O historiador inglês Eric Hobsbawn tem uma tese. Para ser mais exato, uma visão de mundo. O banditismo tornou-se uma prática comum entre os políticos sedimentado no mito de Robin Hood. Aqui no Brasil é comum ouvir dos políticos a justificativa da necessidade de ganhar mais para poder atender aos pedidos dos eleitores pobres, necessitados de alguém que pague a sua conta de luz atrasada ou a dentadura. Os gastos da campanha política são altos e os empreiteiros de obras públicas se encarregam de "patrociná-los". Superfaturamento, inadimplência contratual e licitações dirigidas são as moedas de troca. O ilícito deve ser aceito como um "vício" do sistema. Quem não adere fica de fora. Os planos de ensino dos cursos de história, ciências sociais e mesmo na área de comunicação social têm Hobsbawn como autor elementar, fundamental, sem o qual não é possível discutir a trajetória da humanidade. Ele fez uma análise social do que chama de "banditismo social" (Bandidos, Paz e Terra) que, historicamente se sedimenta na defesa dos fracos pelos fortes. Assim foi no tempo de Lampião, citado por ele, que "roubava dos ricos para dar aos pobres". Havia a ideia do "bandido nobre", como Jesse James que, segundo consta, "jamais roubou pregadores, viúvas, órfãos ou ex-confederados. Além disso, foi um batista devoto, que dava aulas de canto na igreja". Hoje ainda vemos bandidos sociais, que se distanciam dos ladrões comuns. São aqueles que invadem terras para acelerar a reforma agrária, que já deveria ter acontecido na libertação dos escravos. Acontece que a universalidade desse fenômeno social, essa disputa entre os fracos e os fortes acabou deteriorada pelo próprio capitalismo. A vida cotidiana foi inteiramente modificada, influenciando o modus operandi na esfera pública e privada. Para pior, evidentemente. No primeiro terço do século passado surgiu nos Estados Unidos J. Edgar Hoover, que começou a combater bandidos comuns, como dirigente de um escritório responsável pela investigação de crimes federais, logo conhecido por FBI. Interessante o filme sobre o seu legado, em exibição na "sessão coruja" do Alameda. J. Edgar começou prendendo os bandidos romantizados pela imprensa como John Dillinger, George "Machine Gun", Baby Face Nelson e outros ranqueados. Metódico e minucioso deve-se a ele o uso da ciência da investigação criminal, usada hoje por polícias de todo o mundo. Foi Hoower quem começou a comparar digitais colhidas na cena do crime com as dos suspeitos. Depois de limpar as metrópoles da bandidagem organizada começou a correr atrás dos políticos desonestos. Bastava para ele que alguém fosse "inimigo da pátria" - que outra denominação pode ter aquele que rouba o dinheiro do povo? A perseguição redundava em prisão perpétua. O poderoso chefe do FBI não tinha nenhum pudor em grampear telefones, introduzir microfones ocultos, microcâmeras e criar um amplo leque de chantagens e perseguições. Até o encontro do presidente John Kennedy com sua amante Marylin Monroe foi gravado. Quando o presidente foi assassinado ele destruiu as gravações. Depois da sua morte, a sua fiel secretária acabou com o arquivo que incluía ? o documento escapou do bota-fora ? o dossiê das relações amorosas de Eleanor Roosevelt com suas secretárias. O marido-presidente também pulava cerca, apesar das sequelas de uma paralisia infantil. No Brasil de hoje a Polícia Federal cumpre uma missão menos invasiva. Estamos diante da descoberta de uma gang, sob o comando de um tal Carlinhos Cachoeira que, pelo desanuviar dos fatos, mandava em metade da República. No tempo de J. Edgard, a Suprema Corte entendeu a missão do FBI e ajudou-o no seu trabalho de assepsia. Lá não havia essa de "prescrição". Quando Al Capone se tornou o inimigo público número um, sem provas para mandá-lo à prisão, a Corte mandou trancafiá-lo assim mesmo, descoberto um deslize qualquer no imposto de renda. Hoje, no Brasil, discute-se o julgamento dos 38 réus do mensalão. Todos eles poderão sair ilesos se a decisão final ficar para 2013. Os ministros não se entendem. O caso é considerado o maior da história no âmbito político. O julgamento é resultado de um processo com 60 mil páginas, 38 réus, 600 testemunhas e um batalhão de advogados contratados a peso de ouro para atuar na defesa dos acusados. J. Edgar teria resolvido isso em muito menos tempo e sem gastar tanto papel.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC