Quioshi Goto |
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Assalto a caixas eletrônicos do Banco do Brasil em Mineiros do Tietê, neste ano |
A marginalidade “trabalha” numa velocidade de fazer inveja. Procura “nichos” bastante rentáveis que dispensem muitos riscos, especialmente aqueles que possam custar a vida. Nessa “pesquisa” surgem os ataques a caixas eletrônicos que, normalmente, geram “receitas” positivas na contabilidade criminal, com poucas chances de confronto. Tanto é verdade que foram registrados 91 casos no Estado de São Paulo de 1º de janeiro a 22 de março.
O interessante é que, deste total, 80% teriam acontecido no Interior paulista, 18 deles na mesorregião metropolitana, três no Litoral Norte e seis na região de Bauru. O componente responsável pela disseminação na região foi um marginal que já morou por aqui, mas que nos últimos anos cumpria pena em uma penitenciária estadual, onde possivelmente tenha feito contato com os “especialista” nesse tipo de ação. As cidades escolhidas até agora foram: Mineiros do Tietê, Duartina, Bocaina, Anhembi, Paranapanema e Bofete.
Em cada uma desses municípios foi registrado um ataque a caixa eletrônico. Embora o número não seja assustador, indica que a marginalidade “investe” nas cidades menores que, teoricamente, tenham efetivos reduzidos e policiais menos preparados para atender esse tipo de ocorrência.
A migração do crime da metrópole para o Interior conta ainda com outro ‘ingrediente’: a facilidade de fuga, uma vez que o acesso às principais rodovias estaduais não é mais privilégio de poucos municípios. Os itens citados aumentam a probabilidade de sucesso na ação, por isso, o Interior é a bola da vez.
Acertos e erros
Nem sempre a ação marginal nas cidades menores, como em Duartina, com cerca de 12 mil habitantes é garantia de sucesso. Os bandidos não contavam com a preparação da PM. “Um tenente daquela área havia traçado um procedimento padrão para esse tipo de ocorrência. A resposta da polícia foi muito rápida e resultou em prisões.”
No “trabalho” de subtrair dinheiro dos caixas eletrônicos, os marginais precisam ter algum conhecimento técnico - quer seja para furtar com habilidade, quer seja para estourar o caixa com dinamite. Em Duartina, por exemplo, a falta de habilidade dos ladrões ficou nítida, digna de programa humorístico, revelaram as imagens gravadas pela câmera do banco.
Uma das bombas foi colocada em um caixa que só servia para emitir talões de cheques e fazer consultas. A segunda e a terceira bombas, que deveriam detonar ao mesmo tempo, acabaram explodindo em momentos diferentes. Os marginais “trapalhões” conseguiram explodir somente uma delas e quando iam pegar o dinheiro a outra detonou, fazendo com que eles perdessem tempo e ficassem muito assustados.
Na maioria das ações, as quadrilhas utilizam um morador para fornecer informações básicas que sustentam a fase de planejamento, observa o comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar, coronel Nelson Garcia Filho.
“Os marginais planejam a ação, a rota de fuga e o local que será usado como esconderijo baseado em informações desse morador que conhece a região. Eles não vão praticar um ataque sem saber como vão fugir e onde vão ficar”.
Interior: facilidade de fuga é atrativo
Corrupção somada às drogas e ao sentimento de impunidade são ingredientes de uma “receita” que está sendo usada pela marginalidade no levantamento de fundos. A contabilidade favorável ao crime está na descoberta de um “nicho” que até então não era explorado: a subtração de valores através dos ataques a caixas eletrônicos de agências bancárias.
Depois de focarem as metrópoles, os marginais escolheram as cidades menores, do Interior, aquelas onde eles contam com informações de moradores, com efetivo reduzido de policiais, equipes pouco acostumados a lidar com este tipo de ocorrência e, claro, acesso fácil a rodovias.
“Os marginais imaginam que, no Interior, a ação da polícia seja mais lenta. Que o tempo resposta seja maior porque eles contam com um efetivo muito menor. A verdade é que na Capital são dezenas de batalhões. Eles constatam que não é bem assim aqui na nossa região. Estávamos estudando a situação bem antes dela se tornar realidade porque havia uma possibilidade e a Polícia Militar se preparou’, rebate o coronel Nelson Garcia Filho.
A preparação da PM para esse tipo de ocorrência não era só porque um dia ela poderia chegar na região, mas também porque a polícia sabia que, na região de Garça, existia um “núcleo” desse tipo de ação marginal.
“Tínhamos conhecimento de que há dois núcleos de bandidos “especializados” em ataques a caixa eletrônico no Estado de São Paulo. Um deles em Campinas e outro por aqui, próximo a Garça.’
O núcleo de Campinas seria o responsável pelas ações desse tipo na região metropolitana, Jundiaí, Ribeirão Preto. “Os estudos apontaram a possibilidade deles virem para a nossa região em função de ter um de seus integrantes ‘atracado’ próximo a Garça. O avanço desse tipo de ocorrência no Interior acontece de forma mais lenta.”
