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Entrevista da Semana: Antônio Carlos de araújo telles Nunes

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Neide Carlos

Dr. Antônio Carlos, o ‘Doutor aventura’

Família, medicina, aventura e fotografia. Impossível não notar o brilho nos olhos de Antônio Carlos de Araújo Telles Nunes quando ele fala sobre suas paixões. Aos 65 anos e com muitas histórias para contar, o bauruense filho de família pioneira lembra com ternura e certo saudosismo da infância na Bauru do passado e conta como o menino que corria de pés descalços se tornou o primeiro ultrassonografista de Bauru.

Se quando menino ele “comia” poeira com as aventuras sobre uma magrela nas ruas da cidade, hoje ele desbrava a América Latina abordo de um jipe da pesada: “A grande diferença de viajar por terra é que você realmente conhece o povo e os costumes. Na Patagônia, por exemplo, não tem nada. Você olha para o céu e vê aquela imensidão de estrelas... Nesse momento, você percebe como não é nada e se coloca em seu devido lugar”.

O radiologista que revolucionou a “Imagem Diagnósticos Médicos” com sua chegada, em 1976, também fala sobre sua trajetória médica, viagens para o Exterior, família e fotografia. “A fotografia faz você reviver coisas boas”. Confira a entrevista a seguir.


Jornal da Cidade - Quais foram as suas aventuras de infância?

Antônio Carlos de Araújo Telles Nunes - Lembro-me da avenida Rodrigues Alves e seus paralelepípedos. Havia um canteiro largo com árvores e sombras espetaculares. Brinquei muito de garrafão, pique, bicicleta... Na região da rua Bandeirantes. Era uma farra. Onde hoje é a prefeitura, a gente jogava malha e futebol, empinava papagaio... Eu andava descalço. Usava sapatos apenas para ir à escola e à missa. Foi outro tipo de infância. As janelas e portas ficavam abertas. O único momento em que fechávamos a porta era quando ouvíamos o berrante da boiada que era conduzida para o matadouro onde hoje é o Distrito Industrial. Os vizinhos eram amigos. Botavam cadeiras nas calçadas à noite e conversavam enquanto nós, crianças, brincávamos. Éramos felizes e sabíamos disso. Nossa aventura era sair de bicicleta e ir ao campo de aviação. Enfrentávamos areião, subidas... (risos)


JC - Para o senhor, o que o crescimento trouxe de bom e ruim a Bauru?

Antônio Carlos - Eu acho que a cidade é uma cidade gostosa. O que houve foi uma perda dessa identidade de relacionar-se com as pessoas. Hoje em dia ninguém mais faz visita. Acho que o crescimento da cidade prejudicou o relacionamento. Não sei se é coisa do envelhecer, mas a gente começa a ter saudade. Agora, acho que o perfil da cidade como prestadora de serviço foi o que o crescimento trouxe de mais excelente. Bauru se tornou um centro educacional invejável. A cidade voltou o foco para uma coisa importante e que traz um fluxo de pessoas que vêm para estudar, e não explorar a região.


JC - E o senhor descobriu a medicina naquela sua boa infância?

Antônio Carlos - Sim. Eu não tinha nenhum médico na família, mas o médico da família era muito amigo nosso. Meu avô, pai e tio eram advogados. Mas o médico, naquela época, era tão amigo que chegava em casa para almoçar e nem precisava bater palmas. Ele entrava. Era também conselheiro e me estimulou com seu exemplo a ideia de fazer medicina, isso aos 12 anos de idade. Fiz faculdade no Rio Grande do Sul, na Universidade Católica de Pelotas.  


JC - Quais foram os próximos passos?

Antônio Carlos - Depois de formado fui para o Rio de Janeiro, onde fiz minha residência em radiologia. Fiquei dois anos lá e vim para Bauru. Já quando estava no Rio começou a surgir a ultrassonografia e a tomografia computadorizadas. Sou um médico que acompanhou toda essa evolução da radiologia. Em 1981, fui para os Estados Unidos e fiquei um ano fazendo residência e me aprimorando na área, na cidade de Filadélfia. Antigamente, santo de casa não fazia milagre. Voltei. Fui o primeiro ultrassonografista de Bauru. Também fiquei um ano na Beneficência Portuguesa, em São Paulo, fazendo tomografia computadoriza, isso em 1989. É um constante aprimorar. Sempre vou a congressos de radiologia nos Estados Unidos e Europa. Para mim, a medicina precisa ser assim. Atualização, sempre. O Brasil é top de linha nessa área.


JC - Você é filho de família pioneira, certo?

Antônio Carlos - Meu avô chegou aqui em 1911. Ele era português e a mãe dele veio para o Brasil viúva, grávida de quatro meses e com quatro crianças. Meu avô devia ter uns 7 anos de idade e calçou o seu primeiro par de sapatos aos 10 anos. Eles viviam em uma pequena aldeia de Portugal e, no Brasil, minha bisavó conseguiu formar os quatro filhos, a menina que ela trouxe no ventre morreu. Eles eram primos do José Martha e veio a Bauru a convite dele. Durante um período ele foi delegado de polícia, depois comprou um cartório e também escrevia versos bacanas para os jornais da época. Minha família está em Bauru desde essa época.     


