“Em 23 anos de polícia, esta é a cena mais chocante que eu já vi”. A frase dita pelo delegado Kléber Granja, por volta da 0h30 de hoje, ao lado do corpo carbonizado da pequena Vitória Graziela Fernandes de Lima, de 6 anos, exemplifica o fim trágico do mistério da garota que havia sumido na segunda-feira. O corpo foi localizado em um matagal nos fundos do Jardim Manchester. Após ser preso ontem, Renato Alexandre Cury Martinelli, 33 anos, ex-namorado da mãe da garota, confessou o crime e apontou o local onde o corpo fora ocultado.
O corpo de Vitória foi encontrado por volta das 22h30 de ontem. O assassino confesso havia sido detido pela Polícia Civil, por meio da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), durante a tarde, no distrito de Guaianás (28 quilômetros de Bauru).
A prisão de Renato se deu horas após o encontro do seu veículo abandonado em um sítio localizado no distrito de Guaianás (leia mais ao lado). Após o intermédio de seu advogado e vários comandos da polícia, Renato saiu do meio do matagal no local onde o veículo estava. “Era algo impressionante. Ele estava coberto de barro. Tinha barro dos pés ao nariz”, conta o titular da DIG, Kléber Granja.
O suspeito, entretanto, negou o crime veementemente durante todo o dia e disse não saber do paradeiro da criança. Questionado sobre o motivo de ter se escondido, ele disse ter ficado sabendo da repercussão do caso e que estava com medo dos policiais.
Renato foi levado à DIG, onde prestou depoimento e continuou negando o fato. Na hora de sua chegada, a mãe de Vitória, a auxilia de cozinha Gislene Aparecida Lopes, 33 anos, chorou muito. “É ele. Foi ele que fez isso. Tenho certeza”, disse.
Todos pareciam ter certeza. Tanto que, mesmo antes da confissão, o delegado pediu a prisão temporária de Renato por 30 dias. Depoimentos de pessoas que afirmavam ter visto Renato com a pequena Vitória momentos antes do desaparecimento e a denúncia de um possível caso de pedofilia no passado (leia mais abaixo) reforçaram o pedido.
Detalhes cruéis
No fim da noite, aquele que era o principal e único suspeito se tornou o autor confesso. Renato Martinelli acabou de forma trágica com o mistério. Ele revelou ter realmente assassinado Vitória e levou os policiais até a cena do bárbaro crime.
No local, um matagal que fica a cerca de quatro quilômetros da rodovia, a cena que chocou até mesmo a equipe de policiais. Vitória estava em posição fetal e com o corpo completamente carbonizado.
“Ele disse que a sequestrou, passou em um posto de combustível e comprou gasolina. No local, bateu a cabeça dela contra uma torre de energia. Ele disse que depois que ela apagou, ele a queimou”, conta Kléber Granja.
O corpo estava a poucos metros desta torre de energia. Além das roupas que Vitória usava, havia um calção, que foi utilizado para atear fogo na criança. O fato de ela estar vestida diminui as chances de ter havido um estupro, porém, o fato será investigado.
Em relação à motivação, o delegado conta que Renato não a revelou até o momento em que o corpo fora encontrado. “Ele disse que deu um branco. Disse que deu um ataque e fez esta barbaridade. Todos ficamos em choque”, completa Granja.
A reportagem apurou que os pais de Vitória receberam a notícia trágica. Em choque, a mãe precisou ser internada.
Entenda o caso
A pequena Vitória Graziela Fernandes, de 6 anos, sumiu por volta das 15h30 da última segunda-feira nos entornos da rua Nove, no Bairro Fortunato Rocha Lima. Quando foi vista pela última vez, ela brincava com alguns amigos na casa de uma vizinha.
Desde o sumiço, as suspeitas se voltaram a Renato Alexandre Cury Martinelli. Ele teria sido visto – algo confirmado ontem por testemunhas – com a pequena Vitória momentos antes do seu desaparecimento.
A família acionou a Polícia Militar (PM), que fez várias buscas na região. Um boletim de ocorrência (BO) foi registrado no Plantão da Policia Civil, porém, a garota continuou desaparecida. Na noite de ontem, finalmente o mistério acabou. De um jeito que ninguém queria: a pequena Vitória Graziela era a 11.ª vítima de morte violenta em 2012.
‘Ele tentou abusar da minha filha de 5 anos’, diz vizinha da vítima
No começo da noite de ontem, antes de Renato Martinelli ter confessado o crime, a Polícia Civil colheu um depoimento determinante no caso. Trata-se de uma dona de casa, de 37 anos, vizinha da família de Vitória. “Ele virou um amigo da família. Mas, há quatro meses, ele tentou abusar da minha filha caçula de 5 anos”, revelou.
