foi a única a permanecer.

Atualmente, cerca de 200 crianças são beneficiadas nos projetos sociais que a irmã, juntos a outras quatro religiosas, coordena no Mary Dota e no Parque Santa Edwirges.

“Além das catequeses, temos um projeto chamado ‘Vida e Alegria’ no bairro Nobuji Nagasawa, que acolhe crianças e adultos para reforço escolar e aulas de informática. Tudo feito por professores e equipe de voluntários”, reforça irmã Helena.

 

‘O maior e mais completo amor que eu poderia viver é pela vida e por Deus’, diz irmã Helena

Criada nas praias de Tijuca e Copacabana, no Rio de Janeiro, irmã Helena reaviva, com total lucidez, as memórias dos bons tempos vividos na praia antes da entrada para o convento.

“Eu morava praticamente em frente ao mar e adorava ‘furar’ as ondas com meus irmãos, tinha uma vida normal como qualquer garota. Lembro-me também das festas e do samba, adorava um sambinha. Vivia minhas amizades intensamente, tinha muitas amigas”, relata a irmã.

E os flertes? “Também não escapava dos flertes, mas nunca era nada sério (risos)”, revela Helena.

Questionada se nunca sentiu necessidade de amar alguém, ela é categórica. “O maior amor que eu poderia viver e o mais completo é o amor pela vida e por Deus. Claro que o jovem tem a necessidade de sentir-se amado e de amar também, mas o amor carnal não representa nada pra mim. É apenas a natureza e uma vontade física. A caridade e a amizade me completam”, fecha questão.

Filha de pais cariocas, a religiosa não esconde que nunca perdeu o samba no pé. “Amo tudo o que é brasileiro, samba, futebol... só não tenho mais estrutura física para ficar sambando (risos)”, comenta a irmã, que também ressalta o gosto pela leitura e por livros de história do Brasil.

Sobre o carnaval, ela é enfática, “carnaval é a alegria do povo. Adoro ver as pessoas felizes, além de ter muita afinidade com a música, que é o samba, que é o Rio”.

Descansar? Que nada! A rotina de irmã Helena é sempre agitada. Por volta das 8h ela já está de pé e pronta para mais um dia de reza, ensinamentos e ajuda à comunidade dos bairros Santa Edwirges e Mary Dota.

Diante de tantas tarefas e do compromisso com Deus, ela arranja um tempinho para descansar e ‘festar’ com as amigas do bairro também.

“Não deixamos de festejar nenhum aniversário aqui. É comum nos reunirmos para uma tapioca na casa de uma e bolos na casa de outra”, enfatiza a religiosa, sempre sorrindo.

Comentários

Comentários