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Agora é cinza...

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

"Mais vale extinguir-se na luz brilhante de uma chama do que ser devorado pelos vermes" ? assim dizia o poeta bauruense Nidoval Reis, patrono da cadeira que eu ocupo na Academia Bauruense de Letras. Deixou registrado em cartório a sua vontade de ser cremado e as cinzas espalhadas nos canteiros da Praça Rui Barbosa, "para servir de adubo às plantas e comida aos passarinhos". Se é que passarinho come cinza... Mas, ele morreu e a d. Hilda cumpriu seu desejo, que incluía a doação dos seus olhos para transplante das córneas. Na manchete de ontem, o JC noticia que Bauru vai ter um forno crematório para satisfazer esse tipo de "último desejo" diante do inexorável. Não será mais preciso trasladar o corpo para São Paulo ou outro centro distante. Há quem ache que a incineração da nossa carcaça somática e visceral é ecologicamente correta.

Os cemitérios comuns contaminam o lençol freático pela decomposição dos corpos nas valas de sete palmos. Túmulos servem de ninho à baratas e escorpiões. A população cresceu e as terras ficam cada vez mais valorizadas. A bem da verdade, esses mausoléus projetam sombras e compõem ambientes próprios para filmes de terror. São horríveis, além de insalubres. Ao revés, as cinzas gozam de portabilidade. Podem ser guardadas numa urna de madeira ou metal que cabe em qualquer estante doméstica. Quem se sentir incomodado com esse guardado mórbido, que mande atirar os restos de helicóptero, sobre alguma floresta. Nos Estados Unidos vendem-se cápsulas porta-cinzas para serem mandadas via foguete ao espaço. Vão ficar eternamente em órbita. É romântico despejá-las nas ondas do mar. Modestamente, talvez valha à pena se livrar desses restos no histórico Rio Batalha, como prova de amor à cidade. Defunto que em vida foi ruim para a mulher e os filhos merece mais é o Rio Bauru, para fazer companhia aos detritos que o Rodrigo não consegue tratar. Tia Nicota sempre quis se cremada. Católica praticante tinha suas dúvidas se a igreja aprovaria o seu último desejo. Consultou o padre da paróquia de Santa Cecília. Ele disse que não havia nada contra, na Bíblia. Um dia Deus vai ressuscitar nossos corpos e reuni-los com nossas almas (Coríntios 15:35-38). O bondoso vigário, confessor da titia explicava que os cristãos mortos a milhares de anos já viraram pó e Deus não vai deixar de ressuscitá-los só por causa disso. Tia Nicota morreu e as cinzas foram fraternalmente divididas em simpáticos vasinhos indianos. As cores vivas marchetadas sobre o dourado do vaso exposto na estante da casa de uma das filhas atraíam a atenção da netinha. "Me deixa brincar com a vovó..." Justo prêmio para quem comeu toda a papinha. Jesus foi enterrado segundo a Lei Mosaica, embrulhado numa mortalha. Ressuscitou de corpo e alma. Os judeus veem no tradicional enterro o lado piedoso. Os corpos não podem ser destruídos. Para eles a alma se separa lentamente durante a decomposição. Allan Kardec está enterrado no Cemitério Père-Lachaise, em Paris. Seu túmulo é um dos mais visitados. Ele dizia que "o homem não tem medo da morte, mas da transição. Elos de sensibilidade permanecem e precisam ser respeitados". Seria preciso devotar ao corpo o devido valor que ele merece. Mas não há fatores impeditivos na doutrina espírita. O bauruense Richard Simonetti, que escreveu um best-seller sobre a "Morte", ensina que a alma se separa do corpo lentamente, mas não demora tanto como defendem os judeus. Leva umas 72 horas para se desvincular do corpo. Durante esse interregno não seria aconselhável a cremação.

A cremação existe desde o período paleolítico, idade da pedra polida. No Oriente é uma prática consagrada. Os mais ricos usam toras de sândalo, para disfarçar o cheiro de carne queimada na fogueira. Os hindus acreditam que as chamas eliminam os defeitos das pessoas e libertam a alma que se evola como a fumaça. Vale a praticidade do mundo moderno. Os restos mortais viram cinzas e ninguém precisa se preocupar com túmulos dos antepassados, mandar limpá-los para as visitas de Finados, pagar taxas de manutenção e dar outras demonstrações de afeto fingido. As viúvas vão se sentir desobrigadas das visitas periódicas aos jazigos, com aquele buquê de flores baldias, só para dizer que o finado deixou saudades.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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