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Mais uma cpi da enganação

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

As Comissões Parlamentares de Inquérito são exercícios de inutilidades. Os membros das CPIs ficam entusiasmados com a exposição à mídia. Há os que se empolgam tanto com o assédio das câmeras de televisão que quando chegam em casa, abrem a geladeira e veem luz, já começam a dar entrevista. A CPI mista do denunciado senador Demóstenes Torres só poderá redundar numa pizza mezzo-a-mezzo-aliche-muzzarela, conforme procrastinou o nosso genial cartunista Fernando. Em 2005, já existiu uma CPI dos Bingos que deu em nada. Agora ameaça repetir-se com o mesmo protagonismo de Carlinhos Cachoeira, o rei do jogo ilegal no País. Naquele ano, o relatório final da comissão da CPI dizia que os trabalhos tiveram por foco a existência de um esquema de corrupção entre agentes públicos e empresários de jogos de azar. Também apontava a "suspeita" de financiamento de campanhas eleitorais com o dinheiro proveniente desse mercado de jogos. Qualquer semelhança com o noticiário político de 2012 e o caso Carlinhos Cachoeira não é mera coincidência. É muita sem-vergonhice. Até porque o bicheiro já era pivô das primeiras investigações, após ter gravado um vídeo no qual aparecia recebendo um pedido de propina do então assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz. O que aconteceu? Absolutamente nada. Como sempre, pegaram o "bagrinho", ex-cobrador de ônibus em Bauru. Waldomiro ia bem em Brasília. Trocara o uniforme cáqui da ECCB pelo terno e gravata e tinha gabinete no mesmo andar do Lula, no Palácio do Planalto. A CPI foi anulada, como outras tantas, graças a fórmula criada pelo ex-presidente Lula ao expandir a coalizão de partidos com cargos no governo. Mesmo a um alto custo para a nação, a fórmula se repete na gestão Dilma Rousseff. O senador Demóstenes Torres já ameaçou nos bastidores que não vai pagar sozinho. Pretende carregar mais uma meia-dúzia para o além-túmulo político.

A novela de hoje é, contudo, uma reprise apenas parcial. Desta vez, o PT largou na frente e assumiu as rédeas da CPI mista sobre o caso. A estratégia é tirar o julgamento do "mensalão" do foco. Há sete anos a comissão dos bingos ficou conhecida como a CPI do "Fim do Mundo" porque abriu todos os flancos possíveis para investigar desvios cometidos por gente ligada ao governo. Entraram no mesmo balaio as suspeitas de irregularidades durante a gestão Antonio Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto, a suposta remessa de dólares de Cuba para a campanha de Lula e até o assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel. Pelo andar da carruagem, a reedição do caso Cachoeira tem o mesmo potencial bombástico, com o detalhe de que mexe com os três principais partidos da oposição - DEM, PSDB e PPS.

São muitos interesses envolvidos. No segundo mandato de Lula, uma das raras CPIs que chegou a dar pinta de que daria certo era a que se propôs a investigar gastos com cartões corporativos do governo. O presidente e seus ministros têm cartões de crédito para gastos ilimitados e, as contas, são secretas. Ninguém fica sabendo no que foi gasto ? sabe-se apenas que chegam a coisa de R$ 60 milhões anuais. Inclusive permite saques em dinheiro na boca do caixa. A comissão travou a partir do momento em que os aliados do ex-presidente começaram a exigir que as investigações também se estendessem à gestão de Fernando Henrique Cardoso.

Com uma boa dose de fisiologismo na mão esquerda e outra de corporativismo na direita, PT e PMDB dispõem do que precisam para controlar o rumo da nova CPI. Vai haver de tudo, menos a elucidação do caso. A propósito, o relatório da comissão do "Fim do Mundo", apresentado em 2006, já apontava Cachoeira como autor de pelo menos quatro crimes ? formação de quadrilha, corrupção passiva, crime contra procedimento licitatório e improbidade administrativa. Ainda assim continuou tendo contato com a fina flor dos políticos do Planalto. Só acabou preso outro dia, seis anos depois, mas ainda vai ser solto. Enquanto isso "o Brasil permanece no eterno mutismo de peixe" ? como dizia Monteiro Lobato no início do século passado.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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