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Biblioteca Municipal e sementes verdes na colheita

Lauro Martins Neto
| Tempo de leitura: 2 min

Certa vez, Monteiro Lobato, autor do Sítio do Pica-Pau Amarelo e do Jeca Tatu, lançou uma beleza daquelas para se botar orgulhoso num para-choque de caminhão, ou mesmo tatuar no braço malhado, que o divertido membro do Big Brother 666 exibe radiante: "Um país é feito de homens e de livros". Um verdadeiro primor, se levado à cabo. Como amante de literatura e o que a cerca, costumo frequentar o sedutor espaço das bibliotecas, como a Biblioteca Municipal, da qual gosto muito. Entretanto, algo me chamou muito a atenção nas últimas visitas.

Passava pelos corredores e pude notar algo incomum naqueles exemplares. Eles tinham bolas verdes, como frutas não prontas para servir, na lateral. Apanhei alguns. Arte moderna, Cinema e Mitologia grega me acompanharam pelo caminho. No balcão, fui prontamente impedido de retirar os livros que me interessaram. "Estes não", ouvi, "eles não podem ser retirados". Surpreso, questionei a razão para a detenção de tais livros. Aparentemente, pareciam comportados, não haviam cometido mal algum. A resposta para o impedimento foi das mais detestáveis. Infelizmente, muitos usuários arrancam páginas dos livros com imagens, ou mesmo furtam esses livros, prejudicando o acervo e a população. Miséria. Fomos criados seguindo um modelo paternalista muito frágil, para se lidar com as situações que nos aparecem. Não parece mais justo que se fosse aplicada uma punição àqueles que praticam tais ações, ao invés de cercear o direito dos demais usuários (que não têm esse mau hábito de furtar e arrancar) de buscar o conhecimento e aprendizagem nos livros da Biblioteca Municipal? É mais sensato separar os livros dos leitores na prisão das prateleiras, que ter o trabalho de penalizar os responsáveis por eventuais danos. Me assusto ao pensar em uma atitude tomada pelo Estado, tal como esta. A História, presente em alguns dos livros detidos pela Biblioteca Municipal, nos mostra que nas vezes em que os governos interferem diretamente na escolha do que pode e do que não pode ser, há situações de estranheza duvidosa. Parece exagero, mas a autoridade começa a se manifestar nas escolhas. Dizem o que pode ser lido, depois o que pode ser feito, depois o que pode ser visto, depois onde pode ser visitado; daí o que não pode mais, surge como obrigação de todos. Alexandria, Nero, Idade Média, III Reich, 1964. Esperemos que o amadurecimento das cabeças de nossa sociedade, não esteja atrelado ao verde colado nos livros, que agonizam lentamente nas estantes mudas das bibliotecas postas por aí. Causa e efeito. Afinal, se "um país é feito de homens e de livros", quem planta incultura, colhe Estado imaturo.


O autor, Lauro Martins Neto, é formado em Letras e estudante de Jornalismo da Unesp

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