Segundo a testemunha – que teve o nome preservado pela reportagem -, Renato teria retirado o órgão genital e se insinuado para a criança. “Ela correu. Depois, veio contar para nós. Só não falamos para a polícia porque não tínhamos provas”.
A dona de casa conhecia bem Renato. Ele teria namorado outra filha dela, que, hoje, está presa por tráfico de drogas. “Mesmo assim, ele frequentava nossa casa. Havia um tempo que não aparecia. No bairro, ele costumava dar doces para as crianças“, completa a testemunha.
O depoimento caiu como uma “bomba” na Polícia Civil, que, até então, só tinha testemunhas circunstanciais sobre o caso. “Eu ia pedir a temporária por cinco dias. Depois deste depoimento, pedi por 30 dias”, conclui o delegado Kléber Granja. Mais tarde, porém, veio a confissão.
Há um ano, o autor do crime teve relacionamento com mãe de Vitória
Desde o desaparecimento de sua filha, Gislene Lopes negava conhecer Renato Alexandre Cury Martinelli. Na tarde de ontem, porém, ela abriu o jogo. O principal suspeito de ter levado a garota e que depois confessaria ser o assassino foi seu namorado há cerca de um ano.
“O relacionamento durou pouco mais de um mês. Ele era muito possessivo e, por isso, larguei dele. Nos dois meses depois do fim do relacionamento, ele ficava querendo voltar. Tanto que tive que trocar meu número de celular”, conta.
O homem seria conduzido à Cadeia Pública de Duartina. “A prisão é para as investigações e para preservar o próprio suspeito. Não podemos nem mandá-lo para a Cadeia de Duartina pelo que poderiam fazer com ele”, diz o delegado.
Perfil do assassino
Um homem calmo e que, com 36 anos, ainda morava com os pais. Adepto de rituais de magia, ele fora descrito como trabalhador e sossegado. Para a polícia, confessou que tomava remédios moderadores de apetites. “Ele disse que perdeu cerca de 60 quilos. Nem o uso deste tipo de medicamento é descartado como motivador do crime. Sabemos que mexe diretamente com o psicológico”, relata o titular da DIG, Kléber Granja.
O delegado não esconde que Renato apresenta um perfil psicológico abalado, o que pode ter motivado o crime. Sobre a ligação com qualquer ritual de magia, Granja é cauteloso, porém, não descarta tal hipótese também.
De acordo com o que a reportagem apurou, no dia do sumiço de Vitória, Renato teria ido ao local religioso onde frequentava. Sem camisa, teria dito: “hoje estou fervendo”. “Não acho que qualquer fé leve a isso. Mas, uma pessoa com problemas pode confundir. Não podemos descartar o fato”, afirma o titular da DIG.
Vingança, ritual de magia, pedofilia? Logo que o corpo foi localizado, a motivação parecia pouco importar. “É este o ser humano”, completou Granja, bastante abatido.
Carro usado para transportar menina foi encontrado abandonado em sítio
O caso que se encerraria de forma trágica durante a noite teve novidades logo na manhã de ontem. O veículo GM Ômega de cor azul e placas BPP-0603, de São Paulo, de Renato Martinelli foi achado em um sítio no distrito de Guaianás. O veículo foi localizado pela Polícia Militar (PM).
No carro, havia cobertas, um travesseiro, uma câmera digital e um aparelho GPS. Na câmera, havia imagens dos rituais de magia onde o suspeito frequentava. “Já pegamos os destinos gravados no GPS e vamos investigá-los”, aponta o delegado Kléber Granja.
O veículo estava bastante sujo de barro. O caseiro, de 30 anos, que mora na propriedade com a família, disse que conhecia Renato há pouco tempo. “Conheço ele há poucos meses de uma oficina em que trabalhávamos. Ele chegou aqui na segunda à tarde sozinho. Dormiu aqui e, hoje (ontem), por volta das 6h desapareceu”, disse o caseiro.
A PM realizou buscas para tentar localizar Renato nas proximidades, porém, ele não apareceu. Somente horas depois, a Polícia Civil, por intermédio do advogado do suspeitou, conseguiu encontrá-lo.
Durante a noite, antes da confissão, a Polícia Científica realizou perícia com luzes forenses no automóvel. Nenhum vestígio de sangue ou esperma fora encontrado. O fato acendeu esperanças na polícia. Esperanças que foram mortas horas depois com a localização do corpo.