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Montadora agora tem ?tatóloga? para testar componentes de carro


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A função não existe na relação de profissões nem consta no dicionário. Na fábrica da Volkswagen, contudo, é assim que Flavia Bassani é conhecida: tatóloga. A habilidade no tato a alçou a um cargo que precisou ser inventado. Sua tarefa diária é tatear, apalpar, sentir todos os componentes do automóvel com os quais o consumidor terá contato.

Qualquer anormalidade verificada em peças internas como volantes, painel, fechadura e câmbio terá de ser avaliada. Se o contato não for considerado satisfatório em relação à textura e maciez, ou se apresentar incômodo, o componente terá de voltar para a área de desenvolvimento. Muitas vezes, é preciso substituir o material usado.

“As pessoas passam muito tempo dentro do carro e precisam ter conforto”, justifica Flavia, que ocupa o cargo de tatóloga na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP) há apenas um ano. Aos 37 anos e formada em engenharia de materiais, ela desenvolveu a habilidade com as mãos na própria empresa, onde está há dez anos.

Mesmo com toda a tecnologia disponível para o desenvolvimento e produção de um veículo, a indústria automobilística ainda depende de profissionais como Flavia, pois máquinas não têm a sensibilidade das pessoas.

Próxima a Flavia, trabalha a química Maria de Lourdes Feitosa Di Franco, uma das maiores especialistas do País em identificar e eliminar odores desagradáveis. Ela cheira os novos componentes e o próprio automóvel recém-saído da linha de montagem para detectar odores que possam desagradar ao cliente ou até mesmo provocar alergias.

“O brasileiro gosta de cheiro de carro novo, desde que não incomode”, afirma. Ela tem 52 anos, trabalha na Volkswagen há 30 e a foi a primeira brasileira a receber um certificado de “nariz calibrado”, no início dos anos 90. Maria de Lourdes já treinou 13 pessoas que exercem a função nas fábricas da montadora no Brasil e na Argentina.

Piloto. A Ford, depois de testar os motores de seus automóveis em cabines especiais que simulam todas situações possíveis de ocorrer, não abre mão de ter o veredicto de um profissional. Adriano Marcos da Silva, de 40 anos, todos os dias dirige um dos modelos da marca por 60 quilômetros para verificar comportamento do engate, conforto na troca de marchas e se há ruídos no desempenho da transmissão.

Quando retorna do trajeto, Silva desmonta o equipamento e, com uma equipe chefiada pelo engenheiro Gerson Parreira, analisa se há desgastes ou aquecimento anormal. “Averiguamos peça a peça e, se tiver algum problema, o lote é retido”, informa Silva, que é formado em administração e gestão de processos.

Silva tem 40 anos e está na Ford há 16. Nos últimos 11 anos opera como piloto de teste. Passou por vários treinamentos para distinguir o ruído do motor e da transmissão. “Conseguimos ouvir barulhos quase sempre imperceptíveis ao consumidor.”

A tatóloga Flavia, registrada em carteira como engenheira sênior, diz que sua tarefa é verificar se o toque em qualquer dos componentes internos do automóvel “é sutil”. O volante de um carro popular, por exemplo, precisa ter textura similar ao de um carro de luxo, normalmente em couro. “Mesmo que o material de um carro mais básico seja outro, o cliente precisa sentir o mesmo conforto.” Cabe então à montadora, junto com seus fornecedores, encontrar matérias-primas adequadas.

Não há norma específica para obter formação nessa área. A habilidade é conquistada ao longo do tempo, com muito treinamento. Toda vez que um novo componente é incorporado ao veículo a peça passa pelo crivo de suas mãos.

Especialista em cheirar carros diz que é osmóloga

O diretor de Qualidade Assegurada da Volkswagen do Brasil, Richard Schwarzwald, afirma que, “mesmo para o desenvolvimento de veículos ou na linha de montagem, na qual softwares, robôs e a precisão, fruto da automação, fazem parte do dia a dia, o ser humano ainda tem ferramentas sensoriais apuradas as quais nenhum computador consegue simular ou repetir”.

Segundo ele, o tato, a visão e o olfato são bons exemplos. “Eles podem afetar a percepção dos consumidores sobre um carro e, por isso, ter profissionais com esse perfil é importante para a empresa, para continuamente monitorar seus produtos e atender ‘ao paladar’ do cliente”.

Em breve, a tatóloga Flavia Bassani será testada pela Volkswagen na Alemanha, que vai avaliar suas capacidades. Maria de Lourdes Feitosa conhece essa rotina. Todo ano, ela precisa ir à matriz para provar que mantém o olfato afiado. “Sinto que a sensibilidade aumenta cada vez mais, e não o contrário”, diz ela, que recentemente passou a adotar o temo osmóloga para identificar sua função. “Cheiradora de carros não cai muito bem.”

Segundo ela, sua tarefa é evitar que um aroma seja incômodo. Uma de suas tarefas e escolher carros que estão parados no pátio da fábrica em diferentes condições - como sol forte -, entrar, permanecer lá por um minuto e avaliar os aromas. Se perceber algo incômodo, precisa cheirar peça por peça até identificar de onde vem o cheiro. Ela também isola peças em um vidro e avalia uma a uma.

Foi assim que, há alguns anos, ela percebeu um desagradável cheiro de urina emitido por uma resina plástica usada nos isolantes acústicos e porta-luvas do Gol e da Parati. Os fabricantes desses produtos foram orientados a alterar a temperatura no preparo das peças e o cheiro foi eliminado. Hoje, segundo Maria de Lourdes, os fornecedores estão mais habituados às normas da montadora e dificilmente há problemas como o ocorrido no passado com os dois modelos.

Fora do trabalho, o olfato sensível de Maria de Lourdes detecta o que os vizinhos estão preparando para o almoço e se os amigos deixaram de fumar.

As mãos sensíveis de Flavia influenciam na compra de roupas - que são descartadas se a textura não for confortável - e nos comentários quando entra no carro de familiares e amigos.

“No começo eu achava que era neurose, mas já estou tão acostumada que, quando percebo, já estou apalpando tudo e dando opinião”, diz Flavia.

Já o piloto da Ford, Adriano Marcos da Silva, avisa familiares e amigos da necessidade de manutenção assim que entra nos seus carros e percebe barulhinhos incômodos.

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