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Fé e tradição marcam dia da Paixão

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 6 min

Quioshi Goto

Luiza faz questão de se vestir de preto toda Sexta Santa

As tradições que marcam a Sexta-Feira Santa permanecem vivas nos fiéis que participaram, na tarde de ontem, da celebração que marca a morte e a Paixão de Jesus Cristo na cruz. A Catedral do Divino Espírito Santo estava cheia no único dia do ano em que não são celebradas missas pela Igreja Católica. A cerimônia durou mais de duas horas e foi conduzida pelo bispo dom Caetano Ferrari, pelo padre Eduardo Campagnani Ferreira e pelo diácono Juarez Antônio Rodrigues.

Dentro da catedral, tudo exalta o clima de reflexão, recolhimento e tristeza sentido pelos católicos mais praticantes. As imagens estão todas cobertas por panos roxos, dando ainda mais destaque para os 15 painéis que rememoram a Via Sacra de Jesus. As canções que celebram o amor de Deus nos outros dias do ano dão lugar ao lamento e à dor entoados pelas vozes do coral.

As longas orações e reflexões fazem com que os presentes se levantem e ajoelhem antes do momento comovente em que o bispo e os demais celebrantes adentram à igreja carregando a imagem do Cristo morto na cruz. Eles são os primeiros a se curvar e beijar os pés de Jesus diante do altar. Logo em seguida, os outros fiéis vão ao encontro da cruz e repetem o gesto. Ao final, tomam a Eucaristia consagrada no dia anterior.

E se engana quem pensa que todo esse ritual, com tom quase fúnebre, é acompanhado apenas pelos mais antigos e fervorosos católicos. A catedral estava tomada por idosos, mas também por jovens casais, adolescentes e até crianças, que sem muito entender o que acontecia, repetiam as atitudes de seus pais e avós, mas já demonstravam o respeito pela fé.

Prova dessa diversidade são Giovana Campos de Oliveira e Diego Rios Santarosa. Ambos têm 19 anos e são namorados. O que os difere dos demais casais dessa faixa etária é que se conheceram nas reuniões da Comunidade de Jovens do Divino Espírito Santo, para onde vão todas as noites de sábado. “A gente fica lá das 19h30 às 21h30. Às vezes passamos um pouco disso, mas somos jovens comuns e conseguimos sair para nos divertir”, garante Diego.

Já Giovana mostra intimidade com a fé. Ela, inclusive, dá aulas para o grupo de Crisma da igreja e explica um dos principais costumes católicos na Sexta-feira da Paixão.

“Comemos peixe porque existe um simbolismo em torno disso. É o animal que vive na água, e a água está sempre se renovando. É isso que a gente busca neste dia. Morremos junto com Cristo e deixamos todas as nossas tristezas para nascermos de novo no domingo de Páscoa”, ressalta.

Mesmo com tanta fé, a moça faz questão de dizer que nada pode ser exagerado. “As coisas não são como antigamente. Não tem como dizer, por exemplo, que não ouvimos música porque em todo lugar está tocando. Mas é um dia triste e não temos motivo para sair e comemorar. O importante é manter o respeito”, pondera Giovana.

Os mais velhos, por outro lado, mantêm algumas tradições menos disseminadas hoje em dia. É o caso de Luiza Macedo dos Santos. Nascida em Campina Grande, na Paraíba, ela não sabe precisar sua idade por ter perdido os documentos com a morte da mãe, mas diz que, durante toda sua vida, não houve um ano sequer em que não tenha participado das celebrações da Sexta-feira Santa. Outra coisa da qual ela não abre mão são as vestimentas pretas na data. “É um dia de luto, então prefiro me vestir assim”, explica.

 

Pilares da fé

O engenheiro Asahi Kawaguti, 74 anos, também segue à risca os principais costumes que cercam a Semana Santa. Ele defende a prática da religião e conseguiu transmitir esses valores a seus quatro filhos, frutos de um casamento de mais de 40 anos. No entanto, um ingrediente a mais marca a vivência do descendente japonês no Catolicismo: ele ajudou a construir o próprio templo.

Inaugurada em 1958, a Catedral do Divino Espírito Santo foi projetada pelo engenheiro Murilo Marigori, que tinha Asahi como um de seus principais auxiliares. “Eu ainda nem era engenheiro, mas trabalhava como técnico desenhista e projetista. Conheço cada detalhe dessa igreja, embora algumas mudanças tenham sido feitas”, conta.

Ele lembra que, no início das obras, por volta de 1950, era o padre Natal quem conduzia a comunidade em uma pequena igrejinha situada na praça Rui Barbosa. O padre, porém, fora destituído pelo Vaticano após ter perdido um dedo. “Eram as regras da época”, observa.

Hoje, Asahi vive no Altos da Cidade, mas faz questão de, pelo menos uma vez por semana, participar das missas na catedral que ajudou a construir. “Acho que todo mundo deve frequentar as igrejas dos bairros onde moram, mas há uma história especial minha em relação a esta igreja”, explica.

Apesar de fervoroso na religião, Kawaguti pondera que os costumes ligados à Sexta Santa não podem ser interpretado ao extremo. “Se quebrar um copo, uma pessoa não vai deixar de recolher e varrer por causa do dia. Tem que ser mantida apenas a discrição. Não tem que deixar de limpar, mas também não é necessário programar a faxina para hoje (ontem)”, diz.

 

Procissão revive morte e ressurreição

Por volta das 19h de ontem, muitos fiéis se reuniram novamente na Catedral do Divino Espírito Santo para a Procissão do Senhor Morto. O coordenador dos ministros da Eucaristia Marcelo Reis explica que o ato relembra as 15 estações da Via Sacra, que começa com a condenação de Jesus Cristo à morte e termina com sua ressurreição, quando voltou à vida três dias após ter sido crucificado.

A procissão teve início na praça Rui Barbosa e, em seguida, seguiu pela Batista de Carvalho, Araújo Leite, Primeiro de Agosto, Agenor Meira, retornando ao Calçadão e à catedral.

Também no início da noite foi realizada a tradicional procissão luminosa pelo Santuário Diocesano do Sagrado Coração de Jesus. Os fiéis foram conduzidos pela imagem de Nossa Senhora Rainha da Paz, que tem mais de um metro e meio de altura.


Sábado e domingo


Neste Sábado de Aleluia haverá a Vigília Pascal, que representa a espera pela ressurreição de Jesus Cristo. Nesta cerimônia é acesa uma vela e também é feita a bênção do Fogo Novo, representando a luz que Cristo ressuscitado traz para cada um e para a humanidade.

Já no domingo é celebrada a Páscoa, quando, segundo os católicos, Cristo volta à vida trazendo a esperança, a renovação e a alegria para todos. (VL)


Serviço


A Catedral do Divino Espírito Santo fica na praça Rui Barbosa, 3-30, Centro, telefone (14) 3222-3166. A Vigília Pascal está marcada para às 20h de hoje. No domingo de Páscoa haverá missas às 7h30, 10h e 19h na catedral.

 

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