Bairros

Solidariedade além da fé

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Religião é e sempre será um assunto muito delicado. Apoiada nela, a humanidade já viveu batalhas seculares, destruidoras e lamentáveis. Passamos pela Inquisição, pelas Cruzadas e, mesmo depois de tanto tempo, ainda vivemos os conflitos entre palestinos e israelenses e nos chocamos com os atentados terroristas efetuados em nome de Deus.


Interessante é constatar que, mesmo em meio a este cenário, as igrejas de diversas religiões que compõem os bairros de Bauru parecem inabaláveis em sua convivência harmônica.


É verdade que o diálogo não é o ponto forte desses templos que, mesmo estando instalados lado a lado, pouco conversam e quase nunca agem juntos. Contudo, o extremismo também não é uma realidade.


No Parque Jaraguá, por exemplo, os moradores têm o hábito de brincar ao dizer que para cada bar há uma igreja. Ali, católicos, evangélicos de diferentes denominações, espíritas, budistas e até mesmo ateus convivem lado a lado, respeitando as diferenças.


“Aqui tem opção para todo mundo. Ninguém fica sem rezar por falta de igreja”, brinca Débora da Silva Barbosa.


O centro é outro local onde essa convivência é intensa e harmoniosa. Supermovimentada durante o dia, a Praça Rui Barbosa é um belo exemplo de convivência ecumênica e inter-religiosa. Ali, pastores pregam o evangelho em frente à Catedral do Divino Espírito Santo, localizada a poucos metros da Igreja Presbiteriana. Além disso, dois estabelecimentos comerciais religiosos, a Livraria Católica da Praça e a Livraria Betel, também compõem a diversidade religiosa do cenário.


Mas a convivência pacifica entre religiões não se dá somente por meio da vizinhança entre igrejas. Ela acontece diariamente nos bairros por meio do relacionamento entre amigos, familiares e vizinhos com crenças diferentes. Neste caso, a diferença de doutrinas é deixada de lado e parece não existir.


“Não tenho problema nenhum com isso. Temos mais coisas em comum que diferenças. Em datas especiais, como casamentos, batizados e missas de sétimo dia, um frequenta a igreja do outro sem crise”, conta Leonilda Tomazi Batista, que frequenta a Igreja Imaculada Conceição, mas têm amigas e parentes de outras religiões.


De acordo com o padre Luiz Antônio Lopes Ricci, o respeito entre as religiões é supervalorizado pelas Igrejas Cristãs e tende a crescer muitos nos próximos anos.


“A Igreja sempre estimulou o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Contudo, muitos fiéis têm dificuldade para entender essa relação entre religiões diferentes. A ideia não é criar uma única religião, mas, sim pautar o relacionamento pelo o que há em comum entre as crenças”, explica.


Um exemplo é o caso de espíritas, evangélicos e católicos, que mesmo tendo crenças bastante diferentes, têm em comum a prática da caridade, do perdão, da paz, do amor e da misericórdia.


“Temos mais coisas em comum do que pontos divergentes. O segredo da convivência pacífica e da paz é desarmar-se e acolher as diferenças”, explica o padre Ricci.

 

Ecumenismo ou diálogo inter-religioso

Apesar de ambos os termos tratarem da convivência pacífica entre diversas religiões, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso têm significados diferentes.


O termo ecumenismo é utilizado para designar o diálogo entre igrejas cristãs, especialmente as mais tradicionais, como a Igreja Católica, a Igreja Luterana, a Igreja Presbiteriana, a Igreja Metodista, entre outras.


"Já o diálogo inter-religioso refere-se à relação entre religiões e grupos religiosos. Por exemplo, a relação entre cristãos, judeus, espíritas, muçulmanos, budistas, hinduístas, etc. Buscar essa convivência respeitosa é hoje uma regra de ouro, um imperativo moral", explica o padre Antônio Ricci.

 

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