Regional

Independência é palavra de ordem

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Estar vivo com mais de 6

anos é um privilégio. Se ao alcançar essa idade a pessoa estiver saudável, tiver independência financeira e viver em cidade de pequeno porte, melhor ainda. Isso porque em municípios menores, o atendimento a saúde é de fácil acesso e como todo mundo se conhece, a chegada de estranhos ou uma movimentação fora do normal, chama a atenção de vizinhos, fazendo com que a segurança dos idosos seja redobrada.

 

Marinha de Jesus Fernandes, mais conhecida por Marina, tem 8

anos e se não fosse uma perda de audição e de visão que chegou inesperadamente nos últimos anos, ela poderia dizer que é muito saudável. Vive em Piratininga, cidade com aproximadamente 12 mil habitantes nas imediações de Bauru. “Tenho uma filha que mora em São Paulo. Ela queria que eu fosse morar com ela, mas lá ficar doente é problema. O atendimento médico é demorado, depende do posto de saúde.” 

 

Para ela, que tem seis filhos, morar em Piratininga é sinônimo de qualidade de vida. “Cumpro uma rotina movimentada e se não fosse a perda da visão, ainda faria muito crochê e salgados para ajudar nas despesas da casa. Já fiz muita rede, almofadas e outras peças em crochê. Mas não enxergo mais o suficiente. Participo de grupos de ginástica. Faço alongamento.” 

 

Com a memória em dia, dona Marina se vangloria de não tomar remédios e tomar as decisões sozinha. “A maioria das pessoas na minha idade toma muitos remédios. Eu não tomo comprimidos, mas estou com dificuldade para ouvir e ver, isso tem limitado a minha vida. Eu não abro mão de meu poder sobre minha vida. Sou eu quem decido o que eu quero e não quero fazer.” 

 

Mesmo com a limitação que ela encara como própria da idade, a idosa diz que não perde os jogos dos idosos. Este ano, ela vai acompanhar as competições. “Sou bastante ativa. Fiquei viúva há muitos anos, eu tinha 28 quando meu marido morreu. Recebi proposta de casamento, mas eu tinha cinco meninas na época e não quis arriscar. Acho que fiz bem. Vivo muito bem.” 

 

A maior dificuldade da idosa é quando o assunto é bancário. “Com problemas visuais, passei a ter dificuldades. Nessas ocasiões, minha filha me acompanha”. Ela teme ser enganada e por isso se previne. 

 

 

 

Agenda sempre cheia aos 74 anos

 

Ana Fernandes tem 74 anos, quatro filhos e muita energia. Vive em alto astral e desafia as estatísticas de que o idoso não tem o que fazer. Para encontrá-la, a equipe do JC teve que ir vê-la na aula de artesanato do Grupo Viver Melhor, local que ela faz questão de comparecer todas as manhãs de terça-feira. 

 

Os exercícios, quatro vezes por semana, estão agendados na rotina da idosa. “Não dispenso, porque tive problemas no coração e tenho diabetes. Tomo remédios e faço dieta, mas isso não me limita”, avisa. 

 

A paixão por viagens é prioridade na vida dessa mulher. “Não perco oportunidades. Vou com a minha turma ou com outra, me adapto facilmente aos jovens, o importante é viajar. Vou para a praia, para o norte e sul do País. Daqui há uns dias vou para os jogos regionais da 3ª idade. Tenho muito pique para viajar.” 

 

Ana Fernandes gosta de caminhar pela cidade onde mora, Piratininga. “Gosto de andar a pé. Me sinto livre e não preciso de ajuda na cidade que nasci. Conheço tudo por aqui”, explica. 

 

Na Internet, ela deixa muitos jovens no “chinelo”. “Tenho facebook. É o meio que eu uso para conversar com minhas amigas e parentes que vivem fora da cidade. Sei mandar e receber e-mails.” 

 

E avisa: “Eu faço só o que eu quero. Minhas amigas vão ao baile, eu não gosto,  não vou.  Faço dança para a coreografia, faço apresentações com uma turma. Às terças-feiras, venho ao artesanato. Sou livre, durmo e acordo na hora que eu quero. Pinto o cabelo e faço minhas unhas para manter a boa aparência.”

 

 

 

Paixão à primeira vista

 

Ele já tinha atingido a 4ª idade quando começou a “namorar” a atual companheira. Viúvo, Félix Castro, hoje com 87 anos, estava morando na Praia Grande  quando Lázara Nogueira Vicário, viúva,  hoje com 79 anos, foi passear por lá. Os dois se encontraram e começaram a “trocar ideias”. Ela passou um tempo na casa dele, mas não se adaptou. Atualmente, o casal vive em Pederneiras, onde estão os filhos da mulher. 

 

Para ele, foi amor à primeira vista. “Ela cuida demais de mim e eu ajudo nas despesas da casa. Vivemos bem, mas não gosto de ser idoso”, comenta o descendente de espanhol. 

 

Ele considera a velhice “a pior coisa”. “Tudo é ruim. Dói tudo, tomo seis remédios diariamente. Gostava de ler, mas fiz a cirurgia da catarata e não enxergo de um olho. Não gosto de festa e não participo de eventos. Fico em casa para não incomodar os outros.” 

 

Uma das poucas coisas que o deixa feliz é ver o mar. “De vez em quando, vou para minha terra natal, Praia Grande. Queria viver lá, mas a Lázara gosta daqui, então ficamos morando aqui. A única coisa que é boa da velhice é que não preciso fazer nada. Tenho tempo de sobra.” 

 

Ele considera que a cidade de Pederneiras tem muita subida, o que dificulta as caminhadas. “Ando por aqui. Algumas vezes vou ver o rio. Costumo ir às compras. No banco, eu fazia tudo sozinho. Agora preciso de ajuda dos funcionários da agência. Não enxergo mais.” 

 

Do passado, Castro lembra com saudade que jogava malha. “Fui campeão paulista pelo Clube de Malha Silva Jardim na Capital. Tinha muitos amigos por lá.” 

 

Já para Lázara, viver em Pederneiras é sinônimo de segurança. “Estou próxima de minha família. Sou uma pessoa feliz. Minha vida é boa. Faço todo o serviço da casa. Fui criada na roça e acho, até hoje, que lá era melhor.” 

 

Ela explica que participa pouco da comunidade da 3ª idade. “Eu gosto de ouvir música. Aliás, faz muito tempo que não vamos ao clube. Temos que voltar a frequentar.” 

 

 

 

Fazendo amigos na aula de artesanato

 

O Grupo Viver Melhor é formado por pessoas que já atingiram ou ultrapassaram a casa dos 6

anos. A reunião é uma terapia para todas as participantes que se relacionam e ao mesmo tempo constroem peças para decoração a própria casa ou para ajudar no orçamento familiar. 

 

Inês Narciso dos Santos tem 69 anos e participa do grupo. Para ela, o artesanato é um aprendizado. “Estou aprendendo. Aqui também se faz amigos. Faço crochê e vendo. Não tenho leitura e não gosto de assistir televisão. Passo horas agradáveis aqui.” 

 

A maior dificuldade dela são as transações bancárias. Ela explica que não é pela idade, mas por não saber ler. “Como moro em cidade pequena, os funcionários do banco já me conhecem e eu os conheço, por isso, os procuro, quando necessário.”

 

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