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Objetivo saudável

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Em toda proximidade das reuniões do Conselho de Política Monetária temos tido a oportunidade de ler análises muito bem fundamentadas com sugestões ao Banco Central de "como deveria proceder" para conservar o juro básico no nível em que se encontrava ou, quem sabe, elevar um tantinho o patamar, porque "o seguro morreu de velho" e ninguém pode garantir que num futuro próximo não tenhamos "surpresas desagradáveis" com a meta da inflação. De uma forma geral, os argumentos arrolados pelos brilhantes analistas dos mercados financeiros estão fora da realidade dos fatos.

Não foi diferente nesta última semana de maio quando o Copom decidiu reduzir a Selic de 9.0% para 8.5%, a menor taxa básica de juros desde que ela foi instituída, no longínquo mês de julho de 1986. Acontece que muitos analistas ainda não se convenceram que o nosso Banco Central tem hoje mais conhecimento da situação da economia mundial do que a maioria dos críticos de sua política. Há dificuldades gigantescas nos Estados Unidos onde a recuperação do crescimento tem sido muito lenta. A eventual saída da Grécia da Zona do Euro não será uma coisa tão simples como se imagina, num momento em que o resto do mundo parece estar caindo aos pedaços.

Fora do continente europeu, a Índia já dá sinais claros de que seu ritmo de crescimento está murchando e a China, que era a grande aposta de recuperação asiática, já emite também os sinais de arrefecimento no ritmo de expansão da economia, entrando numa faixa de controle mais baixo dos níveis de atividade para tentar fazer um pouso suave, o que é provável, mas não altera o fato que o mundo está murchando. O Brasil, como parte do mundo, está se posicionando para enfrentar as consequências dessa aterrisagem.

Chegar a uma taxa de juro real próxima dos níveis internacionais - como vem defendendo a presidente Dilma Roussef - é um objetivo mais do que saudável: ele é absolutamente necessário para uma melhor e mais eficiente organização produtiva geradora do crescimento econômico. Não tem nada a ver com as tentativas de criar um "estado de guerra" com o sistema bancário e sim com as restrições institucionais construídas pelos governos, mas que hoje vão sendo superadas.

O nível da taxa de juros real não é uma constante da natureza. O juro depende fundamentalmente das instituições que garantem a segurança do credor, da evolução da política monetária e do comportamento fiscal dos governos. O Brasil está construindo agora as condições para libertar-se da taxa de juro teratológica produzida pelo desespero de alguns momentos e que se perpetuou pela cômoda política monetária que se seguiu. É por isso que devemos apoiar a firme decisão do governo Dilma de enfrentar o problema do juro real, inicialmente com a mudança da política monetária e em seguida pela correção dos fatores que impediam a sua livre determinação.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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