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MMA exige instrutor com formação

Nina Martinez
| Tempo de leitura: 5 min

A febre do MMA saiu da televisão e invadiu as academias. Antes chamada “vale-tudo” e restrita a atletas, a modalidade de Anderson Silva - que virou até reality show na TV aberta - está cada vez mais ao alcance de qualquer um. Mas os alunos devem ficar atentos: a mistura de técnicas das mais variadas artes marciais (daí o nome MMA, do inglês Mixed Martial Arts) faz crescer o risco de lesões, já que os socos e chutes surgem de todos os lados, em pé ou no solo.


Um dos problemas dos treinos nas academias é a falta de regulamentação sobre as artes marciais, que no Brasil são consideradas atividades artístico-culturais, e não esportivas. Na maior parte desses locais, os instrutores não são formados em educação física.


Daí a importância de escolher bem o professor, ou entrar para um time cuja academia conte com orientação profissional em educação física atrelada à prática do MMA. “A prática das lutas sem fiscalização mostra uma ausência de controle e indica um convite aos riscos”, afirma Angelo Vargas, educador físico, advogado e consultor do Conselho Federal de Educação Física (Confef). “Dessa forma, é difícil resguardar a integridade física dos praticantes, principalmente quando as artes marciais são feitas todas juntas, como no MMA.”



Exercício completo


Por outro lado, se bem realizado, o exercício é apontado por professores e preparadores físicos como um dos mais benéficos e completos para tonificar a musculatura, ganhar condicionamento físico e perder peso.


“Ainda não podemos falar que o MMA é uma prática esportiva segura para as pessoas comuns porque é um fenômeno recente”, ressalva Jomar Souza, especialista em Medicina do Exercício e do Esporte e presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. “Mas posso dizer que ele já é visto com ressalva por ser muito intenso e misturar vários golpes agressivos, direcionados ao praticante sem qualquer cuidado.”


Para reduzir riscos, diz o especialista, o ideal é adaptar o treino dos exercícios e limitar a quantidade de golpes na luta, principalmente para evitar a região da cabeça.


É preciso também cuidado na hora da queda e da luta no chão. «Como há risco grave de ruptura dos órgãos internos e fraturas externas, a aula deve ser coordenada por um professor de educação física, que conhece a fisiologia do corpo e pode impedir os atritos», alerta Souza.


A presença de um educador físico ainda traz outra vantagem: «a mediação de alguém com métodos didáticos pode inibir que o espírito de competitividade dos alunos ultrapasse os limites físicos», acrescenta Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista do Esporte Clube Pinheiros e professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).   

 

Lutador é gladiador da modernidade


O que leva alguém a escolher esse esporte? O educador físico Angelo Vargas, consultor do Conselho Federal de Educação Física (Confef) e praticante de artes marciais há 43 anos, orienta uma pesquisa que está sendo feita para tentar acabar com a dúvida.


Para ele, hoje há uma necessidade de catarse social que remonta à Roma Antiga. “Os lutadores são verdadeiros gladiadores da modernidade e o público que assiste e pratica quer fazer parte desse cenário, vibrar e brigar junto”, afirma Vargas.


O professor Emerson Franchini, da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP) e criador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Lutas, Artes Marciais e Modalidades de Combate, da mesma instituição, discorda. Para ele, as pessoas que buscam o MMA o fazem pelo aprendizado das técnicas e não pelo sentido de competição.


Ele diz que, para o público em geral, a luta precisa de grandes adaptações. “Aí vale questionar se as pessoas ainda estão praticando MMA.”

 

Sem controle


Em 12 academias que dão aulas de MMA procuradas pela reportagem em São Paulo, entre elas grandes redes e/ou tradicionais no ensino de artes marciais, e constatou que em apenas duas delas os profissionais que lecionavam a modalidade eram professores de educação física. Todos os outros tinham uma larga carreira como instrutores em diversas artes marciais, alguns até campeões em competições nacionais e internacionais, porém sem formação superior na disciplina.


De acordo com Marcelo Calegari, professor de Educação Física e diretor da Federação Paulista de Lutas e Artes Marciais (Feplam), é comum que as pessoas pratiquem arte marcial por algum tempo e pouco depois se autointitulem instrutores. “São raros os casos de academias ou clubes que buscam informações sobre o profissional antes de contratar. Esses locais devem ter cautela antes de oferecer um exercício complexo como o MMA.”


Para o aluno, ele recomenda assistir mais de uma aula antes de se matricular, para verificar a conduta do professor. “Apesar de ser em grupo, a aula também é individual, afinal um está ali para perder peso, outro para ganhar condicionamento físico e assim vai”, diz. Segundo Calegari, é bom observar quais são as condições do ambiente de luta e se há equipamento de segurança de qualidade. “E, principalmente, ter certeza de que a academia é filiada a uma federação de lutas idônea.”


 Benefícios


Os profissionais que ensinam MMA nas academias dizem que o esporte vai muito além da troca de socos e chutes: pode render saúde e qualidade de vida.


“Os benefícios vão desde a tonificação da musculatura e a melhora na flexibilidade até o aumento da autoestima, já que trabalhamos os aspectos motor, cognitivo e socioafetivo ”, diz Marcelo Oliveira, instrutor da academia Runner, formado em Educação Física e especialista em jiu-jítsu e boxe, com experiência na preparação física de atletas da MMA.


“Além disso, é uma ótima opção para quem deseja emagrecer. Em média, uma aula de 1h30 ajuda a perder de 700 a 1,4 mil calorias”, afirma Oliveira.

 

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