Articulistas

Benigno e letal

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

Vivemos num mundo dominado por um composto químico transparente, sem cheiro, mas que, embora também sem gosto, adoramos ingerir. Viajamos grandes distancias para mergulhar nele e até pagamos para ver o Sol nascer sobre ele. Em geral ele é benigno, mas outras vezes rapidamente letal. De fato, a água está por toda parte. Uma batata é 80% água, uma vaca ou uma bactéria, 74%. Um tomate, com 95%, tem pouca coisa além de água. Nós mesmos, somos mais líquidos do que sólidos. Nem é preciso enfatizar que sem ela estaríamos perdidos. Privado da água, o corpo humano rapidamente degringola. Em poucos dias, os lábios somem, as gengivas enegrecem, o nariz reduz-se a metade de seu comprimento e a pele contrai-se tanto em torno dos olhos que não se consegue piscar.

Muitas vezes esquecemos que quase toda água da Terra é venenosa para nós ? mortalmente venenosa ? por conter sal. Precisamos do sal, mas em quantidades ínfimas e a água do mar contém cerca de setenta vezes mais do que conseguimos metabolizar com segurança. Ao todo, existe 1,3 bilhão de quilômetros cúbicos de água na Terra e isso é tudo de que sempre disporemos, porque o sistema é fechado: na prática, nada pode ser acrescentado ou subtraído. A água que você bebe vem prestando seu serviço desde a juventude da Terra. De toda água disponível, 97% está nos oceanos, a maior parte no Pacífico. Três por cento da água é doce e quase toda sob a forma de gelo. Noventa por cento desse gelo encontra-se na Antártida e o restante na Groenlândia e no Polo Norte. Vá ao Polo Sul e Você estará sobre mais de três quilômetros de gelo, mas no Polo Norte, apenas sobre cinco metros. Somente uma fração mínima ? 0,036% de toda água doce ? se encontra disponível em lagos, rios e reservatórios. É dessa pequena fração que usufruímos: ela sacia a sede, irriga os campos e alimenta hidroelétricas. Com o aumento da densidade populacional, da poluição e do desperdício, está cada vez mais difícil entregar essa água em nossas torneiras e, ainda por cima, convenientemente tratada.

A água é esquisita. Quando resfriados, a maioria dos líquidos se contrai e a água também, mas, até certo ponto. Quando está prestes a se congelar, começa ? de maneira enganosa e extremamente improvável ? a se expandir. Depois de sólida, fica quase 10% mais volumosa e, por se expandir, o gelo flutua na água ? uma propriedade absolutamente estranha, mas sem essa esplendida excentricidade, o gelo afundaria e ao invés de conservar o calor debaixo da superfície de lagos e oceanos, ele iria se dispersar e reduzir a temperatura dessas águas de baixo para cima. Logo, até os oceanos congelariam e quase certamente permaneceriam assim por um longuíssimo tempo, talvez, para sempre ? condição nem um pouco propícia à vida.

A água, com um alto calor específico, é ótima para conservar o calor e auxiliada pelos ventos, modera a temperatura em terra após o pôr do sol. Também por conta disto, a água é capaz de transportar o calor e responsável pela circulação termoalina ? o principal agente de transferência de calor na Terra. Com forte influência sobre o clima do planeta, esta movimentação foi detectada, originalmente, pelo cientista Conde de Rumford, em 1797. A circulação termoalina, semelhante à circulação sanguínea em um ser vivo, ocorre quando águas mais frias e densas, originárias dos Polos, se deslocam para o fundo dos oceanos onde reciclam a vida por estarem carregadas de oxigênio e dão a volta no planeta. O principal motor que impulsiona a circulação termoalina é a diferença de temperatura e também o fato do Atlântico ser mais salgado que o Pacífico. Esse processo é muito lento ? a água leva séculos para se deslocar do Atlântico Norte até metade do Pacífico ? mas a quantidade de calor e o volume de água movimentados são consideráveis. Sem a circulação termoalina os oceanos não teriam vida e até nossa existência estaria comprometida. No entanto, mesmo uma diluição modesta do teor de sal do oceano, decorrente do derretimento das calotas polares, pode prejudicar desastrosamente esse ciclo. Parecendo, às vezes, ignorar as regras da Química e as leis da Física, felizmente para nós a água existe. Infelizmente, para nós, a água doce estará cada vez mais rara e cara.


O autor, Paulo César Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

Comentários

Comentários