Certos conceitos já estão definidos e não adianta ir contra através do fio elétrico da persuasão contumaz, que dá choque ao tocar em polos opostos representados pelo patrulhamento político partidário, mais nefando que o ideológico. A corrupção é corolário do capitalismo e criticar as privatizações de FHC ou o mensalão de Lula é fisiológico e pontual, quando se olvida o momento histórico que vivemos. A hora é de que nos mostramos bem organizados ? menos do que precisamos, mas suficiente pra atual conjuntura ? para merecer o reconhecimento dos EUA, que abre esta enorme catacumba que estava parafusada pela força imperial que eles foram obrigados a exercer, pela então bipolaridade, guerra-fria e corrida nuclear.
Os maus-tratos a que o Terceiro Mundo foi submetido, tendo como articuladores nenhum presidente americano do mal, mas as cabeças de Harvard e CIA, tiveram de ser revistos à fórceps, apesar de esta revisão já ter sido prevista por oráculos ditos da esquerda americana, que na verdade nunca existiu. O que ninguém esperava é que o financiamento da manutenção da guerra entre tribos africanas através da exportação do apartheid, bem como a alimentação de ditaduras dos sheiks do petróleo tão interessante para os geradores de riqueza americanos, produziria esta ressaca fundamentalista do islã, que mais azeitona colocou em nossa empada, dado que é resultante da força de uma população irada. Contradição entre terrorismo e revolução.
Com nosso sistema bancário competente, democracia restaurada e com a devida atenção atual pela debilidade de nosso parque industrial tendo como maquinista uma acadêmica empedernida, o fortalecimento do Brasil hodierno é muito mais consistente daquele que foi vivido na era JK. O desvio de função do dinheiro pra construir Brasília, o início do consumismo desenfreado patrocinado pela América com a construção de São Bernardo e cia Ltda nos anos 50, que inclusive gerou o lulismo e o PT, contrastava com a efervescência cultural que eles ensejaram. Talvez aí esteja nossa nostalgia, de quem já estava em idade de começar a pensar o Brasil em estágio de libertação da pata de elefante imposta por Mr. Sam. Cinema Novo, bossa nova, TBC, Chico Buarque nos animaram ad infinitum. Nosso rádio hoje está bem mais fraco e carente, sem contar com um teatro chapa-branca e um cinema idem, a reboque da TV. Depois, a baboseira chamada Jânio Quadros que desembocou nos anos de chumbo. Luta armada, equívocos e acertos nos levam a este debate em alto nível que ora percebemos nesta geração que invade a casa dos 50 e 60 anos de idade.
É só aguardar que mais catacumbas, outrora imóveis e encalacradas, irão se mover e alterar nossa situação. Oxalá tais sarcófagos a serem remexidos estejam relacionados com a educação no Brasil. A notícia que a imprensa está causando, através da divulgação de escândalos e mais escândalos, revela um imbróglio de difícil solução. Se 2/3 dos americanos não acreditam no relatório final que culpou um idiota pela morte de Kennedy, como saberemos, sem as preciosas informações de quem vive e sobrevive da matéria política, qual a verdade sobre as milhares de notícias que pululam? Essa múmia continuará embrulhada e bem apertada pelas faixas de gaze (e não de Gaza) intrínsecas ao binômio jornalismo-fonte, essência de quem procura o furo de reportagem a qualquer custo. Como diria Moraes Moreira, em mais um de seus trava-línguas: "Você parece que bebe, ou nem parece que sabe: que o Papa, que o papo e a Opep, apenas o papo nos cabe".
O autor, Marcondes Serotini Filho, é colaborador de Opinião