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Sônia Goulart é responsável por manter o Bosque da Comunidade sempre em ordem |
Há muito tempo, na Era Medieval, acreditava-se que as gárgulas eram capazes de espantar os espíritos ruins e, desta forma, zelar pelas catedrais e espaços públicos. Posicionadas nos topos dos prédios, as agourentas figuras tinham chifres longos, corpos corcundas, olhos esbugalhados e aspecto animalesco. Foram criadas, na realidade, para escoar a água da chuva das calhas, mas a crença popular as transformou em poderosas guardiãs dos prédios da cidade.
Na Idade Moderna, a função de cuidar dos prédios e espaços públicos, antes cumprida pelas tenebrosas gárgulas, foi transferida para os zeladores, que, embora sejam figuras de carne e osso e com fisionomia longe de ser assustadora, impõem respeito. Bauru nunca teve gárgulas, mas, até poucos anos atrás, tinha muitos zeladores que cuidavam de espaços que iam de praças a escolas, perpassando ginásios e outras áreas de grande movimento.
Contudo, aos poucos, mais uma vez o progresso e o avanço tecnológico estão transformando este cenário. Atualmente, os zeladores são figuras cada vez raras nos bairros de Bauru. A maioria foi substituída por alarmes, cercas elétricas, circuitos de câmera ou pelo discurso da necessidade de consciência pública.
Quem não se lembra da figura quase maternal que morava em casas junto às escolas públicas da cidade e que, nos finais de semana, abria as quadras para partidas de vôlei e futebol entre os amigos do bairro? E dos simpáticos guardiões de praças e parques, que passavam o dia limpando estes espaços e vigiando para que ninguém estragasse ou fizesse mau uso do local?
O JC nos Bairros fez uma busca pela cidade e conseguiu encontrar guardiões que ainda resistem em seus postos, firmes, fortes e vigilantes, apesar de todo o aparato tecnológico da atualidade (veja as histórias nas páginas 2 e 3).
São pessoas que orgulham-se de seus trabalhos, cumprem com sua obrigação com prazer e sabem que, sem eles, espaços públicos viram terra de ninguém.
“É só você se basear na estação ferroviária. Antes, era o ponto mais chique de Bauru. Pessoas de todos os lugares passavam por ali. Tudo no prédio, da limpeza ao maquinário, era impecável. Agora, só resta saudade”, compara Abel Dias da Silva, ex-chefe de movimento da estação ferroviária de Bauru, que acredita que o prédio deveria ter sido mantido sob a vigilância atenda de zeladores.
Maria de Fátima Pereira, guardiã da praça Rui Barbosa, concorda. “Se com nós por aqui o pessoal já não respeita, joga lixo no chão e apronta, imagine sem nós”, reflete.
A brava guardiã do Bosque
Durante todas as tardes, faça chuva ou faça sol, Sônia Goulart, 57 anos, tem sempre uma vassoura em punho. Com ela, varre ritmadamente cada canto do Bosque da Comunidade, recolhe as folhas caídas, espanta a terra e a poeira para os canteiros e, vez ou outra, chama a atenção das crianças e dos frequentadores do parque que violam as regras.
“Onde já se viu! As pessoas têm de ter mais cuidado com as coisas públicas! Não pode sair estragando as coisas por aí não...”, reclama.
Mulher corajosa e de personalidade, Sônia é a brava guardiã do Bosque da Comunidade de Bauru. No serviço há dois anos, ela é apaixonada pelo que faz e defende com unhas e dentes seu local de trabalho. Sabe que cabe a ela a missão de preservar o espaço e se esmera para cumprir seu objetivo.
“É como se fosse o quintal da minha casa. Eu me sinto responsável por este lugar”, justifica ela, que mora no Núcleo Bauru 16 e pega ônibus diariamente para chegar ao trabalho.
Entre os desafios, está o dever de controlar os frequentadores do espaço, que nem sempre respeitam as regras ou estão bem intencionados, e a necessidade de pegar ônibus diariamente para se locomover.
“Ih, menina, fico horas esperando no ponto. É terrível! E, às vezes, quando chego aqui, ainda passo apertado, viu?! Tem que ficar muito esperta. Quando noto alguém agindo de forma suspeita, chamo logo a polícia. E tem mais: andarilho não faz hora aqui não” comenta, demonstrando autoridade.
Sobre a nobre profissão, a guardiã do Bosque da Comunidade se mostra satisfeita. Pretende aposentar-se no cargo e, então, ir ao bosque a lazer.
“Mais isso ainda vai demorar oito anos...”, calcula ela.
