Haia - Numa decisão histórica, uma corte especial da ONU para julgar atrocidades durante a guerra civil de Serra Leoa (oeste africano) condenou o ex-presidente da vizinha Libéria Charles Taylor, 64 anos, por crimes de guerra e contra a humanidade. É a primeira vez desde os julgamentos de Nuremberg (1946), sobre crimes dos nazistas, em que um ex-chefe de Estado é condenado por um tribunal internacional.
Taylor enfrentou 11 acusações, incluindo as de atos desumanos e de recrutamento de crianças como soldados.
Mais de 5
mil pessoas foram mortas no conflito (1991-2
2). A promotoria afirma que Taylor, ao apoiar forças rebeldes em Serra Leoa, teve participação nessa cifra.
A guerra foi marcada pela exploração de minas de diamante, das quais o ex-presidente se beneficiou.
A crise no país africano foi caracterizada pelo uso de crianças soldados, com relatos de desmembramentos e decapitações levadas a cabo por garotos drogados e vestidos com farrapos.
Ficaram famosas as cenas de civis, inclusive bebês, com braços e pernas amputados pelos rebeldes da Frente Unida Revolucionária, que chegou a derrubar o governo eleito. A sentença de Taylor será anunciada em 3
de maio. Pelas regras do tribunal, não há possibilidade de prisão perpétua ou de pena de morte.
Ele deverá permanecer detido até o dia 16 do mesmo mês, quando haverá audiência. Ainda caberá apelação. Taylor se diz inocente e insiste que tentou promover a paz.
À reportagem o porta-voz da corte, Solomon Moriba, disse que a condenação de Taylor terá “extensa repercussão política”, podendo enviar aviso para líderes em todo o mundo. “Se você é um chefe de Estado, não importa o quão forte seja, não pode usar tamanho poder contra seu próprio povo ou qualquer outro povo. Crimes serão punidos.”
Diamante de sangue
O juiz Richard Lussick, presidente da corte, ressaltou em sua sentença que Taylor recebia dos rebeldes diamantes que exploravam em áreas que controlavam. Em troca, fornecia armas a eles.
As pedras ficaram conhecidas como “diamantes de sangue”. Taylor chegou a presentear a modelo Naomi Campbell com algumas.
O caso de Taylor deve abrir precedente para outros julgamentos de ex e atuais chefes de Estado.