Tribuna do Leitor

Que diria Jesus?


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Depois de passadas as exaustivas manifestações religiosas da Semana Santa e observar o comportamento dos fiéis e a liturgia eclesiástica, veio-me à memória a pergunta que com frequência faço a mim mesmo. O que Jesus de Nazaré diria se observasse tudo isso? Ou se soubesse dos acontecimentos ocorridos na história que foram ocasionados em seu nome? O Cristianismo deu, sem dúvida, à espécie humana o senso do valor do indivíduo, escravo ou livre, homem ou mulher, gentio ou judeu. Sem ele não teria havido São Francisco beijando um mendigo, Madre Tereza que viveu entre os mais pobres de Calcutá. Em nome de Cristo, atos de amor e bondade foram praticados através dos séculos. Se Jesus visse as atividades do Exército da Salvação nos cortiços urbanos, ou trabalho de padre Damião entre os leprosos, ficaria grato. Porém, se tivesse comparecido aos grandes concílios da cristandade - Nicéia, Calcedônia, Trento e o I e II Concílio do Vaticano - sua gratidão poderia se transformar em desolação. "Por que me chamais Senhor, Senhor e não fazeis o que eu mando? (Lucas 6-46). Se queres porém entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus 19-17)". Se um personagem histórico real tivesse mesmo dito estas palavras que lhe foram atribuídas, não haveria maior insulto à sua memória do que mencionar credos inventados em um mundo helenizado que estava, figurativamente falando, a anos-luz de Jesus e de nós. Nem poderíamos insultá-lo alegando que ele fundara uma Igreja que durante séculos dedicou-se a perseguir aqueles que ousavam questionar-lhe as crenças. Guerras, cruzadas, inquisições foram perpetrados em nome de Jesus. Ainda, a perseguição implacável à ciência, cientistas e pesquisadores, aumentando o período de trevas que se estendeu sobre a humanidade por mais de mil anos.

Quando os evangelhos foram escritos, os cristãos não se distinguiam aos olhos dos romanos e dos judeus, ao passo que os adoradores de Jesus tudo fizeram para se distinguir dos seus irmãos de crença. Pior, nos evangelhos de Mateus e de João, os judeus tornam-se responsáveis pela morte de Jesus, e quando a Igreja triunfou sobre a sinagoga e o legado mortal do anti-semitismo permaneceu incorporado à visão cristã do mundo. Com isso, milhões de inocentes, patrícios de Jesus, sucumbiram. Violência praticada em nome do "Príncipe da Paz". Se Jesus visse o destino do seu próprio povo nas mãos dos cristãos durante a história da Europa católica culminando com a "Solução Final" de Hitler, teria visto com grande amargura as atividades do apóstolo Paulo. Sabemos pelos Evangelhos que antes de morrer Jesus chorou pela cidade de Jerusalém, prevendo-lhe o trágico destino. Mateus nos conta que, com suas esperanças em ruínas, Jesus morreu tendo nos lábios as palavras: "Meu Deus, meu Deus, porque me desamparastes." (Mateus 27-46). Talvez, se tivesse previsto também toda historia cristã, teria exclamado: "Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela? Por que houve regaço que me acolhesse? E por que os peitos para que eu mamasse? Porque já agora repousaria tranquilo; dormiria e então haveria para mim descanso". (Jó 3. 11-13)


Antonio Grecco

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