JC - A fotografia é coisa de família?

Antônio Carlos - A fotografia está comigo por causa do meu pai e de um tio. Tinha um fotoclube em Bauru e eles discutiam e faziam fotos. Eu sempre por perto, ganhei minha primeira máquina aos 9 anos. Ela sumiu (risos). Sinto não ter essa máquina comigo, mas a segunda que meu pai me deu eu tenho. A primeira vez que fui para os Estados Unidos, aos 17 anos em um intercâmbio, meu pai me deu uma Contaflex alemã espetacular para fotografar minha aventura de um ano. Antigamente ninguém viajava e eu fui um dos primeiros bolsistas da época. Foi em 1964.


JC - Foi um ano bom?

Antônio Carlos - Muito. Abri meus horizontes e acho que essa é uma experiência essencial para quem é jovem. Fui o primeiro estudante intercambiário da pequena cidade onde fiquei. Foi um evento. Todo mundo queria conhecer o tal do brasileiro. Conheci uma consulesa do Brasil que perguntou de onde eu era. Quando disse, ela ficou surpresa porque o seu pai foi um dos engenheiros que construíram a estrada de ferro da Noroeste. Em qualquer lugar que você vai, você encontra bauruense (risos). Ela era carioca, mas o pai morou aqui por muito tempo. E nos Estados Unidos eu fiz muitas fotos e cresceu essa paixão. Tive a oportunidade e a sorte de conhecer a Feira Mundial de Nova York, que foi naquele ano.


JC - Hoje, o que a fotografia representa para o senhor?

Antônio Carlos - A fotografia é tudo. Tem uma frase que eu acho muito bacana que diz que a fotografia não registra apenas os acontecimentos do mundo, mas também os revela. São coisas que você capta que te emocionam e te fazem querer transmitir para os outros. Fotos de família, por exemplo. É muito bacana você eternizar as pessoas jovens. Pego fotos dos meus pais e fico me lembrando como eles eram legais, cheios de sonhos e planos. A fotografia faz você reviver coisas boas.


JC - Suas aventuras off-road são todas fotografadas?

Antônio Carlos - (risos) Sempre gostei muito de viajar e o jipe foi outra maneira que eu encontrei para escapar do meu trabalho. Na parte de diagnóstico, a gente vê muita coisa que não gostaria. Descobrir doenças e ter que dar diagnósticos de coisas ruins é uma carga pesada e não existe coisa melhor para espairecer do que ser jipeiro. O contato com a natureza é ótimo. Fico cansado fisicamente, mas me libero psicologicamente.


JC - E quando o senhor encarou uma trilha pela primeira vez?

Antônio Carlos - Faz tempo e foi uma coisa engraçada. Meu filho ia sair com um amigo nosso que tinha jipe e me chamou para ir junto. Fui picado pela mosquinha da aventura e não parei. Comprei um bom jipe para viagens longas. Já fui duas vezes para a Terra do Fogo, já fui até o deserto do Atacama, Bolívia... Para a Serra da Canastra a gente vai todo ano, também faço muitas trilhas pelo Interior, participo de encontros de jipeiros com o Jeep Club de Bauru... A grande diferença de viajar por terra é que você realmente conhece o povo e os costumes, diferente de você viajar de avião.


JC - Grandes histórias?

Antônio Carlos - Conhecemos muitas cidadezinhas, acampamos no meio do nada... Tudo lindo e sem poluição. Conversamos como o povo e comemos os pratos típicos. Os argentinos e os chilenos são extremamente hospitaleiros e cordiais. Uma dessas viagens eu fiz com um filho meu, e foi maravilhoso apertar esse laço de amizade. Viajar assim te faz ver a vida de outra forma. Fome a gente não passa porque ligamos o fogareiro e esquentamos uma sopa em lata. Na Patagônia, por exemplo, não tem nada. Você olha para o céu e vê aquela imensidão de estrelas... Nesse momento, você percebe como não é nada e se coloca em seu devido lugar. Humildade é uma virtude adquirida.


JC - E por falar em filho, o que a família representa para o senhor?

Antônio Carlos - Digo que sou quem eu sou e tenho o que tenho por causa do equilíbrio dentro de casa, com a família. Graças a meus pais, minha esposa e meus filhos. Meu pai dizia que o casamento é loteria, e tive sorte porque encontrei uma mulher parecida comigo, que me coloca para frente. Ela é otimista e não reclama da vida. Isso me deixa tranquilo. Brinco que afastei minha esposa da família dela, porque a Eliane veio comigo do Rio Grande do Sul. Ela foi a primeira mulher presidente da Unimed no Brasil. Foi ela quem idealizou e começou a construir o hospital em Bauru. Ela é um exemplo de vida, uma pessoa que passa uma energia positiva impressionante. Posso dizer que sou um homem abençoado por ter vindo de uma família espetacular e por ter construído outra da mesma forma. Deus me deu uma mãozinha bem grande! (risos)

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