Para o coronel a participação de morador da região é fato. “O crime é dividido em três momentos: planejamento, execução e fuga. No planejamento eles precisam fazer um levantamento da área, informações de um morador pode ajudar muito. É ele quem dá dicas de possíveis rotas de fuga etc.”
Imediata
Outras fontes de informações possíveis são o envolvimento de milicianos da própria corporação e outras instituições. “Em um dos casos havia o envolvimento de PM. A corporação deu resposta imediata, fez a prisão dele. Mas não podemos descartar o envolvimento de agentes bancários ou pessoas ligadas à segurança do banco. O numerário deixado no caixa aumenta a possibilidade para este tipo de crime.”
As próprias agências bancárias não se preocupam muito com a segurança dos caixas, ressalta o coronel. “Alguns deles fecham automaticamente a porta a partir das 22 horas. Outros, não.”
Procedimento padrão
A Polícia Militar desenvolveu um procedimento padrão a ser adotado em casos de furtos em caixa eletrônico. Segundo o comandante do 4º BPMI, coronel Nelson Garcia Filho, na área do CPI-4, que envolve 89 cidades, a região foi a única a desenvolver um procedimento padrão para esse tipo de ocorrência.
“Um tenente da região de Duartina desenvolveu o procedimento e transmitiu para os oficiais de Bauru. Por incrível que pareça, aconteceu na cidade dele e funcionou. O tempo resposta da polícia foi muito bom. No nosso planejamento entram, inclusive, rondas programadas nas áreas mais vulneráveis.”
As possibilidades desse gênero de crime ocorrer naquela região eram maiores porque descobrimos que havia um núcleo desse tipo de marginal em Garça. “No procedimento padrão há várias ações policiais, que obviamente não posso comentar.”
O comandante volta a reiterar que há agências bancárias que negligenciam a segurança. Cabe à população também fazer sua parte e agir preventivamente para não ser surpreendida por bandidos na hora de tirar dinheiro.
Formando empreendedores do crime
Uma quadrilha especializada em furto a caixa eletrônico tinha uma escola em Joinville (SC). A descoberta veio depois da que a Polícia Civil de lá desbaratou a quadrilha, há alguns anos, comenta o coronel Nelson Garcia Filho.
Segundo ele o “curso” ensinava técnicas de como abrir a porta do banco, como esconder-se das câmaras de monitoramento e como pegar o dinheiro sem usar explosivos, só a serra. “Os ladrões usavam uma manta no corpo para não serem identificados pela câmera. A polícia descobriu e prendeu os marginais, só que muitos alunos já tinham concluído o curso. Haviam muitos alunos do norte do Paraná.”
Para a polícia, esses alunos e os professores da escola do crime agem com mais profissionalismo. “Normalmente, eles não explodem caixa eletrônico. Tiram o dinheiro sem muitos danos materiais, conhecem as técnicas. Para nós, eles são considerados profissionais nesse item. Já esses que estão explodindo caixas eletrônicos com dinamite são amadores.”
Os “amadores”, segundo Garcia, estão com explosivo, graças a um roubo de carga ocorrido no ano passado. “A quadrilha que praticou o roubo tem que escoar a mercadoria, rapidamente. Alguns marginais adquiram e passam a usá-los.”
Os marginais considerados amadores pela PM estão explodindo caixas eletrônicos para subtrair dinheiro mais facilmente em comparação com um roubo, onde pode haver troca de tiros. “Muitos precisam saldar dívidas de droga. Em alguns casos, eles são da facção criminosa.”
Polícia prende e ladrões continuam na rua
As mudanças no Código de Processo Penal ano passado geram um sentimento de impunidade na sociedade. “No Brasil, a Polícia Militar prende o tempo todo e os ladrões continuam na rua. A legislação sofreu alterações. O furto, por exemplo, é afiançável. Então o policial leva o ladrão para a delegacia e, dependendo do caso, paga a fiança e sai, quase junto com o PM”, desabafa o coronel Nelson Garcia Filho.
Segundo ele, o sentimento de impunidade “incentiva” novos crimes. “O criminoso está na faixa etária compreendida entre 13 e 28 anos. Os adolescentes que não têm limites na família, também não têm na escola. Se antes eles temiam uma reprimenda mais rígida, hoje não sofrem mais com isso. Porque se ele matar, sabe que ficará apreendido por três anos e sairá como se nada tivesse acontecido.’
Na opinião dele, o crime está conseguindo caminhar bem nesse cenário. “Estamos criando uma sociedade muito perigosa. A sociedade do crime. A polícia faz aquilo que pode, mas a demanda está ficando cada vez mais pesada. A criminalidade percebeu isso e hoje calcula os “prejuízos” caso seja surpreendidos durante uma ação.”