A sorridente protetora da praça Rui Barbosa
Uma pá, uma vassoura, um carrinho de limpeza e um grande sorriso no rosto. Estes são os instrumentos de trabalho de Maria de Fátima Pereira, a sorridente guardiã da praça Rui Barbosa.
Responsável pela limpeza e manutenção da praça, ela é figura conhecida entre os frequentadores do local. Alterna seus meses de trabalho entre o serviço externo e a guarda do banheiro público.
“Somos em duas: eu e minha amiga, a outra Maria. Um mês eu fico aqui fora e ela no banheiro, depois, no outro mês, trocamos”, explica ela, torcendo o nariz para o dever de ficar dentro do banheiro. “É que eu prefiro o serviço daqui de fora. É bem melhor”, justifica.
Ela trabalha na função há quatro anos. Antes, era ajudante geral na Regional do Parque São Geraldo. Mudou de cargo por conta do fechamento da regional.
Moradora do Jardim Europa, ela se orgulha da responsabilidade de manter o funcionamento da praça em dia.
“Sei que meu trabalho é importante. As pessoas têm o mau hábito de jogar lixo no chão, de depredar os lugares... Aqui, eu evito muita coisa e mantenho tudo limpo e em ordem”, orgulha-se.
Quanto às dificuldades, ela não nega que elas existem. A principal delas é lidar com a diversidade de frequentadores da praça que, apesar de tudo, nunca chegaram a incomodar.
“Tem muito usuário de drogas, o que é lamentável. Mas eles me respeitam”, pondera.
Estação não tem mais glamour
Uma grande porta feita com grades trabalhadas em ferro anunciava a entrada da estação ferroviária, em Bauru. O intenso fluxo de pessoas, portando malas, chapéus e vestindo trajes sociais denotavam a importância do local.
Para fazer jus ao glamour de seus frequentadores, o local tinha pisos impecáveis, lustrados com escovão e encerados diariamente pelos homens que cuidavam da limpeza. Em um dos cantos do prédio, ficava o badalado bar da estação, frequentado por viajantes, boêmios e nomes importantes da sociedade da época.
Ao todo, passavam pela estação 28 trens com passageiros. As locomotivas eram mantidas impecáveis, as máquinas tinham coroas nas chaminés e as pedras que beiravam o trilho estavam sempre alinhadas.
Para mantê-la assim, a estação contava com dezenas de guardiões, cada qual responsável por um serviço. Eram peças de uma grande engrenagem.
“Muita gente trabalhava lá. Tinha o pessoal da limpeza, os seguranças que vigiavam o local 24 horas por dia, o pessoal da manutenção, os controladores de trens, etc. Cada um fazia sua parte e a estação funcionava de forma impecável”, recorda-se Abel Dias da Silva, 74 anos, que trabalhou durante 35 anos na estação ferroviária.
Lembrança que pouco tem a ver com a atual situação do prédio, que atualmente está abandonado, com as vidraças quebradas, sujo e deserto. Os vigias também não fazem mais parte do cenário. Com o fim da ferrovia, o prédio foi deixado de lado e o cargo de guardião foi extinto. Atualmente, alguns seguranças particulares zelam pela parte terceirizada do local, mas não respondem pela Maria Fumaça nem pelo galpão abandonado.
“Muita coisa mudou desde que fui lá pela última vez. Lembro-me bem: cheguei à porta do prédio e fui impedido de entrar por um segurança. Isso faz muitos anos. Pelo pouco que vi, preferi parar por ali. Não insisti. Fui embora com as lembranças. Hoje, nem isso quero mais. Prefiro não lembrar para não chorar”, lamenta Abel, sem conseguir conter a emoção.
A defasada vigilância do Centro Cultural
Desde quando foi inaugurado, o prédio do Centro Cultural de Bauru sempre contou com vigilância 24 horas por dia. Para isso, mantém três vigias que trabalham em esquema de 12 horas de serviço por 36 horas de descanso, que têm a função de zelar pela segurança do prédio e dar informações aos frequentadores.
Contudo, a simples figura deste guardião do espaço público não é mais suficiente para evitar assaltos e atos de vandalismo. Prova é que, no último dia 16 de abril, o prédio foi assaltado por três homens armados, que fizeram o vigia refém, arrombaram a porta e o cofre e levaram R$ 3,2 mil em dinheiro.
“O perfil da violência e da criminalidade mudou muito. Antes, o simples fato de existir um vigia no local já era suficiente para inibir criminosos e vândalos. Hoje, isso mudou”, avalia Élson Reis, secretário municipal de Cultura, para quem a figura do vigia é indispensável, porém, está ultrapassada.
De acordo com ele, uma alternativa para casos como o do Centro Cultural é agregar equipamentos eletrônicos que inibam a ação de pessoas mal intencionadas e autorizar o porte de armas para quem faz a segurança do prédio.
“Com câmeras e vigias armados, penso que a segurança e a zeladoria do prédio seriam mais eficazes. Atualmente, os vigias estão limitados”, opina.
Nenhum profissional que faz a vigia do prédio do Centro Cultural quis dar entrevista.
A dedicada guardiã da escola Stella Machado
Poucas pessoas sabem tanto a respeito da Escola Estadual Stela Machado quanto Ana Maria Cornélio Parolin, 67 anos, que acompanha de perto a história do colégio desde a sua inauguração, há 41 anos.
O caso de amor entre ela e a instituição de ensino começou em 1971, quando Ana Maria foi empossada zeladora do prédio da escola e passou a morar com a família em uma casa anexa ao local. Naquela época, ela desempenhava também o papel de servente: tinha de limpar as salas, lavar os banheiros, fazer café, entre outras coisas.
Durante a noite ou quando a escola estava fechada, mantinha-se atenta: qualquer barulho exigia uma ação, afinal, sem alarmes nem equipamentos de segurança, era dela a responsabilidade pelo local.
“Meu marido levantou-se várias vezes durante a madrugada para checar se estava tudo bem na escola. Ele ouvia um barulho, ‘passava a mão’ em um pedaço de pau e ia em busca do invasor”, lembra-se.
Depois, ela tornou-se escriturária e, mais tarde, agente de organização escolar da instituição.
Até hoje tem a missão de abrir a escola às 5h50, deixar tudo em ordem para a chegada dos alunos, às 7h, e fechar as portas às 23h. Foi nesta toada que criou e deu estudo aos quatro filhos, hoje, todos com ensino superior.
“Foram bons tempos. Naquela época, meus filhos estudavam aqui e costumavam brincar com os amigos na quadra da escola. Como era todo mundo conhecido, não tinha problema. Passávamos bons finais de semana nos divertindo”, recorda-se.
Ana Maria usa o passado em suas falas com a tristeza de quem sabe que lhe resta pouco tempo ao lado da escola que viu nascer. É que ao completar 70 anos de idade ela terá de deixar o cargo e, consequentemente, a casa onde mora.
“Dá uma dor no coração. Morei aqui por muito tempo e dediquei minha vida à escola. Sou apaixonada por este lugar e pelo que faço. Não vai ser fácil deixar tudo”, lamenta, chateada.
O respeitado protetor do ginásio de ginástica artística
Quem frequenta o ginásio Guilherme Dal Coleto, famoso por abrigar os equipamentos municipais de ginástica artística, já está acostumado com a presença de Antônio Marcos Pereira, 41 anos, mais conhecido como Toninho.
Responsável por zelar pelo ginásio, Toninho é figura conhecida pelos frequentadores do local e pela vizinhança. Ele assumiu o cargo de zelador há sete anos, desde que se mudou do imóvel onde morava para a casa localizada nos fundos do ginásio. Atualmente, substitui um colega na zeladoria da Panela de Pressão e, durante a noite, faz a guarda do ginásio.
“Fiquei sabendo que o antigo zelador iria sair e que a casa ficaria vaga. Como eu e minha família morávamos com minha sogra, me candidatei à vaga e deu certo”, conta.
Suas principais funções são cuidar dos equipamentos, manter a grama sempre em ordem, deixar o ginásio limpo, vigiar o local durante a noite, entre outras coisas. Serviço que Toninho tira de letra. O principal desafio do emprego, segundo ele, foi colocar o ginásio em ordem e ganhar o respeito das crianças e adolescentes que frequentam o local.
“É supertranquilo. Tem de saber levar, conversar com a molecada... Com paciência, tudo se resolve”, ressalta.
Além de Toninho, a casa do ginásio abriga seus dois filhos, a esposa e dois cães, que ajudam a garantir a segurança noturna. Para a família, o local já é considerado o quintal de casa, apesar de nenhum dos pequenos ter interesse na prática de ginástica artística.
“Eles até tentaram, mas desistiram. Preferem ficar brincando com as crianças”, conta ele, que não tem intenção de ficar no local para sempre.
“Ouvi dizer que vão começar a cobrar água, luz e aluguel da gente. Daí fica difícil. Além de eu ficar à disposição 24 horas ainda vou ter de pagar aluguel? É complicado... Sem contar que tenho o sonho de morar em uma casa própria com minha família”, planeja.
