Esportes

Tênis: O especialista

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 12 min

 

“Minha história profissional acho que se trata de um caso de poligamia. De amor pelo esporte, pelo tênis e, especialmente, pelo jornalismo.” Assim se define Chiquinho Leite Moreira. Com mais de 30 anos de profissão, o jornalista se especializou em tênis e cobriu 65 edições de torneios do Grand Slam, os principais do Circuito Mundial da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), sendo 25 anos em Roland Garros, acompanhou em detalhes a carreira de Gustavo Kuerten, viu lendas da modalidade em ação, além de cobrir duas Copas do Mundo de futebol: Argentina, em 1978, e França, em 1998. Hoje, Chiquinho produz e apresenta um programa de tênis no canal Bandsports, às terças-feiras, a partir das 22h, e tem um blog sobre a modalidade no UOL. Chiquinho planeja relatar as histórias que viveu em suas “aventuras” internacionais em um livro, que deve se chamar “Forty Nine, Lancaster Gate, onde tudo começou”, em referência ao endereço da “Casa Brasil”, local onde se hospedou por alguns anos quando cobria o Torneio de Wimbledon. Enquanto o livro não é publicado, o Jornal da Cidade conversou com o jornalista, que está se mudando para Bauru e contou histórias sobre o período em que esteve nos torneios do Grand Slam, falou sobre Guga, e opinou sobre o atual momento do tênis brasileiro. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

 

 

 

JC – O que o Guga tinha que o fez ser um fenômeno em uma modalidade que faz poucos campeões no Brasil?

 

Chiquinho - O Guga não tem muita frescura, ele tem um foco. Logo após ele ser campeão de Roland Garros, jogou em Nottingham, na Inglaterra. Ele nunca tinha entrado em uma quadra de grama e iria estrear contra o Greg Rusedski, que era um tremendo jogar de quadra de grama. O Guga tomou 6-1 no primeiro set e, no segundo, foi 7-5 e ele teve um set point. Ele poderia ter levado para o terceiro. Isso na primeira vez que jogou na grama. Saindo deste torneio, fomos para Wimbledon. O cara tinha um milhão de dólares no bolso, ele tinha sido campeão de Roland Garros há dias. Compramos uma passagem de segunda classe. Ele entrou no trem e tinha uma mulher dormindo do lado dele e o trem balançando. Eu fiquei inconformado. O cara era campeão de Roland Garros! Levantei e perguntei para o funcionário se tinha um lugar para tomar um café. Ele me mostrou um balcão/bar. Eu vi algumas cadeiras e perguntei o que eram. Ele me informou que era a primeira classe. Perguntei se eu poderia ir para lá e ele informou que sim, era só pagar a diferença. Eram seis libras, hoje uns 20 reais. Eu não tive nem dúvida, o milionário lá atrás... (risos). Cheguei lá e falei para ele: “por seis libras, a gente pode sentar lá na frente, na primeira classe”. Ele falou: “ah, tá bom aqui”. E ficou lá. Chegando a Victoria Station, eu estava com problema nas costas, uma hérnia de disco, e a gente carregando coisas. Falei para ele: “Guga, não posso fazer força, tire as minhas malas”. E o Larri (Passos, técnico de Guga) falou para ele ir buscar um carrinho lá fora para carregarmos as malas. O cara foi para Wimbledon como campeão de Roland Garros fazendo um trabalho humilde. A índole dele é tranquila.

 

 

 

JC – E como jogador?

 

Chiquinho – Ele é muito esperto no aspecto competitivo. A gente estava em Cincinatti e ele tinha perdido para o Michael Chang. Não tínhamos o que fazer, fomos assistir à corrida da Indy e fomos a um parque de diversões. Tinha um jogo em que um matava o outro, como paintball, mas com laser. Tinha um colete e quem tomasse cinco tiros caia fora. Estamos olhando como põe o colete e o Guga sumiu. Cadê o Guga? Perguntamos à funcionária e descobrimos que ele já tinha entrado. O que aconteceu? A gente estava em quatro. Quando entramos para começar a brincadeira, ele já estava lá dentro preparado para dar um tiro em cada um. Ou seja, ele é competitivo ao extremo. Ele já bolou uma estratégia para sair na frente. Sabe o que ele ganhou para sair campeão? Nada. É a questão do cara ser competitivo. E é isso que fez com que ele fosse um cara acima da média. Um dia, fui falar com ele sobre a esquerda alta que ele não tinha e passou a desenvolver. Falei que precisava dar os parabéns para o Larri por ter feito com que ele (Guga) conseguisse dar efeito na bola alta, o que é dificílimo. Ele falou: “o Larri, não. Fui eu que vi. Vi o Sampras treinando esta bola e falei para o Larry ir ver como ele fazia porque eu queria fazer igual”. Então, ele é um cara que tinha esta coisa de querer se aperfeiçoar e tinha humildade para aprender. Isso é que marca muito na carreira dele.

