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"Deus fraco!"

Wellington Martins
| Tempo de leitura: 3 min

Definitivamente, não existem ateus! Todos têm seus deuses. Isso é inevitável. Arriscaria dizer: é natural. É da essência humana o culto ao sobre-humano. O culto a um "altíssimo". A veneração do herói. Deuses são adorados em templos religiosos, mas, de forma análoga, também são adorados em salas de cinema e livros de literatura. Vá assistir ao filme ? que virou matéria de inúmeras críticas jornalísticas ? "Os Vingadores" (2012). E enquanto assiste-o, olhe para os lados, repare na fisionomia religiosa, repare na devoção com que as pessoas vibram com seus heróis salvadores que estão dentro da tela. Não, não existem ateus!

Nesse filme, o momento mais irônico ocorre após o vilão se autodeclarar deus. Pois, apesar desta declaração contundente do mal, lá está o nosso herói, nosso "deus verdadeiro", para nos salvar da mentira que foi dita. O gigante verde, Hulk, ocupa-se de colocar o vilão no seu devido lugar, à base de pancadas. E, após fazê-lo, afirma: "Deus fraco!". Quando você for assistir a esse filme, repare bem nessa cena. Pois boa parte dos que estarão na sala de cinema com você irá rir bastante! Irá rir porque achará na fala "deus fraco" algo de transcendental. Porque a afirmação não revela apenas uma humanidade frágil do vilão, que acabou tomando uma surra. A afirmação revela a sobre-humanidade do nosso herói, comprovando sua divindade. E nós, todos nós, de alguma forma, nos identificamos com essa grandeza. E, por isso a louvamos, compartilhamos dela e rimos felizes e satisfeitos com a cena.

O polêmico filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que se dizia ateu, criou um conceito denominado "além-homem" (Übermensch, em alemão). Sua ideia básica é a defesa de uma evolução humana. Um progresso moral, filosófico e espiritual. Ou seja, tal como nós, homens comuns e atuais, viemos de animais próximos aos macacos, o Übermensch decorrerá de nós e será o próximo passo evolutivo. Assim defendia o pensador Nietzsche. Que, apesar de ateu, mostrava aí, no seu "além-homem", o deus que ele venerava, o objeto de seu culto.

Nós criamos deuses! Por isso o ateísmo é uma ideia equivocada, que não encontra referências na realidade. O ser humano é um crente. É um ser transcendental, que não se satisfaz apenas com esta realidade física. Por isso, cria metafísicas! Cria outros mundos com deuses grandiosos, isto é, heróis. Heróis que possam nos salvar, nos defender desta vida de que somos prisioneiros. Veja o Catolicismo, por exemplo. A Igreja Católica canoniza seus heróis, chama-os de ?santos?. Mas a política, mesmo a mais ateia, também faz isso. Alguém nega que Che Guevara seja adorado e seguido? E Mahatma Gandhi? Não é ele o nosso herói da moralidade? Sim, nós criamos deuses! Divinizamos pessoas, objetos, ideias. Escolhemos certos espaços e tempos e os sacralizamos.

O filme citado lá no início, "Os Vingadores", é do diretor Joss Whedon. Que gastou mais de meio bilhão de reais (eu disse meio bilhão de reais!) para juntar alguns de nossos grandes deuses do cinema: Thor, Capitão América, Homem de Ferro, Hulk entre outros. Com tantos heróis consagrados juntos, não poderia ser diferente. Esse filme é um fenômeno catártico! Gera uma profunda comoção na plateia. Êxtase espiritual, tão similar ao sentido em nossas igrejas.

Sim, nós precisamos de heróis! Veja como chamamos nossas grandes referências do futebol brasileiro: Ronaldo é o "Fenômeno", Adriano é o "Imperador", Pelé é o "Rei". Nós exaltamos pessoas para muito além de suas possibilidades. Idealizamos sem medo algum! Pois precisamos disso. Buscamos a isso. Então, se Deus existe de verdade ou não, se o ateísmo é uma mentira ou não, se um dia a Terra terá uma equipe de vingadores como no filme ou não, se Che Guevara e Gandhi merecem mesmo toda a atenção que damos ou não, se chegaremos ao Übermensch de Nietzsche ou não, isso tudo é duvidoso. É muito questionável! Agora, que é da essência humana o culto ao sobre-humano, ao heríi, ao deus criado, isso ninguém de nenhuma forma poderá negar.


O autor, professor Wellington Martins, é docente universitário; mestrando em Filosofia (ética e política), pela PUC/SP; graduado em Filosofia (licenciatura plena), pela USC-Bauru / am.wellington@hotmail.com


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