Por que o desemprego, na Europa, ultrapassou 15%? O que levou a Europa à crise?
Inúmeros artigos (alguns com pretensões factuais) esboçaram respostas pretensamente originais, mas acabam escolhendo uma de duas linhas analíticas simplistas (e errôneas...): temos a explicação que parece sair do Partido Republicano dos EUA e a explicação ao estilo alemão. A versão republicana - que realmente se apresenta como um dos temas centrais da campanha de Mitt Romney - diz que a Europa está em má situação porque fez demais para ajudar aos pobres e desafortunados. E que estaríamos testemunhando os últimos estertores do Estado de bem estar social. Esta versão sempre foi utilizada pelos políticos de direita: em 1991, quando a Suécia enfrentou uma crise bancária, a direita política em todo o planeta, concluiu de maneira triunfante que o episódio comprovava o fracasso do modelo do Estado de bem estar. A Suécia, país que ainda conta com um generosíssimo Estado de bem estar, é atualmente um mercado altamente próspero, apresentando um crescimento econômico mais acelerado que o de qualquer outro país rico.
E se analisamos 15 países europeus que atualmente usam o euro, e os organizar de acordo com a proporção do seu PIB que era investida em programas sociais antes da crise, a quais conclusões chegaremos? Os países problemáticos (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália) se destacam por contarem com Estados de bem estar desproporcionalmente grandes? Não, este não é o caso deles; só a Itália figura entre as cinco posições mais altas deste ranking e, ainda assim, seu Estado de bem estar é bem menor do que o alemão. Conclusão óbvia: o problema não foi provocado por Estados de bem estar excessivamente grandes.
A versão alemã é a de que tudo não passa de uma questão de irresponsabilidade fiscal. Esta história parece se encaixar no caso grego, e só. A Itália apresentou déficits nos anos anteriores à crise, mas estes foram apenas um pouco maiores do que os apresentados pela Alemanha. Os déficits de Portugal eram significativamente menores, enquanto Espanha e Irlanda chegavam a registrar superávits orçamentários.
Ah, e os países que não usam o euro parecem poder arcar com grandes déficits e grandes dívidas sem passar por crises. Grã-Bretanha e Estados Unidos conseguem empréstimos de longo prazo a juros de aproximadamente 2%; o Japão, muito mais endividado do que qualquer país europeu, incluindo a Grécia, paga juros de apenas 1%.
Então, por que a Europa está em crise? Ao criar a moeda única, sem produzir instituições necessárias para garantir o funcionamento desta moeda, a Europa reinventou, na prática, os defeitos do padrão ouro - defeitos que desempenharam um papel importante ao precipitar e perpetuar a Grande Depressão dos anos 1930. A criação do euro gerou uma falsa sensação de segurança entre os investidores privados, que destinaram imensos e insustentáveis fluxos de capital aos países de toda a periferia europeia.
Como consequência da entrada destes fluxos, os custos e os preços aumentaram, a manufatura perdeu a competitividade, e países que apresentavam uma balança comercial relativamente equilibrada em 1999 começaram, em vez disso, a acumular imensos déficits comerciais. E o sistema entrou em pane. Se os países periféricos ainda tivessem suas próprias moedas, poderiam usar a desvalorização para restaurar rapidamente a competitividade. Mas eles não podem mais contar com esta alternativa.
Os países europeus em crise só têm opções ruins diante de si: terão de sofrer as dores da deflação ou tomar a drástica decisão de deixar o euro, algo que não será politicamente viável a não ser que (ou até que) tudo o mais fracasse - um ponto do qual a Grécia está se aproximado. A Alemanha poderia ajudar se aceitasse uma inflação mais alta para o Euro, mas o país se recusa a fazê-lo. A situação é muito ruim. Mas não se preocupe, caro leitor: vai piorar!
O autor, Ney Vilela, coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela