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Violência na economia, na escola e na sociedade

Adriana Nigro Cardia
| Tempo de leitura: 3 min

Não fosse o discurso da presidenta na véspera do Dia do Trabalho, poderíamos clamar pela inaceitabilidade e por um basta em tanta violência que chega nos nossos lares todos os dias. A presidenta clamou por nós. Por uma mudança decisiva na política dos juros que tanto afeta a classe trabalhadora e que por muito tempo nos foi justificado que os juros eram parte integrante da economia, que a eles lhes cabiam o papel de freio da inflação. Agora, por que cargas d?agua o discurso foi mudado? Já não se fala em frear a inflação. As justificativas dos bancos são a lógica do mercado e os juros da própria dívida do governo. Desta violência de mercado é sabido que o resultado mais visível é a desigualdade social. Ainda que o país tenha se modernizado e milhões de brasileiros atingido um patamar mais elevado da classe que pertencia, essa violência de mercado e de relações de consumo e de trabalho gera, inegavelmente, muita violência nas classes menos favorecidas, visto que se tornou lugar comum as notícias de tragédias familiares ? violência doméstica ? e casos policiais que envolvam jovens e adolescentes, a grande maioria provenientes de classes menos favorecidas. E, desta violência, inexoravelmente assistimos todos os dias à violência na TV.

Ora, como professora de Comunicação Social, é sabido que os produtores de TV no Brasil e nos Estados Unidos ? país esse que se tornou modelo de resultados positivos de audiência desde a existência dos meios de comunicação de massa ? acreditam, via pesquisas de mercado, que o mix "violência, suspense, terror e sexo" é a receita imbatível para qualquer alto índice de audiência. Mas de onde os produtores tirariam tamanha inspiração? Na literatura, mais recentemente em moda com Edgar Allan Poe, por exemplo, um dos ícones da literatura fantástica moderna estadunidense. E, se o gosto literário impõe modelos, por que não seguir a propensão de Allan Poe pelo suspense + terror + violência também no Brasil, em especial em se tratando de literatura juvenil? Em poucas palavras, para explicar Allan Poe, é lugar comum professores de Língua Portuguesa no Brasil, como já ouvi relatos e vi aulas de releitura preparadas para alunos do início do ensino fundamental ? 6ª série - em que a professora faz a leitura de um conto do gênero "suspense?", O Gato Preto, considerado literatura juvenil?... Para que o aluno reescreva a história. Nele, o protagonista é descrito como um alcoólatra viciado que, não conseguindo dominar o vícío e a mania de perseguição pelo gato, parte para uma série de assassinatos, começando pela retirada de um dos olhos do seu gato preto, culminando com uma machadada no cérebro da esposa. Por fim, emparedando-os em sua própria casa e tendo como desfecho o trabalho da polícia investigativa. Mas será mesmo que este é o público adequado para tal gênero e conteúdo desta história?

Quem sabe, então, podemos nos perguntarmos onde começa a violência? Em quais raízes habitariam extrema loucura? É preciso um olhar mais atento aos conteúdos escolares e suas mazelas, desde as ementas dos cursos universitários de Rádio de TV responsáveis por melhores conteúdos veiculados pela TV até a Educação Básica, seus componentes curriculares e seus conteúdos, particularmente em Língua Portuguesa. Muita coisa precisa ser mudada, caso contrário continuaremos em meio de mais, demais e mais violência, nas novelas, nos seriados, nos desenhos animados e na sociedade em geral.

A autora, Adriana Nigro Cardia, é professora universitária de Comunicação Social formada pela ECA ? Escola de Comunicação e Artes da USP

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