Articulistas

Estado de inquietação

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

No mundo desenvolvido, talvez tenha sido o pior Primeiro de Maio dos últimos 40 anos. Na Europa, a situação dos trabalhadores piorou rapidamente a partir de 2009 e agora tornou-se terrível: um em cada quatro trabalhadores não encontra emprego na Espanha, 22% da força de trabalho na Grécia, mais de 15% em Portugal. Nos Estados Unidos os índices de desemprego cederam um pouco nos últimos meses, mas a taxa ainda é terrivelmente incômoda: caiu de 9.1% para 8,2%, ao final do primeiro trimestre. Na Zona do Euro escapam da tragédia Áustria e Alemanha com taxas "civilizadas", mantendo índices de desemprego em torno de 4.5% a 6.5% da população economicamente ativa. Quem está pagando a maior fatura são os jovens com menos de 25 anos, dos quais a metade está desempregada. Para completar a pintura, levantamento da OIT - Organização Internacional do Trabalho, divulgado esta semana em Genebra, aponta para um aumento dos riscos de graves turbulências na Europa, no Oriente Médio e na África do Norte e Subsaariana, devido à inquietação social que mantém em "estado de angústia" 50 milhões de desempregados desde o início da crise dos mercados financeiros em 2008.

Os trabalhadores brasileiros puderam celebrar o seu Primeiro de Maio com bastante tranquilidade porque nossa economia vive uma situação completamente diferente do que existe nos países que até há pouco chamávamos de "ricos" (os desenvolvidos). Clientes da patifaria financeira (em alguns casos "agentes"), oito países da Zona do Euro já entraram em recessão e, desses, apenas dois levantaram um pouco a cabeça, assim mesmo sem resolver os problemas de emprego. No Brasil, felizmente, as condições se apresentam de forma diametralmente oposta: a economia cresce, modestamente, mas continua em crescimento. O emprego ? e isso é que sobressai dos demais fatores - continua crescendo, o salário se valoriza, o consumo aumenta e os serviços também continuam crescendo. O PIB brasileiro cresceu ano passado 2.7% e este ano estamos mantendo um ritmo de crescimento que pode chegar a 4% do Produto entre os últimos trimestres de 2012 e 2013. O que importa mesmo é o crescimento do emprego, que vem acompanhado do aumento da renda e é isso que faz a diferença entre a situação atual do trabalhador brasileiro e a situação de brutal desemprego nos outros países.

Se olharmos adequadamente o que está acontecendo na condição do trabalhador nos países em que as taxas de desemprego não cedem, onde não há oferta de trabalho novo, vemos que seu estado de angústia é mais do que justificado. O relatório da OIT, a que fiz referência, nota que o desemprego na Europa, em quase três anos de crise, já se tornou estrutural em muitos países. A cada dia vai ficando mais difícil reduzir as taxas de desemprego, na medida em que as pessoas que se encontram há mais tempo sem atividade laboral entendem que não mais conseguirão obter um emprego decente, mesmo com a recuperação da economia em seu país. Os níveis de angústia apurados no relatório dão bem uma ideia da situação política explosiva que se armou no velho Continente, desde que a crise se instalou na Zona do Euro.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

Comentários

Comentários