 

 

JC – Você cobriu Roland Garros durante 12 anos antes do Guga aparecer. Mas você tinha expectativa, em 1997, de que ele poderia ser campeão?

 

Chiquinho – Tenho um amigão que jogava tênis, o Roberto Jábali, de Ribeirão Preto. Ele ganhava e me ligava. Aí, ele me ligou contando que tinha perdido para o Guga. Eu falei: “pô, já é a terceira vez que você perde para o cara”. Ele falou para eu ir ver o Guga jogar, que ele estava muito solto e jogando demais. Fui ver, ele estava jogando contra o Slava Dosedel (primeira rodada), que não estava conseguindo sacar, e ganhou tranquilamente. Depois, pegou Bjorkman (Jonas) e foi aquela história épica. Ele tinha uma coisa que eu jamais tinha visto, que era sair do buraco. Contra o Muster (Thomas, na terceira rodada), ele estava três abaixo e saiu. Conta o Medvedev (Andrei, nas oitavas de final), ele estava perdendo de 4 a 2 e sempre saindo de situações difíceis. Todo mundo dizia que ele só buscava as linhas. Ele sempre mandava as bolas na linha e era por isso que ele saia das situações. Ele tinha coragem e conseguia ganhar os pontos. Um detalhe técnico: quando você bate uma bola na rede, a tendência é jogar outra mais alta. Ele batia rente à rede de novo, não afrouxava o golpe ou fugia. Era um jogador de coragem e confiança para fazer isso. Se ele perdesse, perderia jogando, não enrolando. Ele foi o primeiro cara ofensivo de fundo de quadra. O título foi uma surpresa. Eu estava de olho nele por causa do Betão (Jábali). O Muster e o Kafelnikov (Ievgeny, era o campeão anterior e caiu nas quartas de final) foram os mais difíceis.

 

 

 

JC – Como é viver os bastidores do circuito mundial de tênis?

 

Chiquinho – Eu me acostumei a cobrir tênis antes do Guga. Fui o primeiro ano para Roland Garros em 1985. De 1985 para 1997, eu passei a maior parte dos meus 25 anos de cobertura de Roland Garros sem ter um brasileiro. Então, me acostumei com a cobertura internacional. Passou a ser interessante para o jornal (O Estado de S. Paulo) por eu estar lá e ter história. Você falar que a Steffi Graf ganhou é diferente de dizer o que ela fez, onde ela estava, como foi esta vitória. O ambiente passa a ter uma cor local e é por isso que funciona. A alma do jornalismo é esta reportagem, é você sair do gabinete. Um dia teve uma briga com um editor que até me dispensou do Estadão duas vezes. Ele me falou que estava tendo uma crise no Corinthians. Eu levantei e ele perguntou onde eu estava indo. Do Estadão para o Parque São Jorge dava 15 minutos. Eu falei: “vou ao Parque São Jorge”. Ele respondeu para fazer por telefone. Eu falei: “se é crise, eu vou ligar e perguntar ‘alô, está tendo uma crise aí?’” (risos). Esta coisa de estar presente é que faz você conhecer histórias de jogadores.

 

 

 

JC – Por exemplo?

 

Chiquinho – O Marat Safin teve um jogo com o Guga que foi a maior final da história entre os dois (Master Series de Hamburgo, em 2000). Foi um jogo de cinco horas. O Marat Safin entrou na sala de imprensa com uma cerveja na mão para oferecer ao Guga (o brasileiro foi campeão). Cerveja é uma instituição na Alemanha, é mais barato que café e água. É por isso que eles bebem tanto, porque alemão é pão-duro (risos). Voltei para o hotel e o elevador ficava em frente ao bar. Fui tomar um chopinho e o Safin estava subindo com duas, três, quatro mulheres. Aí, ele acenou me chamando. Queria que eu entrasse na folia. 

 

 

 

JC – E você foi?

 

Chiquinho – Aí, fica uma questão complicada. Certa vez, um cara o UOL me pediu se poderia publicar esta história. Eu não fui. Mas falei que tinha medo de como ele iria escrever isso aí. “Blogueiro do UOL recusa farra com Safin”. 

 

 

 

JC – Você cobriu 65 edições de torneios do Grand Slam. Qual é o seu preferido?

 

Chiquinho – Eu, particularmente, gosto muito de Roland Garros. Porque não tem Grand Slam no mundo que tem Paris como sede. E não tem jogo à noite. No US Open, por exemplo, você fica até 2h da manhã na primeira semana. Wimbledon fica distante de Londres e você fica hospedado em dois subúrbios que têm o clube no meio e não tem o que fazer. Paris é mais divertido para a gente. Além disso, dentro do torneio, você tem acessos bacanas. Na hora do almoço, o vinho é grátis (risos). O vinho é institucional na França. 

 

 

 

JC – E o Australian Open?