Sem bons exemplos?
Nesse contexto ainda são acrescidos dois itens, a corrupção e as drogas. “São duas pragas na sociedade. O jovem não tem bons exemplos para seguir porque quem deveria fazê-lo é corrupto. Já as drogas escravizam e crescem em progressão geométrica. No mundo do vício, ele não se sustenta e começa a praticar crimes em busca de valores que o permitam adquirir drogas. Inicialmente, como a dívida é pequena, o marginal pratica crimes de menor potencial. Mas, com o passar do tempo, a dívida cresce e ele passa a fazer parte de ações maiores. Uma delas são os ataques a caixa eletrônico para dinheiro rápido e menor possibilidade de confronto com a polícia.”
Roubos de explosivos aumentaram
Nos últimos três meses de 2011 ocorreram 20 roubos de explosivos no Estado de São Paulo, segundo dados da Polícia Civil. Este ano, já foram registrados 22. Só no mês de fevereiro foram 10 casos. O aumento preocupa a polícia que acredita que esse material está e vai ser usado nos ataques a caixas eletrônicos. Para enfrentar este tipo de ação, segundo da Febraban, as instituições financeiras investem cerca de R$ 10 bilhões/ano em segurança no Brasil.
‘Morador tem papel fundamental’
Os arrombamentos de caixa eletrônico na região do Deinter-4 contaram com a participação de um morador, da cidade ou da região. Para o diretor do Deinter-4, da Polícia Civil, delegado Benedito Antonio Valencise, os crimes têm estreita relação com o tráfico e consumo de drogas.
Na opinião dele, não está ocorrendo uma migração da criminalidade das capitais para o Interior. “O que existe,
às vezes, é que pessoas da região cumprem pena junto com marginais da Capital. Fazem amizade e, quando se livram da prisão, começam a agir juntos.”
No ataque ao caixa eletrônico de Duartina, por exemplo, um dos participantes que foi preso era de Lucianópolis. “Eles se conhecem em presídios e combinam crimes. Para a marginalidade é importante ter uma pessoa que conheça a região onde vai agir.”
Valencise afirma que esse tipo de crime está ligado a dívida de drogas e ao crime organizado. “Comprovadamente. Na nossa região tivemos poucos casos porque a polícia deu resposta rápida, 90% das pessoas envolvidas foram presas. Os bandidos se informam antes de agir. Trocam informações sobre ação policial. Procuram saber se a ação da polícia foi rigorosa ou não. Se está prendendo os marginais...”
No combate à criminalidade, frisa o delegado, a Polícia Civil está fazendo operações focadas objetivando um trabalho de profundidade de todo crime considerado de maior gravidade. “Assim, já fizemos em Ourinhos, Lençóis Paulista, Lins.”
Antes de desencadear as operações, segundo Valencise, o serviço de inteligência faz os levantamentos.
“Na Polícia Civil ninguém adivinha nada. Usamos tecnologia e os meios eletrônicos para identificar as quadrilhas. Trabalhamos com planejamento e estratégias. Grande parte das quadrilhas que arromba caixas eletrônicos é de Campinas, São Paulo e do Estado do Paraná.”
Ele ressalta que em Duartina, os marginais foram presos em flagrante. No caso de Bocaina e Mineiros do Tietê, região da seccional de Jaú, as investigações estão em andamento.
“Nós vamos esclarecer, nesse momento não podemos comentar para não atrapalhar as investigações. Em Marília e Ourinhos também os envolvidos foram presos. Estamos dando respostas. São quadrilhas de fora da nossa região que recrutam um morador.”
Para o delegado, os marginais que estão agindo no Interior não têm muitos conhecimentos sobre explosivos. “Em muitos casos eles não conseguiram detonar o explosivo, o que demonstra falta de conhecimento. São pessoas que furtam o explosivo e acabam usando. Alguns deles podem ter conhecimento de explosivos, mas não são todos.”
Sobre os explosivos, Valencise enfatiza que há um trabalho rigoroso na fiscalização.
“Quem tem explosivo para detonar uma pedreira, por exemplo, precisa guardar com cautela e evitar um furto. Caso isso ocorra, a pessoa é obrigada a comunicar a polícia.” Os caixas eletrônicos são alvos mais fáceis, admite o delegado. “O bandido aproveita a ausência de vigilância e fiscalização do banco e não coloca sua vida em risco, como em um assalto.”
Ele lembra que mesmo sendo furto, os envolvidos vão presos. “Os furtos qualificados têm pena de dois a oito anos. Mas, nesses casos, eles são enquadrados por formação de bando ou quadrilha e pela utilização de explosivos ou porte de explosivos.”
Na opinião dele, os policiais de cidades menores, como Bocaina, por exemplo, não estão preparados para enfrentar esse tipo de crime. “Claro que esse pessoal não está preparado, mas nessas situações a DIG daquela seccional é acionada para efetuar um trabalho conjunto.”