Polo regional de saúde, reconhecida várias vezes por excelência no Estado de São Paulo, Bauru está entre as 20 cidades com mais de 100 mil habitantes que possuem número de médicos dentro do preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O levantamento foi feito pelo JC com base em dados do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Os dados, porém, não refletem os níveis de atendimento, com os usuários reclamando exatamente da escassez de mão de obra e demora para marcar consulta.
O estudo preliminar divulgado recentemente pelo Cremesp não contemplava Bauru neste ranking. A equipe de reportagem do JC entrou em contato com a assessoria de imprensa da entidade para que fosse explicada a metodologia usada para realizar o estudo, mas não obteve êxito na resposta, já que o estudo é feito por um centro de dados fora do conselho.
Segundo a assessoria de comunicação, foram considerados apenas os médicos inativos que, em Bauru, somam, atualmente, 873, conforme consultado no site do Cremesp. Com este dado e o número de 335.888 habitantes do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a reportagem atualizou o quadro e a média de médicos para cada grupo de 1.000 habitantes em Bauru ficou em 2,59.
Este dado coloca a “cidade Coração de São Paulo” em 19ª nesta lista, encabeçada por Botucatu. Para o conselheiro regional do Cremesp, Carlos Alberto Monte Gobbo, que também é médico urologista, a informação é boa, já que a OMS estima que esta média esteja entre 2 e 3 no Brasil.
“Acredito que a cidade seja bem suprida, sendo que temos dois polos universitários na região. O problema é que muitos destes médicos não se firmam nas instituições ao prestarem concurso público. Em algumas não sabemos o motivo, em outras o baixo salário e a carga horária extra excessiva podem ser agravantes. Então esses médicos acabam preferindo ficarem fixos em seus consultórios”, opinou Gobbo.
Para a população nas ruas, contudo, ainda há a conhecida sensação de falta de médico na hora do atendimento. (leia nesta página).
Residência médica
Dentre elas, apenas quatro não possuem faculdade de medicina. No entanto, o conselheiro regional do Cremesp afirma que o fato de existir uma faculdade de medicina na cidade bem avaliada pelo conselho não é fundamental para uma boa média de médicos por habitante. “Não adianta só formar médicos, é preciso abrir mais vagas para residência médica. Geralmente os médicos acabam se fixando nessas cidades onde fazem residência”.
A mesma opinião tem o médico oftalmologista e presidente da Associação Paulista de Medicina (APM) em Bauru, José Eduardo Marques. “É claro que uma faculdade de medicina do aporte de uma USP, Unesp é muito importante, mas o médico precisa se especializar”, acrescentou.
Em Bauru, O Hospital de Base (HB) oferece anualmente duas vagas para cada especialidade de médicos residentes em: cirurgia cardiovascular, ortopedia, doenças renais e obstetrícia. O Centrinho/ USP também contempla residentes em otorrinolaringologia com três novas vagas ao ano. Já o Hospital Estadual (HE) possui 15 médicos residentes nas áreas de cirurgia geral, cirurgia pediátrica, UTI pediátrica, radiologia, otorrinolaringologia, infectologia, clínica médica e cirurgia cardiovascular.
Estas vagas são disponibilizadas com convênios entre as instituições de ensino, as unidades de saúde e o Ministério da Educação, que disponibiliza as bolsas de estudo que pagam os salários destes residentes.
Especialidades
Conforme já divulgado pelo JC, algumas especialidades como pediatria e psiquiatria estão desfalcadas. Recentemente, dois médicos neurologistas deixaram o quadro clínico do HE, permanecendo apenas um. Para suprir a falta destes especialistas, foi aberto concurso público que já está em fase de contratação final.
Na rede pública de Bauru, o Ambulatório Médico de Especialidades (AME) conta com mais cinco neurologistas de diversas subespecialidades. Para o conselheiro regional do Cremesp, Carlos Alberto Monte Gobbo, algumas especialidades trazem menos estresse diário aos profissionais da saúde.
“Existem médicos nestas especialidades, mas são poucos. A demanda, tanto pública e privada, realmente, é reprimida. É claro que quando um médico vai optar por uma especialidade, ele vai escolher a que equilibra ônus e bônus. E se isso for melhorar, será a longo prazo. Qualquer ação da saúde é de médio a longo prazo”, frisou.
Crise da AHB é contraponto
Apesar do destaque de Bauru na Saúde, a crise instalada na Associação Hospitalar de Bauru (AHB), entidade que administra a Maternidade Santa Isabel e o Hospital de Base (HB), ainda reflete na opinião da população. E, do ponto de vista do atendimento, a ausência de porta de entrada local para serviços de urgência e emergência sufocam a população.
A Operação Odontoma - ação do Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual e Polícia Federal (PF) deflagrada para apurar irregularidades no uso de recursos públicos no setor, além de cobranças indevidas de serviços na associação, mostrou a realidade da entidade na saúde na cidade.
Com uma dívida acumulada de R$ 143 milhões e toda diretoria afastada, a entidade sofreu intervenção e se viu obrigada a reduzir o volume de atendimentos e até mesmo interromper, em algumas ocasiões, cirurgias agendadas por falta de materiais hospitalares básicos ou exames pela quebra de equipamentos.
No Hospital de Base, desde o início da crise até agora, os procedimentos foram reduzidos a menos da metade.