 

Chiquinho – A Austrália, dos torneios de Grand Slam, é o mais tranquilo. Em alguns momentos, você acha até que não tem muita cara de Slam. Mas ele é grandioso também e tem muita facilidade de a cidade (Melbourne) estar muito próxima. E tem uma torcida muito inflamada. Não sei o motivo, mas os suecos estão sempre de férias lá e tem uma colônia grande de pessoas do Leste Europeu. Ele é dos mais bem organizados. Vale a pena? Vale. A distância é muito grande, o calor, quando chega a 35, 36 graus, tem que parar os jogos. Mas eles ficam enrolando até 38 graus. É o primeiro Grand Slam que tem duas quadras cobertas. Tem a facilidade também de você conseguir entrar e ver jogos secundários. Isso é legal. Em Wimbledon, para você ver um jogo secundário, fica uns 15 minutos para voltar. Não anda, fica tudo travado e tem que ir pedindo licença. Roland Garros é o menor espaço físico dos Grand Slams. Na Austrália, não. Você está vendo um Slam, com todo mundo jogando, com as facilidades de um torneio que você consegue ingresso. O problema de um Grand Slam é conseguir ingressos. Todo mundo sofre na mão de cambista. 

 

 

 

JC – Mas em relação à atmosfera dos Slams, tem algum que você considera ter uma magia diferente?

 

Chiquinho – Vou insistir com Roland Garros. Porque todos me dão uma dose de emoção. Em Wimbledon você tem a tradição, todo mundo de branco, que lhe comove. No US Open tem toda aquela festa. Uma sessão noturna do US Open é uma coisa eletrizante. Cada um tem um aspecto. Eu, particularmente, gosto muito de Roland Garros por causa da frequência e pelas memórias do Guga. Foi onde ele reinou. Mas todos têm uma emoção muito forte. Você está em um templo do esporte. Eu definiria assim: Austrália é o mais tranquilo; Roland Garros, o mais charmoso; Wimbledon é o que tem mais tradição, fleuma; o US Open é a maior festa.

 

 

 

 

JC – E o tênis brasileiro atual? Qual sua opinião? O Thomaz Bellucci chegou a ser o 21º do mundo, mas oscila muito.

 

Chiquinho – O Thomaz Bellucci tem um tênis moderno e pode beliscar uma vaga entre os 20 do mundo, chegar perto dos dez. Tem potencial. Mas o tênis, hoje, é jogado 70% da cintura para baixo, porque bater na bola todos sabem. Ele precisa ter um pouco do Meligeni (Fernando), daquela garra, sangue nos olhos. Ele é muito apático. Eu conheci o Guga na Europa e não o vi jogar no Brasil, mas o vi jogar muito na Europa. O tênis precisa que você viaje. O brasileiro que joga tênis vem de uma classe social relativamente mais alta. Temos, basicamente, dois tipos de tenista. Aquele que era pegador de bola e se contenta com entrar no profissionalismo. E o outro, que vem de uma família melhor de vida e não se sujeita a coisas que o Guga se sujeitava. Por exemplo, ficar em hotéis baratos, carregar mala de treinador, jornalista e também estar focado no torneio. Brasileiro quer saber em qual torneio está, se está na chave, se alguém vai buscá-lo no aeroporto e em qual hotel vai ficar. Então, a gente teria que aprender a mentalidade dos argentinos. Eles não medem sacrifício para jogar e ficar viajando. É cultural. Assim como os tenistas do Leste Europeu, têm a característica da determinação. É a única maneira de jogar tênis, estando nos grandes centros do circuito. Sempre se falou muito sobre não aproveitar a herança da “era Guga”, mas aumentou muito o número de pessoas interessadas em tênis. Agora, tem a questão de ter a quantidade e não a ilusão. Depois da “era Guga” todo mundo pensava que iria jogar igual ao Guga e não é assim. Depende muito de sacrifício, o funil é muito apertado. Tem muita grana no tênis, mas quem ganha dinheiro é quem está entre os 50 (do mundo). O brasileiro prefere ir fazer universidade nos Estados Unidos. Se não der certo no tênis, ele volta com um diploma e falando inglês. Antigamente, o tênis universitário era uma porta de entrada no profissionalismo. Hoje, ele já é um atraso. A carga de treinamento de um tenista profissional é muito grande e não se compara a um tenista universitário.

 

 

 

JC – E o tênis feminino do Brasil?

 

Chiquinho – Estamos há 20 anos sem ter ninguém entre as 100 (melhores do mundo), há 20 anos sem ter ninguém jogando Grand Slam. A situação fica mais difícil no feminino. É difícil um menino ficar viajando quatro meses. Você vai pegar sua filha de 14 anos e pôr na mão de um técnico? Tem a questão da nossa latinidade. A criação do Leste Europeu é diferente, não tem essa coisa de machismo. As meninas viajam e não tem esta preocupação dos pais. Não sei se está certo ou errado, mas a gente tem esta preocupação. É cultural. Nunca vi alguém perguntar se a Maria Sharapova era virgem ou não. Aqui, a Sandy tinha que responder isso toda hora. Passa por tudo isso.

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